minha tia-avó, a literatura infanto-juvenil e o comércio de carne fresca

uma vez estava em Atibaia na varanda da casa de sítio da minha tia-avó, conversando com ela e com o filho dela, meu primo querido de segundo grau. acho que tinha acabado de lançar o SEGUNDA MÃO ou prestes a; enfim. sei que como sempre era o papo de escrever e ganhar dinheiro escrevendo (ela que já publicou alguns livros de crítica de arte e crítica reconhecida que é sabe que publicar livro no Brasil é ganhar um cheque de 60 pila a cada dois anos).

e porque assim vão os conselhos da gente mais velha na família — que diz faça isso que não fiz e quem sabe você acerta no que errei — minha tia-avó veio com um papo de “por que você não escreve literatura infanto-juvenil? você seria boa nisso, e dá dinheiro!” e provavelmente seguiu algum exemplo de qualquer amigo distante que também não escreve literatura infanto-juvenil mas.

(e nem vou me aprofundar no tema das coisas que eu costumo ouvir dos meus queridos familiares e que sempre começam com por que você não…)

gosto muito da minha tia-avó apesar de ela não se conformar com o fato de que eu não gosto de cinema, mas de qualquer forma nunca tive motivo nenhum para escrever literatura infanto-juvenil. mais: você seria boa nisso…? oi. desconfio que seja um pouco porque essa gente da família nunca acredita que você cresceu e se a sobrinha escreve deve escrever essas coisas compatíveis etc. aí você tenta desconversar, dizer que não é bem assim, escrever literatura infanto-juvenil envolve certas habilidades e não é mera questão de “simplificar” literatura adulta e olhar os cofres se enchendo, que eu não saberia nem por onde começar e provavelmente não me sairia muito bem se tomasse esse rumo.

então vem o primo de segundo grau, que é antropólogo desenhista quadrinista professor de história da arte e nem estava prestando muita atenção na conversa, e diz “mãe, deixa de ser chata, o comércio de carne fresca pode dar dinheiro, mas eu não vou largar tudo e começar a vender carne por causa disso, não tem nada a ver comigo”.

me restou concordar e aproveitar a brecha pra mudar de assunto.

mas não é? se é pra fazer errado, faz errado direito. se é pra fazer o que gosta, melhor não fazer porque dá dinheiro. se calhar de dar dinheiro é escolha fortuita, muita competência ou muita sorte ou os dois. mas é que se for só pra ganhar dinheiro, pode ficar à vontade: sempre vai ter fila no balcão do açougue.