olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

carta aberta ao meu (ex-)chefe

antes de mais nada, obrigada.

obrigada por acreditar em mim, obrigada por confiar em mim, sempre muito mais do que eu consegui acreditar e confiar em mim mesma.

você foi muito mais amigo do que esperava ser, por dizer que não é bem esse o meu papel e isso não é da minha conta etc. esse esforço todo para se manter longe dos assuntos pessoais alheios e tanta a capacidade para ouvir e compreender; um contrassenso. a gente bem sabe que você tenta ser chefe, mas vai ser sempre aquele que dá bronca como quem dá conselho e ordens impossíveis como quem faz um desafio: quero isso aqui na minha mesa pra já, vou terminar uma coisa em quinze minutos e já te ligo, pode ser? se vira aí, tchau. sem dar tempo de responder, sabendo que é pedido para uma semana, só para poder depois reclamar tentando se fazer de sério e poxa, você já foi mais eficiente.

não é por não te levar a sério. são poucas as pessoas em quem confio com tarefas que são de meu domínio, e você é uma delas. sou teimosa e cabeça dura, você sabe. ter a sua confiança é motivo de orgulho, é motivo para duvidar dessa decisão de ir embora, é motivo para acreditar que talvez eu devesse dar mais uma chance ao trabalho.

mas é que não é o trabalho; vê? uns dois meses antes de ir embora perguntei para uma professora que exausta fazia uma pausa e tomava um chá mate na cantina como você aguenta? porque dois cursos mais trabalho de coordenação (e duas filhas em casa). a resposta foi bem simples: ainda sobra tesão pelo que faço; o retorno compensa. não é isso? imagino que seja o mesmo com você que também esse acúmulo de cargos e funções. o retorno compensa, o trabalho faz sentido.

e, claro, pensando assim, entendo e agradeço o pedido: se confia em mim, se se sente seguro para delegar funções que tão importantes; como não? somos uma boa dupla, é verdade. são poucos os que entendem esse meu jeito meio tosco de me relacionar com as pessoas, e esse meu jeito exageradamente prático e direto que a maioria confunde por grosseria e que afinal talvez seja mesmo um pouco de grosseria (você sabe que não é por mal).

pensei muito depois que conversamos, quando você pediu calma, disse que não concordaria tão prontamente como meu outro chefe e pediu que eu repensasse minha decisão. que talvez fosse a aula; que talvez dar aula não fosse para mim, que tentei e não deu certo, tudo bem. claro. você tem razão, como quase sempre tem razão: dar aula não é para mim. estranho pensar assim, porque sempre pensei que a única coisa que me restava era dar aulas. se não sirvo para dar aulas, não devo servir para coisa nenhuma.

não sirvo para dar aulas. não é para mim.

gosto de escrever. numa função administrativa sobraria talvez mais tempo para escrever e, principalmente, mais cabeça para escrever. mas que coisa estranha essa de viver para o tempo que sobra, não?

também porque com um cargo a menos eu ia ganhar menos. aí talvez aumentar a carga horária e ganhar mais para sobreviver nesta cidade terrível. fosse para ficar por são paulo, sairia da casa da minha mãe. aí aluguel, as contas; trabalhar mais, ganhar mais? trabalhar quanto? e quanto tempo sobra?

não vou negar que essas contas todas tiveram alguma influência na minha decisão, mas isso é mera racionalização de um problema maior. o dinheiro acaba e trabalhar é inevitável. então pensei muito. porque você tem razão, você é inteligente demais. e também por ser inteligente já imaginava que minha decisão não mudaria. imaginava mesmo quando eu duvidei, mais uma vez, de mim mesma.

“você vai mesmo, né?” foi o que você disse, antes que eu pudesse responder, depois de me dar aquela semana para pensar mais um pouco. eu ia dar uma volta imensa, falar das minhas dúvidas, tentar explicar o que não faz sentido racionalizar porque afinal você tinha mesmo todos os melhores argumentos para que eu ficasse. como eu ia discordar?

não precisei.

enfim.

tudo isso era mesmo para dizer, mais uma vez, obrigada.

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