olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

escrever também é um ato físico

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Virginia Woolf afirmou que pra escrever é necessário um quarto próprio e uma renda fixa. Stephen King insistiu que antes de mais nada é preciso uma porta fechada (a parte da instabilidade financeira estava implícita no discurso) e um ambiente livre de distrações. uma vez li também de alguma escritora contemporânea que é importante uma boa cadeira — ninguém consegue escrever com dor nas costas.

sobre renda fixa: escrever (e a arte de modo geral) exige contemplação. não deve ser à toa que escritores são sempre vistos como vagabundos, gente que não gosta de trabalhar. que difícil entender que escrever é trabalho interno, silencioso, invisível.

e ainda assim, escrever é um ato físico. é sentar-se na cadeira e postar-se frente ao computador, apoiar um caderno nas pernas, segurar deste ou daquele jeito a caneta entre os dedos. um teclado com ou sem ç. é mover os dedos sobre o teclado.

eu: não consigo escrever de portas fechadas. ou consigo (anos morando em apartamento) mas sinto que parte de mim atrofia lentamente com o imaginado isolamento. nada que não se resolva com a porta (da casa, do quintal) aberta. ou escrever em lugares públicos.

seria talvez uma espécie de claustrofobia criativa: a criatividade que exige uma rota de escape mapeavel.

escuto os ruídos da rua, a música alta dos vizinhos, a gente evangélica que passa conversando sobre deus e o diabo ladeira acima, os velhos que reclamam sobre a cansativa geografia desta cidade, as crianças que passam correndo e provavelmente quebrando coisas pelo caminho, Paulinho da venda discutindo as dores de ser palmeirense com algum flamenguista.

os passarinhos gritam e às vezes um beija-flor entra pela janela do quarto interessado nas bandeirinhas coloridas penduradas na porta.

mas é que a porta do quintal está fechada porque a gata está proibida de subir no telhado nesses dias pós-cirurgia de castração. e um pouco é como se o mundo todo não existisse para além das paredes, e tudo que me chega é um eco distante de algo que talvez tenha existido, um dia. vê: não quero interação; quero apenas essa conexão com o real, que é pra não esquecer que também eu existo e faço parte e o tempo continua correndo normalmente como também corre quando estou na rua e preciso chegar aos correios antes que feche.

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