olivia maia - escritora desterrada.

primeiro capítulo de TRÉGUA

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buena. vai aí o primeiro capítulo de TRÉGUA, o livro que acabei de escrever, filhotinho. ainda estou mexendo aqui e ali, põe vírgula tira vírgula etc, mas na essência é isso mesmo, e gosto dele. na verdade, estou me preparando para voar mais longe. ímpetos terríveis de voar mais longe.

que tal? diz aí, hein hein. e espalha.

Não prestava atenção no jornal aberto sobre a mesa e na manchete sobre briga de torcidas estampada na primeira página da folha de esportes, mas foi qualquer gesto do homem de cavanhaque e gravata vermelha que com um guardanapo limpava os lábios pela terceira ou quarta vez e continuava apoiado no balcão, olhando para os lados, distraído. Qualquer gesto e atacava-o a memória, súbito mal-estar, terrível necessidade de sair dali e se ocupar com outra coisa. Que era também — pensaria em retrospecto, porque tão mais fáceis todas as análises em retrospecto — detectar um ponto de partida, saber as frestas abertas no tempo por onde entra a memória e por onde começaram seus problemas; que fosse um gesto de limpar a boca com o guardanapo ou um envelope com fotografias recebido pelo correio na semana anterior, o primo mais novo que havia encontrado por acaso fotografias esquecidas na casa da tia ou o primo mais velho que anos antes quando casou saiu de casa e não levou consigo a caixa em que elas estavam, e então.

Era outra vez trabalho, seguir um executivo com pinta de importante e tempo sobrando pela manhã, confirmar ou espantar suspeitas de uma esposa ciumenta. Mas então a notícia que os olhos registraram num relance: o jornal ao lado da xícara de café e briga de torcidas tumultua saída no Pacaembu. O gesto repetido de limpar os lábios e procurar sem pressa qualquer movimento em que se pousar a vista. Parecia exagero mas Téo teve raiva de tanta serenidade, teve raiva da briga de torcidas e sua mente o atirou contra a lembrança violenta de Gabriel na saída do estádio conspirando, esgueirando-se por entre o bloqueio policial e se escondendo atrás de qualquer esquina sob o sol forte de um sábado de verão portenho.

Impossível brigar com o mal-estar e inevitável recuar ainda mais, porque a mãe que lhe havia sugerido o colégio em Buenos Aires na casa da tia ou a timidez do primeiro dia de aula em terra estranha ainda que a língua lhe fosse familiar.

O homem de gravata vermelha não sabia que era observado e despreocupava-se por narcisismo invertido: era ele e seus pensamentos e seus olhares à gente que passava, uma xícara de café vazia e o biscoitinho que ele não havia tocado meio quebrado no pires, era rotina inconsciente e ilusão de invisibilidade. Era também a memória pontiaguda de quase trinta anos atrás, a latinha de refrigerante atirada contra um grupo pequeno de torcedores do time adversário, Gabriel que gritava qualquer ofensa e era preciso estar preparado os punhos cerrados para a briga provocada.

O homem acenou ao atendente atrás do balcão e levantou-se para se dirigir ao caixa. Téo abaixou a cabeça e mais uma vez a briga de torcidas, a voz melódica de Gabriel que se desmanchava em um grito agressivo e a latinha de refrigerante brilhando no reflexo do sol. Fechou o jornal e pôs-se de pé, conferindo o relógio. Parou na fila do outro caixa e distraiu-se contando moedas enquanto ainda a atenção dissimulada no executivo de cavanhaque. Depois o tumulto da calçada na avenida e era já o segundo dia sem nenhuma atitude suspeita — sempre a meia hora na padaria antes de seguir despreocupado para o escritório e talvez fosse isso: tanta alegria certo que indício de traição, essa necessidade de algumas esposas de fazer da infelicidade prova de fidelidade. Tudo muito curioso, Téo pensaria, mais uma vez parando a alguns metros da porta do edifício, apoiando o corpo na grade do prédio vizinho e oferecendo o jornal a um vendedor de cocadas que passava com um carrinho de madeira.

Perseguia-o o incômodo e mais certo encarregar Alexandre daquele serviço, ou aquele outro tipo metido a informante da polícia que vez ou outra aparecia na agência para tomar café de graça. Quase vinte anos naquele trabalho e aborrecia-se um tanto quando necessário seguir sujeito assim desinteressante ou mulher que passava o tempo livre em fofoca com as meninas no salão de beleza. Que lhe agradasse ainda a ilusão de onisciência, porque seguir e observar era saber, e por vício construído era sempre curiosidade saciada, renovada, infinita. Soy un tipo curioso, pensaria, e outra vez a voz de Gabriel, uma voz que sorria, e mal movia os lábios ao falar, feito o som deslizasse pela língua e escapasse por entre os dentes.

Quase vinte anos naquele trabalho e o primo mais novo inconsequente que lhe havia enviado pelo correio um envelope com fotografias, uma notícia de jornal sobre briga de torcidas e ameaçava-o outra vez a voz de Gabriel, a lembrança transformada em mal-estar que aborrecia o estômago: eles meninos adolescentes, rindo-se apesar do sangue na boca depois de briga com torcedores do time adversário enquanto escapavam de qualquer viatura de polícia escondendo-se perto dos trilhos do trem. Quase vinte anos, e eram quase trinta desde que.

