chegar em merlo com a tormenta

eu no ônibus em meu lugarzinho preferido (na frente de tudo no andar de cima) e ao meu lado uma senhora muito personagem e um rapaz muito prestativo que ouvia com atenção a tudo que a mulher lhe dizia; atrás duas mulheres que se seguravam horrores pra não rir da situação e das coisas que dizia a mulher.

do lado de fora umas nuvens negras e relâmpagos que se acumulavam na distância mais ou menos onde teoricamente estava Merlo.

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e as nuvens abraçando por cima as montanhas como se num tobogã.

era viagem curta de duas horas e foi chegar na rodoviária de Merlo a tormenta chegou junto, com vento e água e relâmpagos. no ponto de táxi encontrei as duas mulheres que vieram atrás de mim no ônibus e combinamos de dividir o táxi já que elas paravam na mesma avenida que eu, um pouco antes. o problema foi esperar o táxi quando começou a cair a água. acabamos chamando um remis.

alcancei o Merlo Hostel debaixo de chuva forte. o hostel fica numa avenida grande e cheia de comércio do tipo destino turístico: restaurante, lojinhas, hotéis mil. Merlo é meio cidade grande (depois de tanto povoado chego nesses lugares e um pouco me assusto).

fazia já um bom tempo que não via tormenta desse tipo; em San Marcos tinha rolado vento mas só um pouco de água. me receberam Mariano, o dono (um cordobês), e Djules, um brasileiro de Porto Alegre que está por ali desde o começo do ano. pedi umas empanadas por delivery porque não ia rolar sair pra comprar comida e me juntei à turma pro jantar.

estava fora da província de Córdoba mais uma vez.

em villa las rosas sem destino

na quarta-feira o Oliver voltou pra Córdoba de onde tinha planos de ir a Cafayate, e eu resolvi descansar os joelhos no hostel em Mina Clavero mais um dia. a turma já tinha toda ido embora e eu passei o dia nerdeando.

nerdear é preciso.

pensei até mesmo em ficar mais duas noites, mas no dia seguinte falando com a alemã por mensagem ela comentou que estava em Villa Las Rosas e pensava em passar uma noite ou duas num micro povoado ali perto chamado Los Molles, e estava arrumando as coisas pra sair e tomar o café da manhã, e eu podia encontrá-la por lá e aí vemos.

que eu sou meio sucker por essas coisas de mudar de ideia em cima da hora. fiz a mochila em quinze minutos e toquei pra rodoviária; tive que esperar meia hora pro próximo ônibus e cheguei por volta de meio dia. Lisa estava batendo papo com uns tipos na cafeteria e um deles nos podia levar de carro até Los Molles.

aí mais uma vez a mochila nas costas sem saber onde eu ia dormir à noite.

em Los Molles o hostel estava lotado e as outras hospedagens eram todas muito caras. decidimos caminhar um pouco. o sujeito que nos levou, José, ficou com minha mochila grande e voltou pra Las Rosas. eu e Lisa voltamos caminhando e conversando e aproveitando que o dia estava bem nublado (e meio chuviscoso). fizemos o caminho em menos de uma hora e nos sentamos na praça de Las Rosas num espacinho coberto pra comer alguma coisa e decidir que íamos fazer.

essa alegriazinha que não sei explicar de estar sentada no chão na praça e está chovendo e posso decidir o rumo que quero tomar e todos os rumos são possíveis e lindos e não tenho nenhum outro lugar pra estar.

Lisa não sabia se queria ir a San Marcos Sierra, Córdoba ou Merlo. eu tinha pensado em passar por San Javier antes de Merlo, já na província de San Luís, mas ao final me pareceu que melhor era seguir direto pra onde eu tinha hostel e podia ficar mais tranquila. José nos disse que estava por perto e nos levou de volta a mochila. Lisa foi buscar suas coisas que tinha deixado no hostal e nos encontramos de volta na rodoviária. eram umas quatro da tarde.

ela comprou passagem pra Córdoba às 17h30 e eu pra Merlo às 18h30.

então matar tempo. depois que Lisa subiu no ônibus eu abri meu computador pra escrever a newsletter e selecionar as fotos de Mina Clavero. nem vi o tempo passar.

caminhada na quebrada de los condoritos

acordar foi fácil.

depois que a coisa foi se complicando.

tomamos o ônibus que saía 8h10 com destino à Córdoba e descemos na pista no meio das Altas Cumbres, na entrada do parque.

