olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

antofagasta de la sierra: escalando vulcões

sim, você leu bem: escalando vulcões.

aviso: esse post está chegando atrasado embora no blog eu tenha metido dentro da ordem dos relatos (ou seja, logo depois que cheguei em Antofagasta de la Sierra); foi porque depois de uma semana me dei conta que estava ali esquecido nos rascunhos. ops.

deixa antes dizer uma coisa: que lugar.

acordei, saí e andei até a praça e percebi que o povoado está metido entre montanhas, como convém: um paredão rochoso, umas montanhas cobertas de cinza vulcânica (ou areia) e que por isso são uma mescla de montanha com dunas. e aquela imensidão da puna. subi num mirantezinho ali ao lado e quase caí pra trás.

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ao fundo ainda se podia ver um pedacinho do vulcão Galán, a grande estrela da região, e aparentemente o vulcão com a cratera mais larga do mundo (ou qualquer hipérbole dessas que tanto os argentinos gostam).

resolvi que queria caminhar e depois de comer me informou Adrian que ia na direção do vulcão Antofagasta, o mais próximo do povoado, e que podia me deixar por lá. a volta seriam 10 km que eu podia fazer caminhando. listo. daquele mirante em que subi pela manhã eu conseguia ver esse vulcão e um outro, mais distante, mais colorido. às 10h20 estava na entrada do caminho até a base do vulcão.

o caminho é areia entre pedras negras; um campo cheio de lava petrificada. e bosta de cabra esbranquiçada. essas cabras estão por toda parte.

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em vinte minutos alcancei a base do vulcão depois de pelo caminho ir enchendo a bochecha de folhas de coca até ficar igual esses motoristas de ônibus que atravessam montanhas e parecem que têm uma bola de golfe metida na boca. comecei a subida.

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quem nunca esteve na altitude pode imaginar a altitude assim: o fôlego que precisa pra correr cem metros é o fôlego que precisa pra dar uns dez passos numa subida.

o vulcão tem 600 metros de altura desde a base, o que significa que tem quase quatro mil metros de altitude no topo. e eu levei menos de quarenta minutos pra chegar lá em cima, e pode aplaudir porque putz. teve um trecho ali que eu não sei como subir (inclusive quando estava descendo fui rindo sozinha porque não sabia como tinha conseguido subir) de tão inclinado. mas cheguei.

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e já senti um vento quentinho vindo da cratera do vulcão.

vê: não tem nada demais, é um buracão na rocha. mas que sopra um vento quentinho.

pus uma pedrinha na apacheta e agradeci pachamama mais uma vez porque, né.

e fui caminhando pela borda da cratera e rindo e pensando aqui estou nesse 1o de novembro de 2014 na borda de um vulcão que eu escalei sozinha.

a vista era mais ou menos assim:

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fiz toda a volta pela borda até o ponto mais alto, de onde se vê bem o vulcão vizinho, todo colorido. e o mar de montanhas atrás dele, todas sob um véu arenoso que suaviza as pontas e as encostas. bem-vinda à puna catamarquenha.

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fiz ali no topo do vulcão meu piquenique com bananas e bolachinhas, matei uma hora e resolvi voltar. estava ali de cima mirando uns flamingos rosados na lagoa ao lado, e pensando que queria chegar até eles.

desci (ou patinei) pelo mesmo caminho e ali embaixo em vez de voltar pro ponto em que me havia deixado Adrian, fui dando a volta pela base do vulcão, caminhando pela areia e pelas pedras, inventando caminhos que não existiam. era um caminho mais ou menos interminável mas a cada curva, a cada pico uma nova paisagem. encontrei a lagoa e os flamingos e desci a última duna devagarzinho até a orla.

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os flamingos se fazem de desentendidos e vão caminhando pela água se afastando de você, intruso maldito. mas fingem que nem te viram. em menos de dez minutos já estão em outro ponto da lagoa. outro pássaro, branco de asa negra na ponta, ficou voando sobre minha cabeça e gritando e por um momento eu pensei que ele ia me atacar. como o vento estava forte e sempre deixava ele planando sem sair do lugar, achei que estava mais ou menos segura.

matei um tempo perseguindo flamingos e comendo o que me restava de bolachinhas, enchi outra vez a boca de folha de coca e empreendi o caminho de volta. ou: fui inventando o caminho de volta. segui mais ou menos pela borda da lagoa pra não me meter muito no infinito campo de lava petrificada. passei por umas ruínas de algo (certeza que não foi o vulcão que empilhou as pedras daquele jeito fazendo muretas e paredes) e finalmente cheguei ao fim das pedras.

finalmente modo de dizer, porque parecia que não ia chegar nunca.

duas meninas estavam ali com um rapaz tirando fotos. uma moto estacionada. (funciona assim: três na mesma moto.) conversei um pouco com elas e tomei o rumo da estrada. depois eles passariam por mim a baixa velocidade se equilibrando na moto que convenhamos era na verdade uma scooter. eu tinha uns seis ou sete quilômetros ainda pra caminhar. e um vento de te levar voando (pro lado oposto, obviamente).

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acho que caminhei uns quatro. talvez cinco. passou no sentido contrário um caminhãozinho da gendarmería nacional e uma moto. e o vento.

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quando faltava pouco e eu estava me preparando pra tirar uma foto de uma estrutura rochosa curiosa, vi que se aproximavam duas caminhonetas. tirei as fotos rapidinho e esperei pra pedir carona. eles pararam, mas estavam todos lotados. desses que fazem essas travessias gigantescas. mui simpaticamente numa das caminhonetas o rapaz que ia no banco de trás se espremeu sobre as caixas de mantimentos e fizeram espaço pra eu subir.

eram de Rosário e vinham de Belén. ficaram na Hostería Municipal e segui caminhando as longas duas quadras até o hostel do Adrian, onde tomei dois copos de suco e dei uma leve capotadinha.

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