olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

um desespero terrível

a usp está às traças. quase literalmente. digo quase porque na fflch a biblioteca é muito bem cuidadinha, mas vá entrar na biblioteca da feusp ou da eca. medo.

os funcionários e os professores querem aumento salarial. justo. ganham mal. estão lutando pelos seus próprios interesses? justo. se eles não lutarem pelos interesses deles, quem vai lutar?

eu e você?

a sociedade não se importa. porque quem reclama é baderneiro que não quer trabalhar.

então não pode reclamar.

ou: pode. mas sem bagunça. mas aí, quem é que vai perceber? a reitora está em sua sala assistindo a tudo pela televisão. não quer conversar. não tem diálogo. e quem se importa com bibliotecas fechadas, bandejão fechado?

os alunos, os professores.

a sociedade não se importa.

mas os alunos também não se importam com o aumento salarial dos funcionários. eles só querem que a biblioteca e o bandejão estejam funcionando.

os funcionários então abaixam as orelhas e voltam a trabalhar?
justo?

é preciso chamar a atenção da sociedade. a usp na usp não importa pra ninguém. funcionários em greve só poderiam fazer alguma diferença para os alunos, mas os alunos também não se importam. a reitora, aparentemente, também não se importa. não é greve de ônibus, de metrô, de banco. é greve de funcionário de usp!

não adianta. a sociedade não se importa. a sociedade quer levar sua vida, não quer pegar trânsito na rua Alvarenga.

estamos todos abandonados, sozinhos. minorias são minorias. minorias são irrelevantes.

dois mil estudantes são contra a incapacidade de diálogo da reitora? minoria. irrelevante. três faculdades? minoria.

estudante da poli e da fea não tem do que reclamar. eles recebem investimento, eles estão muito bem obrigado. justo. que não reclamem. seria demais exigir que parassem para perceber a situação dos vizinhos e não olhassem só para o próprio umbigo. mas que compreendam a necessidade dos outros de reclamar. de pedir diálogo. independente de quem está certo ou errado.

afinal, é uma universidade.

os estudantes não tem pauta de reivindicações? não sabem o que querem? massa de manobra partidária?

os estudantes só querem da reitora a capacidade de diálogo.

não deveria ser necessário concordar com a greve para não concordar com a falta de diálogo.

mas a sociedade não se importa com a incapacidade de diálogo de uma reitora de universidade. a sociedade se importa com a rua Alvarenga sem trânsito. cada um com o seu umbigo. afinal, não estão também os funcionários preocupados só com seus próprios umbigos? ah, essa gente que não pensa nos outros!

a universidade está às traças.

mas isso tudo não importa.

somos irrelevantes e seremos esquecidos.

não, não estamos na ditadura. a gente pode dizer o que pensa. pode gritar bem alto. mas ninguém vai ouvir. e se alguém ouvir, logo vem outro pra apontar o dedo e dizer: pfff, minoria. irrelevante.

desolação.

ouvir certas opiniões sobre tudo isso só me causa essa sensação terrível de desolação. um desespero sem fim. meu deus, estou sozinha. estamos sozinhos.

de nada adianta. gritar, espernear. pedir um aumento? nem pensar. e se insistir demais, eu solto os cachorros. afinal, quem provocou foi você. quem começou foi você. eu aqui só estou querendo fazer o meu trabalho.

não existe diálogo. perdemos a capacidade de conversar. de discutir opiniões opostas com civilidade. e pergunto-me se algum dia já tivemos essa capacidade. tivemos?

não existe diálogo.

e se na universidade não tem diálogo, que dirá fora dela.

que desespero, meu deus. que desespero terrível.

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