olivia maia - escritora desterrada.

a sombra do vento

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não lembro mais quem me indicou esse livro, mas lembro que foi suficiente para me deixar curiosa. já tinha topado com os títulos do Zafón nas livrarias e confesso que esses livros em tamanho 23x16cm me cheiram a embuste midiático e historinha para tia. enfim enfim, fui atrás do livro no original, para aproveitar que estou aprendendo espanhol e não custa treinar um pouquinho.

demorei para pegar o ritmo da leitura por motivos diversos: trabalho, tempo, preguiça. o começo é um pouco arrastado. depois do final do último feriado cuidando de namorado doente e algumas horas em sala de espera de hospital, a leitura avançou um pouco e me prendeu. de volta ao trabalho meu chefe viu o livro sobre minha mesa e disse que estava mais ou menos no mesmo ponto da leitura. comentei que tinha achado o começo meio lento, e chefinho disse que não, que o autor tinha uma técnica bem apurada para te amarrar na história e que todas aquelas voltas eram parte dessa técnica.

depois pensei que ele tinha razão. afora meus outros impedimentos externos para avançar, a história segue sempre amarradinha, te jogando adiante. a técnica é boa, ainda que muito “técnica”, digamos. não precisaria, talvez, essas 570 páginas para contar toda a história.

passei a última semana lendo sempre que podia. parei uma noite antes das dez horas porque achei que se continuasse lendo teria pesadelos. melhor era esperar a luz do dia. joguei um pouco de sudoku no celular para me distrair. mérito do livro? sem dúvida. depois segui lendo, sem conseguir parar, mas ao mesmo tempo um pouco aborrecida com o dramalhão que vai se construindo. me pergunto se o livro se sustentaria com menos drama e mais mistério; se talvez a base da história não seja na verdade só esse dramalhão oculto que o autor vai nos negando a integridade.

quero dizer: pelo tamanho do feito e da história, pela quantidade de personagens e suas relações, pelos detalhes do mistério e por saber como organizá-los e oferecê-los ao leitor, não há dúvida de que o autor tem mérito. o livro é desses para não largar. mas chega a página 450 dessas 570 e se desfaz o mistério para dar espaço a um drama gigantesco de escolhas equivocadas e tristeza e solidão. nessa hora não pude deixar de pensar que, uff, menos.

gostei do livro, mas não sei se quero ler os outros da série. ou porque não me impressiona muito a técnica apurada, os personagens bem construídos e as artimanhas para prender o leitor quando a narrativa peca pelo exagero do drama, de dizer ao leitor olha como sofrem essas pessoas, venha você também sofrer com elas. solta a mão do leitor um pouco; ele é capaz de decidir sozinho a quem vai sua compaixão.

posso estar sendo um pouco injusta. penso no narrador enquanto escrevo e me parece que ele não tem culpa; ele não está se fazendo de coitadinho (ok, só um pouquinho, só em alguns momentos). a história dele e a investigação em que ele se mete são ótimas. o problema é o dramalhão mexicano que ele vai encontrar, coitado, por trás da história do escritor Julián Carax.

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