olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

vou porque sim: decisão anunciada

há quem duvide e não leve muito a sério e há também quem esteja torcendo para eu mudar de ideia (meus chefes). mas a decisão está tomada, muito bem tomada desde julho do ano passado, depois de pelo menos um ano de estranhar e questionar, depois de um ano trabalhando uma média de onze horas por dia (e disso seis meses trabalhando parte dessas horas em outra cidade) e agora decisão reforçada depois de mais outro ano trabalhando uma média de sete horas por dia (é bom ser gente), ainda que em horários estranhos e dando aula até quase onze da noite.

porque não faz diferença: onze horas, sete horas. ainda nem acredito muito que os fins de semana são meus. a gente fica mal acostumado e não sabe nem o que fazer com o tempo livre.

olha só: cansei. vou embora.

é que não custa se perguntar pra que é que estamos trabalhando. acredito na sua resposta (quê; família filhos apartamento carro carreira sucesso realização reconhecimento etc), mas vê se acredita na minha. ou melhor: na minha ausência de resposta. não sei mais pra que estou trabalhando. não assim, não nessa cidade. não pra acumular dinheiro e comprar coisas, comprar roupas, comprar computador e celular, comprar carro e financiar apartamento e depois trabalhar mais pra comprar tudo isso melhor e mais novo. eu nem gosto de cinema e não tenho comprado mais tantos livros. ultimamente trabalho mais é pra comer e tomar cerveja.

quem disse que a gente precisa ser adulto responsável bem sucedido e ter carro pra viajar no fim de semana e casa própria? como eu posso ter tudo isso se vai ser às custas de um sistema bizarro que só funciona enquanto a maioria do planeta estiver numa miséria sem sentido? o mundo está todo torto e não está me servindo viver nele desse jeito, como se nada estivesse acontecendo.

decidi que meu objetivo é viver com o mínimo possível. não em são paulo, não em cidade grande. não sei ainda qual o mínimo possível, mas tenho uma folga financeira pra descobrir (porque trabalhar onze horas por dia tinha que ter me servido de alguma coisa). também tenho minhas limitações. isso também é processo. poderia comprar todas as coisas que eu tenho vontade de comprar, mas quase nunca compro. quase nunca parece valer a pena. essa lógica de trabalhar pra comprar me é estranha. essa lógica de comprar o melhor e mais caro me soa terrivelmente alienígena.

e no fim é isso, não é? comprar, comprar. quanto a gente precisa pra viver bem, com um teto sobre nossas cabeças, roupa pra aquecer, comida pra comer? eu? mais um computador com um editor de texto e acesso à internet, mesmo que esporádico. uma câmera fotográfica, um estojo com material de desenho e alguma coisa pra rabiscar. livros. parece muito? será? estou pedindo muito?

talvez eu seja incapaz e ingênua e afinal “bem-vinda ao mundo dos adultos”. não, obrigada. agradeço o golpe de bom senso e todas as boas intenções, mas estou indo embora. que bom que você encontrou um trabalho que te faz feliz, uma carreira que te realiza. mas é que eu sofro demais; sofro em uma profissão de que eu gosto, numa escola ótima, com pessoas que eu adoro. sofro porque me falta um propósito e se não consigo encontrar por aqui, vou procurar em outro lugar.

tudo isso pra dizer que vou embora.

final de julho vou embora.

pra onde? não sei. precisa saber? vou viajar por um ano ou dois. em algum momento tem que parar, trabalhar, juntar dinheiro pra seguir em frente. mochila nas costas, e caminho por um tempo, alguns meses, um ano. se esta vida não me serve, vou atrás de outra. se não encontrar outra, que seja pelo menos numa cidade mais saudável.

não porque eu deva explicações a alguém; é pôr em palavras as ideias e esse trabalho sem fim que é entender minha própria cabeça. na verdade escrever tudo isso me faz pensar que os motivos são os menos importantes. os motivos me escapam. talvez (provavelmente) essa minha inadequação no mundo esteja bem mais dentro de mim do que parece olhando tão de perto. às vezes me parece que todo esse sofrimento é um pouco ilusório, um pouco exagerado. viver é um troço bem complicado. quanto mais elaboro os motivos, mais percebo que não é só por isso que estou indo embora.

mais do que uma lista de motivos, estou indo embora porque eu quero, porque eu posso.

não é pela negação do presente, mas sim por abraçar o futuro.

o pior que pode acontecer é não encontrar nada. mas aí que a única finalidade da vida é a morte. então vale a busca.

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