olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

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textos esporádicos aqui e no medium.

como começar um romance

A vida não é um romance. Pelo menos é o que você gostaria de acreditar. Roland Barthes sobe a Rue de Bièvre. O maior crítico literário do século XX tem todas as razões para estar no auge da angústia. Sua mãe, com quem mantinha relações muito proustianas, morreu. E seu curso no Collège de France, intitulado “A preparação do romance”, resultou num fracasso que dificilmente ele pode disfarçar: o ano inteiro ele terá falado para seus estudantes de haikus japoneses, de fotografia, de significantes e significados, de divertimentos pascalianos, de garçons de bar, de robes de chambre ou de lugares no auditório — de tudo, menos do romance. E vai fazer três anos que isso dura. Ele sabe, necessariamente, que o próprio curso não passa de uma manobra dilatória para adiar o momento de começar uma obra realmente literária, isto é, que faça justiça ao escritor hipersensível que cochila dentro dele e que, segundo a opinião de todos, começou a brotar em seus Fragmentos de um discurso amoroso, já então a bíblia dos menores de vinte e cinco anos. De Sainte-Beuve para Proust, está na hora de mudar e assumir o lugar que lhe cabe no panteão dos escritores. Mamãe morreu: desde O grau zero da escrita fechou-se um ciclo. Chegou a hora.

Quem matou Roland Barthes, Laurent Binet

sobre a seriedade

I think seriousness and humor are equally important, which is why I eagerly await the day when seriousness will get its comeuppance and start envying humor. Humor, for example, comes in many varieties, while seriousness is never organized by categories, although it clearly should be. Dear Critics, since you employ the term “absurd humor,” you should introduce its counterpart, “absurd seriousness.” Learn to distinguish between forced and primitive seriousness, lighthearted and gallows seriousness. This bracingly sensical conception will jump-start critics and journalists alike. Do we not require, in life as in art, indiscriminate seriousness? bawdy seriousness? sparkling seriousness? spirited seriousness? I would read with pleasure about thinker X’s “terrific sense of seriousness,” about bard Ys “pearls of seriousness,” about avant-garde Z’s “offensive seriousness.” Some reviewer or other will finally decide to remark that “playwright N. N.’s feeble play is redeemed by the effervescent seriousness of its conclusion” or that “in W. S.’s poetry one catches notes of unintentional seriousness.” And why don’t humor magazines have columns of seriousness? And why, moreover, do we have so many humor magazines and so few serious ones? Well?

Wislawa Szymborska, Nonrequired Reading

entre o bolsa família e o sistema penitenciário

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Aqueles que a expansão da liberdade do consumidor privou das habilidades e poderes do consumidor precisam ser detidos e mantidos em xeque. Como são um sorvedouro dos fundos públicos e por isso, indiretamente, do “dinheiro dos contribuintes”, eles precisam ser detidos e mantidos em xeque ao menor custo possível. Se a remoção do refugo se mostra menos dispendiosa do que a reciclagem do refugo, deve ser-lhe dada a prioridade. Se é mais barato excluir e encarcerar os consumidores falhos para evitar-lhes o mal, isso é preferível ao restabelecimento de seu status de consumidores através de uma previdente política de emprego conjugada com provisões ramificadas de previdência. E mesmo os meios de exclusão e encarceramento precisam ser “racionalizados”, de preferência submetidos à severa disciplina da competição de mercado: que vença a oferta mais barata…

Zigmunt Bauman, O mal-estar da pós-modernidade

fascismo e capitalismo

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Aqueles que estão contra o fascismo sem estar contra o capitalismo, que choramingam sobre a barbárie causada pela barbárie, assemelham-se a pessoas que querem receber a sua fatia de assado de vitela, mas não querem que se mate a vitela. Querem comer vitela, mas não querem ver sangue. Para ficarem contentes, basta que o magarefe lave as mãos antes de servir a carne. Não são contra as relações de propriedade que produzem a barbárie, mas são contra a barbárie.

Bertolt Brecht, As cinco dificuldades de escrever a verdade

as listas que eu não faço

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livros que eu quero ler. porque são tantos. quantos livros um ser humano normal consegue ler em um ano? em 2016 eu li muito, mas ainda assim muito pouco. a pilha de livros que pretendo ler em breve já vai pra mais de 140. não vou escolher entre eles uns 60 ou 80 pra ler neste ano que começa. vou mudar de ideia. vou descobrir qualquer coisa mais urgente ou mais interessante ou urgente e interessante. que tem sido a melhor maneira de ler: terminar um livro e fuçar na estante (física ou virtual) qual título grita mais alto.

resoluções de ano novo. a pessoa ansiosa pode fazer listas de coisas do dia: lavar louça, arrumar a cama, buscar encomenda no correio, pagar a conta da internet. lista de COISAS pra fazer ao longo do ano é pedir pra construir ansiedade enquanto os itens ficam ali parados todos os dias olhando pra você como quem diz hoje só amanhã?

as listas para o futuro. por que nos maltratamos tanto?

faço listas infinitas de autores e livros pra procurar.

guardo artigos no pocket pra ler um dia. ou, quem sabe, pra um dia começar a ler e nem lembrar mais por que eu tinha guardado aquele troço.

faço listas de coisas que preciso lembrar. listas de compras no mercado. o velho método de anotar as coisas pra não precisar ficar guardando na cabeça. às vezes elas ficam tanto tempo anotadas que umas semanas depois elas perdem toda importância.

talvez seja esse o principal objetivo das listas.