olivia maia - escritora desterrada.

blog

textos esporádicos aqui e no medium.

enciclopédia de seres fantásticos

“The person possessed by hatred. Known since time immemorial. He doesn’t change; only the methods change that he employs in gaining his end. Moderately ominous when he acts in isolation, which, however, rarely occurs, as he is contagious. He spits. He spreads chaos in the conviction that he is creating order. He likes making pronouncements in the first person plural; this may initially be groundless, but it becomes increasingly justified with persistent repetition. He departs from the truth in the name of some higher order. He is devoid of wit, but God save us from his jokes. He is not curious about the world; in particular he does not wish to know those whom he has singled out as enemies, rightfully considering that this might weaken him. As a rule, he sees his brutal actions as being provoked by others. He doesn’t have doubts of his own and doesn’t want the doubts of others. He specializes, either individually or, preferably, en masse, in nationalism, anti-Semitism, fundamentalism, class warfare, generational conflict, and various personal phobias, to which he must give public expression. His skull contains a brain, but this doesn’t discourage him…”

Wislawa Szymborska, Nonrequired Reading

as leituras de janeiro

, ,

pois desde setembro do ano passado que engatei nas leituras de vez, de volta ao mundo da literatura depois de um tempo ausente por motivos diversos. agora acho que li mais neste mês de janeiro do que em todo o ano de 2015, por exemplo. com certeza li mais do que em todo o ano de 2012, quando ainda fazia listas.

inclusive voltei a fazer listas.

também estou no goodreads, como já disse por aqui.

enfim, as leituras de janeiro:

1. In Bluebeard’s Castle, George Steiner
2. Heretics, G. K. Chesterton
3. Men Explain Things to Me, Rebecca Solnit
4. The Actuality of Communism, Bruno Bosteels
5. As aventuras da dialética, Maurice Merleau-Ponty
6. The Communist Horizon, Jodi Dean
7. Azul é a cor mais quente, Julie Maroh
8. Sobre el arte contemporáneo & En la Habana, César Aira
9. As artes da palavra: Elementos para uma poética marxista, Leandro Konder
10. A estrela da manhã: surrealismo e marxismo, Michael Löwy
11. As cinco dificuldades de escrever a verdade, Bertolt Brecht
12. Os irredutíveis: teoremas da resistência para o tempo presente, Daniel Bensaïd
13. Para você não se perder no bairro, Patrick Modiano
14. O mal-estar da pós-modernidade, Zygmunt Bauman
15. Quem matou Roland Barthes, Laurent Binet
16. Dialética do esclarecimento, Theodor Adorno & Max Horkheimer
17. The Enemies of Books, William Blades
18. Manifesto contra o trabalho, Grupo Krisis

só duas leituras de ficção (13 e 15), mais uma de quadrinhos (7). muitos barbudos e/ou comunistas, evidentemente. umas coisas engraçadinhas pelo caminho, mas não muitas. acho que preciso mesmo uma pausa nas leituras cabeçudas e voltar um pouco à ficção.

vamos ver o que vem pela frente neste mês de fevereiro (não faço mais planos; vou abrindo livros e empilhando, e lendo cinco ao mesmo tempo, conforme o momento e a vontade).

como começar um romance

A vida não é um romance. Pelo menos é o que você gostaria de acreditar. Roland Barthes sobe a Rue de Bièvre. O maior crítico literário do século XX tem todas as razões para estar no auge da angústia. Sua mãe, com quem mantinha relações muito proustianas, morreu. E seu curso no Collège de France, intitulado “A preparação do romance”, resultou num fracasso que dificilmente ele pode disfarçar: o ano inteiro ele terá falado para seus estudantes de haikus japoneses, de fotografia, de significantes e significados, de divertimentos pascalianos, de garçons de bar, de robes de chambre ou de lugares no auditório — de tudo, menos do romance. E vai fazer três anos que isso dura. Ele sabe, necessariamente, que o próprio curso não passa de uma manobra dilatória para adiar o momento de começar uma obra realmente literária, isto é, que faça justiça ao escritor hipersensível que cochila dentro dele e que, segundo a opinião de todos, começou a brotar em seus Fragmentos de um discurso amoroso, já então a bíblia dos menores de vinte e cinco anos. De Sainte-Beuve para Proust, está na hora de mudar e assumir o lugar que lhe cabe no panteão dos escritores. Mamãe morreu: desde O grau zero da escrita fechou-se um ciclo. Chegou a hora.

Quem matou Roland Barthes, Laurent Binet

sobre a seriedade

I think seriousness and humor are equally important, which is why I eagerly await the day when seriousness will get its comeuppance and start envying humor. Humor, for example, comes in many varieties, while seriousness is never organized by categories, although it clearly should be. Dear Critics, since you employ the term “absurd humor,” you should introduce its counterpart, “absurd seriousness.” Learn to distinguish between forced and primitive seriousness, lighthearted and gallows seriousness. This bracingly sensical conception will jump-start critics and journalists alike. Do we not require, in life as in art, indiscriminate seriousness? bawdy seriousness? sparkling seriousness? spirited seriousness? I would read with pleasure about thinker X’s “terrific sense of seriousness,” about bard Ys “pearls of seriousness,” about avant-garde Z’s “offensive seriousness.” Some reviewer or other will finally decide to remark that “playwright N. N.’s feeble play is redeemed by the effervescent seriousness of its conclusion” or that “in W. S.’s poetry one catches notes of unintentional seriousness.” And why don’t humor magazines have columns of seriousness? And why, moreover, do we have so many humor magazines and so few serious ones? Well?

Wislawa Szymborska, Nonrequired Reading

entre o bolsa família e o sistema penitenciário

, ,

Aqueles que a expansão da liberdade do consumidor privou das habilidades e poderes do consumidor precisam ser detidos e mantidos em xeque. Como são um sorvedouro dos fundos públicos e por isso, indiretamente, do “dinheiro dos contribuintes”, eles precisam ser detidos e mantidos em xeque ao menor custo possível. Se a remoção do refugo se mostra menos dispendiosa do que a reciclagem do refugo, deve ser-lhe dada a prioridade. Se é mais barato excluir e encarcerar os consumidores falhos para evitar-lhes o mal, isso é preferível ao restabelecimento de seu status de consumidores através de uma previdente política de emprego conjugada com provisões ramificadas de previdência. E mesmo os meios de exclusão e encarceramento precisam ser “racionalizados”, de preferência submetidos à severa disciplina da competição de mercado: que vença a oferta mais barata…

Zigmunt Bauman, O mal-estar da pós-modernidade