olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

carta da autora aos novos (e velhos) leitores

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a autora pede pra dizer que à parte sua incapacidade com as redes sociais, continua viva. talvez incapacidade não seja a melhor palavra.

vim pra dizer que continuo escrevendo. que editoras têm um ritmo todo próprio, ainda mais quando se é uma editora nadando contra a corrente do mercado editorial selvagem e suas traduções de prêmio nobel. vim pra dizer que tenho um livro pronto, um conto em andamento, uma newsletter no caminho e três romances começados.

vim pra dizer que apesar dos esforços, apesar da newsletter, apesar do blog, eu sou mesmo uma escritora de ficção, e não sirvo tão bem pra esses textos competentes de não-ficção que publicam os escritores de verdade todo o tempo.

que os meus textos de não-ficção são mais ou menos sempre o mesmo texto. eu conheço o estereótipo: as pessoas querem que eu escreva sobre esses dois anos de viagem, sobre o que eu aprendi, sobre o que eu vivi. e olha que aprendi bastante. mas o que eu aprendi cabe talvez num só texto. e acho que já escrevi esse texto. tenho certeza de que não preciso ficar atirando minhas ideias em você o tempo todo.

sempre as mesmas etc.

na ficção a coisa é diferente. a ficção é explorar o humano: as falhas, os erros, a dificuldade, a impossibilidade.

e quando você escolhe viver acolhendo com mais carinho seus próprios erros, quando resolve viver em exercício diário pra ser uma pessoa melhor, ter mais compaixão, reclamar menos, aceitar mais; tudo isso tem um efeito meio curioso na ficção. porque se antes a ficção era também um pouco explorar umas verdades sujas dentro de mim mesma, agora eu encontro todo esse espaço um pouco mais limpo e organizado.

mas sou escritora de ficção.

é só que por um instante surgiu uma espécie de incompatibilidade entre autora e obra. encontrei meio vazio o lugar em que eu costumava encontrar a literatura. tive que procurar: nisso de arrumar a casa ela acabou sendo guardada em outro lado. não seria assim tão fácil me livrar dela.

comecei pela literatura policial. depois quis fugir dela, e hoje em dia volto um pouco, mas logo em seguida me afasto. quer dizer: algo na literatura policial me chama, e ao mesmo tempo percebi que algo na polícia brasileira não me interessa, nem mesmo como literatura: não me interessa o machismo da polícia, a corrupção da polícia. às vezes até a literatura tem limites.

em outras palavras: continuo na literatura policial, mas longe da polícia. há outras formas de fazer literatura policial sem precisar meter a mão nas sujeiras da polícia. e é por esse caminho que tenho me metido, lentamente. mais ainda porque meu texto mudou quando me meti a escrever coisas menos policiais, e encontrei um estilo que é meu, e talvez seja pouco policial, mas é meu e pretendo ficar com ele até que ele se canse de mim.

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