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Oliver fazendo o gringo clássico versão caminhada; falta a garrafa de água que obviamente estava aos seus pés.

até o centro de visitantes eram dois quilômetros (vai contando). nos registramos e escutamos a explicação do caminho: uma caminhada de 6 km (a moça do parque dizia duas horas de caminhada mas é um exagero) e chegaríamos a uma bifurcação, de onde se poderia ir ao balcón sur ou à quebrada (o rio) e mais adiante ao balcón norte.

decidimos caminhar e descobrir depois que rumo a gente ia tomar.

não tem sombra, mas o caminho é lindo. esses arbustos com esse verde amarelo quase dourado e o céu azul, as pedras cinzentas por todos os lados.

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na bifurcação tomamos o caminho da esquerda ao balcón sur: uma descida bem íngreme que foi lentamente destruindo meus joelhos, como convém. pra piorar no dia anterior eu tinha topado um dedo do pé numa pedra do nido e a bota me estava torturando um tanto. alcançamos o mirante e não vimos nenhum condor.

puf.

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quebrada de los condoritos.

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não sabemos bem se esses eram condores ou jotes.

então subimos.

puf puf puf.

e tomamos o outro caminho pra descer à quebrada.

puf.

joelho já estava mei indignado porque não queria mais descer nada e também o Oliver começou a sofrer com um dedo do pé. chegamos à quebrada no tempo em que uma nuvem bem grande e amiga cobria o sol. foi escolher um lugarzinho pro nosso piquenique, tirar as botas, comer e ficar um pouco à toa.

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sanduba triplo by Oliver.

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esse sim é um condor.

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dali vimos uns condores bem distantes e decidimos que não tínhamos bem pique nem tempo pra subir até o balcón norte porque joelho, dedo, pé; tudo estragado. também que foram dois dias anteriores de um monte de caminhada e o corpo uma hora diz chega, né.

eram duas e meia quando começamos a voltar, pensando se quem sabe conseguíamos o ônibus das 16h. claro que não conseguimos.

quase no centro de visitantes estávamos os dois caminhando meio torto. alcançamos a estrada um pouco antes das 17h e o próximo ônibus passaria por volta de 18h. nos restou pedir carona e ver a turma passando a toda velocidade e nem percebendo que a gente estava ali com o dedo erguido. parou um carro que só cabia um e depois de uns quarenta minutos (o sol já tinha voltado) parou um rapaz indo a Villa Dolores que nos foi contando de todas as suas aventuras e desventuras amorosas ao longo do caminho.

da entrada de Mina Clavero ainda tomamos um táxi porque tinha acabado perna e pé. inclusive nem sobrou muita pilha pra cozinhar: tomamos umas cervejas e pedimos pizza e devoramos toda a pizza. bem mortinhos.

passeios em mina clavero e arredores

a semana em Mina Clavero foi bastante agitada. que é quando se junta uma turma com pilha pra se deslocar pra todo lado e bueno, se está a companhia a gente aproveita. também porque eu já tinha descansado um tanto em San Marcos e Valle Hermoso e está bem passar uns dias ocupados.

no sábado de manhã me juntei à turma do hostel pra visitar Villa Las Rosas, alguns quilômetros ao sul de Mina Clavero. é o dia da feira de artesanatos e comida (principalmente comida) e… uh, quanta comida. empanadas gigantes, estranhas opções vegetarianas, um tipo que vendia tacos e ficou cantando samba tocando um pandeiro quando descobriu que eu era brasileira. difícil foi escolher. mais ainda porque eu não ia ficar muito tempo (tinha prometido ao Oliver, o suíço, que o encontraria na rodoviária de Mina Clavero e ele chegava às três da tarde).

