olivia maia - escritora desterrada.

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textos esporádicos aqui e no medium.

o tempo em suspensão

Cima di Paradisi und Schwarzhorn | K.u.k. Kriegspressequartier, Lichtbildstelle – Wien

eu queria escrever sobre A montanha mágica, de Thomas Mann. mas como escrever sobre A montanha mágica sem falar do final do livro e da relação que ele estabelece com o resto da narrativa, e principalmente da forma como ele transforma e reconfigura tudo o que se leu até ali, todas aquelas 950 páginas que vieram antes; como pode ser que até hoje o que se diz desse livro é simplesmente a velha ladainha sobre doentes num sanatório nas montanhas suíças, questionando a vida e a morte e a condição humana, sem que jamais seja mencionado o choque final e o peso que ele representa não só para a vida do protagonista mas para toda a humanidade? fosse por qualquer senso de não se revelar nenhum spoiler aos pobres dos leitores. antes eu pudesse ter lido Grande sertão: veredas sem saber o final.

o fato é que desses últimos tempos estudando o iluminismo, a revolução industrial e a chegada do século vinte não poderia ter me preparado para o final desse livro, e aqui de meu lugar no século vinte e um é como se eu finalmente conseguisse compreender de que tanto escreveu Walter Benjamin ao descrever as mudanças por quais passava a geração nascida no final do século dezenove. a gente se acostuma a pensar no século vinte começando com a primeira guerra, e a gente aprende que a primeira guerra aconteceu entre as trincheiras, com todas aquelas histórias horripilantes que se repetem. mas a gente nunca se dá conta do que era a Europa antes disso: uma Europa de monarquias decadentes.

o século dezenove ainda não havia terminado, em 1914, quando o tal do arquiduque foi assassinado. o século vinte chegou num assalto, violentamente.

e é isso que faz A montanha mágica, de certa forma: são 950 páginas de século dezenove e suas questões sobre o que significa ser humano, e todo o processo de mudança que ele representou, e todas as ideias e ideais que disputavam por espaço naquele momento. Hans Castorp, o protagonista, é um paisano, como ele não cansa de repetir. um tipo meio sonso, meio sem graça, sem personalidade. ao longo do livro, o século dezenove e tudo que ele representou crescem nele. o sentido da vida, da doença, da morte; o otimismo e o pessimismo em relação ao futuro.

mas é um tempo em suspensão nas montanhas, na altitude suíça, longe da planície onde as coisas acontecem e as pessoas acordam todos os dias e cumprem suas rotinas de trabalho. é como todo o século dezenove condensado em sete anos. ao leitor, amarrado a essa longa narrativa, resta adaptar-se, como faz Hans Castorp. adaptar-se a não se adaptar. por isso, pela duração e intensidade da história, sentimos o peso do desfecho com tanta violência. eu diria, ainda, que o choque é maior no leitor do que no próprio Castorp, que parece tomado pela inércia do tempo presente, como sempre esteve ao longo de todo o livro. ler A montanha mágica é um pouco ser transportado àquele momento suspenso, aquecido por cobertores de pele contra o frio alpino e com cinco fartas refeições diárias, e sentir-se muito confortável com a situação e questões dessa classe média europeia. mais ainda, ler A montanha mágica é ser subitamente atirado na lama, no frio, sem cobertores, no meio de um ataque de mísseis, com só uma vaga possibilidade de redenção.

Thomas Mann, escrevendo depois da grande guerra, quer saber se é possível o amor depois disso. eu, escrevendo depois de meio mês agarrada ao livro, só consigo me perguntar: como chegamos a esse ponto?

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quando escrever se torna impossível, testo a paciência com um caderno de desenho e caneta nanquim.

a guia de sebos

por Aline Valek

Estava aqui pensando numa profissão que cairia bem na Olivia Maia.

Nessa época em que as pessoas anseiam por indicações literárias, não satisfeitas apenas com o que as livrarias colocam nas prateleiras de destaque ou no que o hype do momento exige que se leia para se ter assunto com os outros, há espaço para quem manja de livros e sobretudo para quem sabe como comprá-los mais barato.

Para isso existiria a Guia de Sebos. Uma experiência diferenciada – porque nesses tempos busca-se acima de tudo ter experiências diferenciadas – de consumo de livros.

É muito simples o que faz a Guia de Sebos: organiza expedições (há de se ter um limite de gente, claro) para andar pelos sebos da cidade. Nessas andanças, ela indicaria livros para as pessoas, falaria sobre o que leu, contaria histórias de como aquele outro mexeu com ela, mostraria livros que olha, conheço o autor, ou ainda encontraria os indispensáveis que quase ninguém conhece.

Seria muito mais do que comprar livros. Seria um passeio e sobretudo uma conversa sobre literatura. Um aprendizado também: além de poder aprender muito sobre literatura, conhecer novos autores e gêneros, com a Guia de Sebos se aprenderia os melhores sebos, como encontrar os livros que se procura, como negociar preços e fazer o melhor negócio.

Um serviço de muito valor, que as pessoas pagariam com gosto, até parcelado no cartão. Mas como a Guia se recusaria a cobrar o valor que merece, ou colocar qualquer preço nesse trabalho, as pessoas lhe pagariam com os livros que ela quisesse levar, com lanches e suquinhos nos intervalos das caminhadas, ou ainda com suas próprias histórias, porque histórias também valem muito.

Ainda os próprios donos das lojas poderiam pagar a Guia pelo serviço, com comissão ou com uma cota de livros, porque a Guia de Sebos sempre tem espaço para mais leituras.

Então os livros que as pessoas adquiririam nesta experiência seriam aquela leitura sob medida, uma leitura com história, que a fariam lembrar que alguém, uma pessoa – e não um algoritmo – indicou aquele livro a ela, numa tarde de conversas em que se soube que a filha da dona do sebo sabe falar alemão. Histórias que não estão impressas em lugar algum.

Contrate agora a Guia do Sebo e agende seu horário.


a queridíssima e gênia Aline Valek escreve em seu blog e no medium, e também produz a zine Bobagens Imperdíveis, que você pode assinar e receber em casa, via correios (!). recomendo muito o último livro dela, As águas vivas não sabem de si, disponível em versão impressa e digital, que você encontra por aí na sua livraria favorita.

como começar um romance II

La vida es un pequeño espacio de luz entre dos nostalgias: la de lo que aún no has vivido y la de lo que ya no vas a poder vivir. Y el momento justo de la acción es tan confuso, tan resbaladizo y tan efímero que lo desperdicias mirando con aturdimiento alrededor.

Rosa Montero, La carne