olivia maia - escritora desterrada.

o livro possível

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existe qualquer alegria em livros não lidos. sobre isso, li esses dias um artigo no The Millions, escrito pela Kirsty Logan, mui interessante: The joy of unread books. o artigo passa perto de algo que me é familiar, mas se desvia pra outros caminhos. pra autora, a questão é que nenhum livro é tão bom como ele poderia ser. a alegria dos livros não lidos está naquilo que construímos em nossa imaginação sobre uma leitura possível. acho que isso faz sentido, mas penso no Borges. não era ele que escreveu, ou disse, em algum momento, como ele gostaria de não ter lido Dante, só pra ter a alegria de ler Dante pela primeira vez?

outro artigo, no The New Yorker, da Meredith Blake, responde a esse primeiro:

Logan does have a point. An unread book is an intoxicating, romantic thing, and the act of reading is, in one sense, destructive: all that possibility is reined in, made finite. Certainly we all have ideas about books we haven’t read before we read them. That’s why we pick them up in the first place. These preconceived ideas can be useful, too: part of the performance of being well-read is the ability to know what a certain writer or novel represents, even if you haven’t actually read them (yet).

“o ato de leitura é, de certa forma, destrutivo”: o que é possibilidade se torna finito.

desespero.

uma escolha sempre significa a renúncia a todas as outras escolhas possíveis. a leitura não escapa a isso. daí essa alegriazinha que existe — junto do desespero de ver a pilha dos livros não-lidos aumentando exponencialmente a cada ano que passa — nos livros que ainda não lemos. confesso que ainda não li todos os contos do Primeiras estórias, do Guimarães Rosa. na época em que comecei a ler o livro fiquei tão encantada que quis guardar um pouquinho pra depois. e Cortázar? tenho aqui Os prêmios, e até pouco tempo uns dois livros de contos não-lidos. estou lendo Fora de hora. mas não tenho todos os livros, e ainda vão me restar alguns. sempre bom saber que ainda existe Cortázar pra se conhecer. reler não é o mesmo que ler. nunca mais vou poder ler Grande sertão: veredas pela primeira vez. e eis um livro pra se ler pela primeira vez…

esses dias contei nas minhas estantes os livros de ficção não-lidos. fui passando dos sessenta… nessa minha média de 30-40 livros por ano (sim, eu leio devagar) tem livro pra um ano e mais um monte. sem contar que eu nunca paro de comprar livro novo, e pegar livro emprestado. ah, essa alegriazinha que me dão os livros que ainda posso ler pela primeira vez, gigantescos em suas existências infinitas de possibilidades.

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