depois de uma empanada de queijo e um sanduíche em pão de farinha de milho (tipo uma tapioca de milho) com um monte de coisa dentro, tomei de volta o ônibus e na rodoviária de Mina Clavero esperei um pouco até que aparecesse o Sierra Bus em que vinha Oliver.

o tempo de chegar ao hostel acomodar-se etc foi também o tempo de voltar a turma e tocamos todos mais uma vez ao Nido de Águila, que dessa vez estava lotadaço.

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nos metemos rio acima nadando até encontrar uma passagem por baixo de umas pedras, uma queda mei sem vergonha de água por entre outra pedra enorme que se fazia de teto equilibrada entre outras duas. chegamos a uma praiazinha e ficamos ali batendo papo. não tem foto porque, enfim, só dava pra chegar ali nadando e a câmera não sabe nadar.

era a noite de lua cheia então decidimos esperar que fosse o sol e subisse a lua.

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antes ainda nos metemos mais uma vez na água quando já estava escuro e o balneário estava praticamente vazio. a água já estava bem mais quentinha depois de todo um dia de sol forte. no topo das pedras mais altas (de onde uma turma bem louca costuma saltar já que a piscina que se forma naquele pedaço é profunda) tinha umas outras pessoas esperando a lua.

a volta foi meio aos tropeços porque Oliver estava com fome e não tinha muita paciência pra esperar que a lua subisse o suficiente pra iluminar o caminho. mas ok, alcançamos o povoado e as ruas com iluminação.

dia seguinte eu e Oliver enfrentamos uma caminhada: Nacho nos sugeriu um balneário chamado Las Maravillas, seguindo ao norte, que teoricamente ficava a 5 km de distância mas depois que já havíamos caminhado uns 3 km perguntamos a uma moça no caminho e nos disse que faltavam uns seis. estava boa a conversa mas o sol estava matando; por isso parecia mais longe? no final das contas acho que caminhamos menos de duas horas.

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e na verdade nem entramos na água. eu meti os pés e lavei a cara, mas tinha ali uma sombrinha boa pra ficar olhando o tempo passar discutindo a vida e as crises e o ego. quando voltamos à órbita da terra a barriga estava roncando e nem tínhamos tanta comida assim.

alcançamos a estrada principal e conseguimos uma carona esperta que nos deixou na porta do hostel.

almoço saiu às 18h. chamamos Lisa, a alemã, pra comer com a gente; o casal de poloneses tinha feito um super arroz amarelo e fizemos um lindo intercâmbio culinário.

se no dia seguinte o plano foi visitar o povoado de Nono pra não caminhar tanto falhamos miseravelmente: da parada de ônibus até o famigerado museu Rocsen eram uns 6 km sob o sol. morremos um pouquinho mas ok. que o Oliver tem essa mania de gringo de levar uma garrafa gigante de água debaixo do braço pra todo lado, então de sede não sofremos (muito; porque claro que a água estava quente em dez minutos).

foi uma linda caminhada. na entrada do museu comemos alguma porcaria pra restaurar as energias antes de enfrentar o infinito acervo de… coisas.

o Rocsen é um museu de COISAS.

que coisas?, você pergunta.

TODAS as COISAS.