A isso os anos lhe haviam ensinado todos os métodos possíveis de abstração: que era sempre o trabalho, e andar distraindo-se com histórias inventadas de pedestres que passavam por ele enquanto atravessava a avenida para comprar uma revista na banca de jornal, ou organizando na cabeça melhor distribuição de tarefas e diligências que seria inevitavelmente contestada por Elisa. Que de anos morando em São Paulo deixava tão esporadicamente o futebol se enfiar por debaixo da pele quando com Pablo em Buenos Aires ou a cada quatro anos e copa do mundo, e rendia-se aos e-mails e mensagens de celular de seus primos argentinos, reencontrava no armário as camisas da albiceleste, recuperava um che perdido e provocava os torcedores mais eufóricos relembrando 1990. Porque copa do mundo eram seus primos e principalmente Pablo — Pablo furioso inconformado quando o pai de Téo brasileiro em terra estrangeira não perdia a oportunidade de comentário impertinente —, mas nunca Gabriel, apesar de. Gabriel era a euforia dos campeonatos nacionais, era a gritaria da arquibancada e as músicas da torcida e la academia. Gabriel era correr pelos trilhos do trem, caminhar até o porto e assistir ao tempo com a mudança nas cores do céu, e os planos de um futuro de sossego: abrir uma pizzaria e passar as tardes em qualquer mesa na calçada, bebendo vinho e conversando com as moças mais bonitas.

Gabriel era um gesto de limpar os lábios com um guardanapo pela terceira ou quarta vez enquanto o jornal gritava uma briga de torcidas tumultuando a saída do estádio do Pacaembu, e a memória gritando em imagens porque as fotografias, mas Téo. O pensamento por hábito que espantava a lembrança, e barrava na entrada qualquer vestígio do que era Gabriel, deixava que cores e sons e formas se dissolvessem numa névoa distante e o estômago revirado desconforto sem nome até que outra vez o burburinho paulistano, as buzinas, a gente que resolvia crises urgentes nos telefones celulares e mais uma esposa ou marido desconfiado que tocava a campainha na agência de investigações Miranda & Toscana, dizendo que veja bem, não que não confie em meu marido ou tenho certeza de que devo estar ficando um pouco paranoico.

Téo comprou uma revista sobre cinema e montou posto no boteco meio sujo da esquina. Pediu suco de laranja e pão de queijo; vinha à frente outra manhã interminável. Sabia pouco sobre o empresário, e eram os começos de investigação sempre arrastados, feito começar a ler um livro quando não se sabe bem se interessam aqueles personagens. Havia algum tempo que Téo preferia reler os livros conhecidos, abrir pela décima vez a edição em espanhol de La invención de Morel em página aleatória, repisar pegadas existentes e restos de vidas que se repetiam à eternidade. Ou a revista sobre cinema por hábito ou vício já que nunca lhe interessavam os lançamentos e buscava sem pensar a seção de raridades remasterizadas. Ajeitou a cadeira em posição em que pudesse espiar a saída do edifício do outro lado da avenida e agradeceu o atendente que lhe deixou no balcão o suco e o prato com o pão de queijo. Esticou-se para trazê-los à sua mesa e voltou-se para a revista. Lia com falso interesse as reportagens mais longas, que era modo de preencher o tempo, deixar que as palavras ocupassem a mente e expulsassem dali qualquer possibilidade de memória com espinhos, registrando as imagens e absorvendo informações e disfarçando o mal-estar sensação de que haveria talvez algo a ser feito esquecido no tempo. Que; pensaria: se qualquer limite para a memória humana era Téo que decorava fichas técnicas de filmes das décadas de quarenta cinquenta sessenta ou os acordes para piano de qualquer música de jazz mesmo que nunca tivesse aprendido a tocar qualquer instrumento. Sempre se ocupar em atenção a tudo que lhe era externo e ainda assim uma notícia de briga de torcidas, um gesto inconsequente e notava de repente esforço que parecia errado, um parágrafo que ficava para trás sem que se registrasse as palavras, a concentração que escapava e a mente que se esvaziava num desconforto, uma certeza de que.

Quê.

Mirou na distância a entrada do edifício, a gente que entrava e saía não o executivo de gravata vermelha e cavanhaque. Ele que no dia anterior havia saído por volta de uma da tarde junto de outros dois sujeitos também terno e camisa e gravata para almoçar em um quilo na rua de trás. Viu num relance a figura que entrou no boteco e apoiou o corpo no balcão, e ainda tinha a mão aberta sobre as palavras em matéria sobre efeitos especiais de qualquer superprodução, feito fosse necessário não as deixar escapar enquanto os olhos se ocupavam de outras coisas, num esforço improdutivo para trazer a atenção de volta à revista, quando sequer sabia — ou sabia, mas jamais se deixaria admitir — a que paragem remota lhe havia fugido a concentração. Se deixasse era em sua cabeça a polícia militar na saída do estádio do Pacaembu avançando contra uma horda enfurecida de torcedores que em maior número ameaçavam a torcida do time vencedor. Eram sons e manchas e objetos não-identificados que voavam pelos ares, mas era também Buenos Aires e os trilhos do trem, a risada de Gabriel que desabava atrás de um muro e conferia com as costas da mão um corte no queixo. E a gente que passava na calçada da avenida atravessando de um lado a outro a entrada do bar, fazendo-se cortina movente para a saída do edifício de escritórios. Olhou outra vez a revista: a figura de um ator erguido por cabos ante um fundo verde e no canto esquerdo um braço estendido que fosse talvez o diretor ou um assistente entusiasmado. Voltou ao texto mas a vista custou a focar as letrinhas miúdas. Adiava o inevitável: necessidade de comprar um desses pares de óculos de farmácia, para evitar as caretas quando lhe caía nas mãos um texto para leitura rápida. Preferiu culpar a vista preguiçosa pela incapacidade de concentração e empurrou a revista aberta para o outro lado da mesa, ocupando-se do suco e do pão de queijo, que era polvilho e pouco queijo, mas servia para preencher vazios e fazer andar os ponteiros do relógio.

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