olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

corredor

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Unilateralidade, não única do homem. Sente-se que viver significa projetar-se num sentido (e o tempo é a objetivação dessa linha única). Não podemos senão avançar por um corredor onde as janelas ou as grades são o incidental naquilo que realmente importa: a marcha para um extremo que (já que o corredor somos nós mesmos) nos vai distanciando cada vez mais do ponto de partida, das etapas intermediárias… É escuro e não sei como dizer: sentir que minha vida e eu somos duas coisas, e que se fosse possível tirar a vida como se tira o casaco, pendurá-la por algum tempo no encosto da cadeira, seria necessário saltar planos, escapar da projeção uniforme e contínua. Depois vesti-la de novo, ou procurar outra. É muito chato que só tenhamos uma vida, ou que a vida tenha apenas um modo de acontecer. Por mais que possamos preenchê-la de fatos, embelezá-la com um destino bem planejado e realizado, o molde é um só: quinze anos, vinte e cinco, quarenta — o corredor. Levamos a vida como levamos os nossos olhos, do modo que nos modela; os olhos veem o futuro do espaço, assim como a vida é sempre a dianteira do tempo.

Hilozoísmo, ansiedade do homem para viver carangueijo, viver pedra, ver-do-alto-de-uma-palmeira. Por isso o poeta se aliena.

Julio Cortázar, Diário de Andrés Fava

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