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Oliver achou que faltavam coisas sobre sexo e eu achei que faltavam coisas sobre futebol.

não sei se isso diz algo sobre o colecionador ou sobre nós mesmos.

estamos na Argentina CADÊ FUTEBOL.

mas COISAS.

porque é um museu particular, de um maluco que por mais de 50 anos foi colecionando coisas. me pergunto o quão neurótico tem que ser o sujeito pra ir acumulando tanta tranqueira. há algo de curioso em tudo aquilo e afinal pagamos os 50 pesos pra entrar, mas ainda assim é bastante assustadora essa incapacidade de deixar o passado morrer um pouquinho. são coisas, afinal.

a volta caminhamos pedindo carona e conseguimos uma que nos deixou direto em Mina Clavero. ufa ufa. caminhamos só um pouquinho até a avenida San Martin, compramos empanadas e seguimos ao Nido de Áquilo porque depois de tanto sol na cabeça tudo que a gente queria mesmo era um pouco de água fria. estava cheio pelo feriado e inclusive uma turma com bastante fernet com coca na cabeça fazendo bagunça, mas nos escondemos um pouco pra saltar no rio e depois dar uma cochiladinha.

o plano pro dia seguinte era acordar às sete e visitar o Parque Nacional Quebrada de los Condoritos. Nacho ia deixar algumas coisas do café da manhã pra gente comer antes que ele precisasse acordar.

fizemos um guacamole genial que matamos com o que tinha sobrado do macarrão do dia anterior e tomamos um pouco de vinho junto da turma que estava do lado de fora fazendo mais uma noite de asado.

mina clavero: amor à primeira vista

o caminho pelas Altas Cumbres é uma belezinha. essa mistura de verde e pedras e montanhas e embora eu estivesse numa janela no fundo do ônibus e a turma toda com as cortinas fechadas por causa do sol forte do fim do dia algo se podia ver do percurso.

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quando apareceu finalmente o vale de Traslasierra e o ônibus foi serpenteando pela encosta da montanha eu já estava meio apaixonada pela região. tem lugares que são assim: você nem conhece direito e já te agarram, te chamam. é amor à primeira vista. foi assim com Mina Clavero. estava ali o vale e eu pensava que estava chegando em mais um lugar pra pôr na minha lista de lugares para morar.

também quando o ônibus entrou no povoado e parou na rodoviária; eu desci, peguei minha mochila e me meti no escritório de informação turística pra descobrir como chegar ao hostel (celular já estava morto). mocinha mui simpática me explicou o caminho e indicou ainda outros dois hostels pro caso de aquele não funcionar. então pus os pés numa das avenidas principais e… estava mesmo apaixonada por aquele lugar.

não tem nada demais. é um povoado turístico como são todos ali pelas serras de Córdoba, mas.

algo.

atravessei uma ponte, tomei a esquerda e pela outra avenida principal cheguei ao hostel Andamundos. me recebeu o dono que me explicou como tudo funcionava etc. era quinta-feira pré fim de semana emendado (segunda-feira seria feriado) mas por enquanto Mina Clavero estava bem tranquila. saí pra caminhar, tirar dinheiro, comprar comida. mandei mensagem ao suíço e disse que venha sim que o lugar é lindo o hostel é massa.

de fato a turma do hostel ajudou a criar uma boa primeira impressão. já me juntei com uma alemã pra fazer uma salada que comemos junto de um casal de poloneses (dois personagens) que nos ofereceram um pouco de macarrão com molho branco de espinafre e roquefort. o rapaz que cuidava do hostel pela noite e pela manhã era um tipo mui buena onda e matei um tempo conversando com ele enquanto ele limpava um dos quartos.

Nacho e seu porta-mate

Nacho e seu porta-mate

no dia seguinte pela manhã acompanhei Nacho (o do hostel), mais outros três de Buenos Aires (um rapaz e duas meninas) ao Nido de Águila, um balneário do rio Mina Clavero que é um troço lindo apesar de uma água fria de matar.

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nem dava pra acreditar muito que aquele lugar ficava só a alguns minutos de caminhada do hostel. ficamos bem à toa, fizemos um piquenique, tomamos mate e comemos amendoim. o sol ia fazendo sua curva e a gente ia se metendo cada vez mais pra dentro da pedra onde a sombra se encolhia com o passar do tempo.

me meti na água umas duas vezes, a segunda sem pensar muito um pouco antes de ir embora. a água tinha esquentado um pouquinho com a tarde. não muito.

voltei ao hostel ainda mais apaixonada por aquele lugar.