olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

bolívia

relatos de viagem e anotações diversas sobre o percurso.

bolívia, dia catorze: la paz, santa cruz

capow.

28 cafiaspirinas;
6 anti-inflamatórios;
6 relaxantes musculares;
29 dramins;
2 neosaldinas.

agora no aeroporto de santa cruz muito oxigênio muita umidade muito calor. voamos num puma.

desistidos de tihuanaco porque o cansaço, e disseram que andou chovendo um tempo atrás e o que se haveria pra ver está mais enterrado do que deveria estar, mais ruína do que deveria ser. pena pena. salimos a andar mais um pouco, comprar regalitos e afins, comer comida o menos boliviana possível o menos frango frito possível o menos pimentão possível.

que quinze dias parece tão pouco mas tão muito. primeira semana foi mais apressada e porque uyuni estava todo cheio de água acabamos fazendo o tour mais rápido e sobrando dias para la paz. o bom foi visitar copacabana e a ilha do sol com mais calma. descansar da correria dos primeiros dias.

de o livro encontrado e personagem encontrado. personagens. encontrei mais do que esperava encontrar, que é quando as coisas se encaixam desse jeito meio assustador. esses povoados perdidos no altiplano eram tudo que a narrativa precisava. coqueza nos pés de tunupa e esse mundo de gringos de todo canto.

que eu tinha pensado em criar uma correria pelas ruas de la paz mas fico pensando agora que o protagonista não vai durar um quarteirão. capaz nem o gringo que deveria estar fugindo, e está na altitude há umas cinco ou seis semanas.

o que não deixa de ser útil à trama.

porque pisei em santa cruz veio aquela umidade e a caminhada até o desembarque pareceu tão fácil. mal estar que vinha me acompanhando fugiu, ufas. estômago nem reclamou com o jantar.

agora esperar passar o tempo pro voo pra são paulo, às 4h40 da manhã.

“vou pra cuzco!”

porque estamos no meio de uma revelação terrível da novela mexicana triunfo del amor e surge do segundo andar do hostal uma peruana que "vocês são venezuelanos? estão fazendo turismo?"

porque ela arqueóloga do norte do peru resolveu que estava mui estressada e "vou pra cuzco!" não deixou ninguém a família ir com ela seguiu a la paz e queria saber se tínhamos ido ao tihuanaco e como ir e onde etc. depois de alguma dificuldade pra que ela compreendesse o nome da rua turística de la paz (sagarnaga!), sugerimos o chacaltaya e o salar de uyuni, se estivesse com tempo, e ela contou qualquer coisa de civilizações antigas que meu espanhol capenga captou pela metade.

buena. perdemos as revelações da novela depois que o padre entra na sala etc, mas ok, nunca saberemos por que maria desamparada fingia que estava com o outro enquanto ainda se agarrava com o loirão. que só nos passa uns tipos os mais inesperados. e já vai o frio, sair de dentro do poncho e se enfiar debaixo das cobertas.

bolívia, dia treze: la paz, chacaltaya, valle de la luna

olha de novo a outra foto do pico nevado, aquele do post “pra constar”. olha bem. vê as nuvens ao fundo, abaixo. vê a floresta amazônica ali naquelas montanhas mais escuras. vê o pico de seis mil e tantos metros de altitude da huayna potosí e atrás dele o resto da cordilheira real.

pense. e eu 5430m de altitude, no chacaltaya. respirando os 50% a menos de oxigênio em relação ao nível do mar. com um tanto de folha de coca metida na bochecha meio dormente.

acordamos cedo e fomos esperar a pontualidade boliviana de uma hora de atraso (pontual atraso) pro ônibus da empresa buscar a gente no hotel. aí seguir la paz acima e depois mais acima ainda, num ônibus amarelo cheio de brasileiros e uma guia mui simpático chamado juan. uma parada no meio do caminho para fotos com vista pra huayna potosí e a illimani (que chuto a grafia; um pico um teco mais baixo que se vê se todo ponto da cidade) e mais o chacaltaya adiante, com menos neve (penaaaa). já o FRIO. dentro do ônibus tão quentinho.

depois um pouco de uma estrada da morte pedregulho de um lado precipício do outro e umas lagoas coloridas que se fazem com o degelo. haja dramin.

o ônibus subiu até 5300m de altitude. uma casinha com um “coca-cola” (yep!) apagado, um cachorro e outra casa maior por onde se passa rumo ao topo. já no ônibus enfiei umas folhas de coca na boca e o importante é continuar respirando, sempre.

dez passos, mais dez, mais dez. os 130 metros mais longos da história. a primeira parte foi mais íngreme e mais dificil, mas engatei uma primeira, desisti de respirar pelo nariz todo bloqueado porque o frio, e arriba arriba. juntei com outra brasileira que saiu na frente mas sem falar muito que era pra economizar o fôlego.

uns pontos de neve dura espalhados pelo caminho mas mais os pedregulhos avermelhados, soltos. a vista da cidade de el alto e la paz enfiada no vale. o altiplano. o lago titicaca na distância. a cordilheira real e as nuvens meu deus as nuvens lá embaixo pros lados da amazônia boliviana. yungas.

mais uma pausa, mais uma última subida e o pico do chacaltaya. woot. respirando!

descer era fácil fácil. respirando sempre. paramos na casa maior (clube andino qualquer coisa) pra um mate de coca e depois voltar ao ônibus pra refazer aquela estrada terrível.

descer a altitude deu um pouco de dor de cabeça, mais aquela poeira onipresente. o ônibus passou pelo meio de la paz e dessa vez rumo à zona sul, a parte rica da cidade, onde é mais baixo e mais quente. a segunda parte do tour quase um brinde, quase nada: valle de la luna. tirei uma foto da casa do evo no caminho. dois guardinhas armados na porta, bandeiras boliviana e aymara atrás do muro. de zero a vinte e tantos graus, de 5430m a 3300m de altitude em três horas. sem almoço, ya, porque não é bom comer demais nessas condições. só água e bolachinhas.

o valle é bem simpático, bem surreal, mas não compensa um tour solo. de lá se via o chacaltaya, longe longe. subir as escadinhas era quase fácil. quase. bem quase.

a fome bateu na volta. o ônibus nos deixou mei longe, pros lados da rua turística, a calle sagarnaga, e tivemos que voltar à pé. paramos no primeiro restaurante que apareceu e mal consegui comer, tanta a taquicardia. tomei dois sucos de laranja e meio omelete. meu corpo deve estar achando que é o fim dos tempo, ou ao menos me xingando muito.

na volta tirei fotos das zebras que tentam educar os paceños a não pararem sobre a faixa de pedestres e ficam dançando ao lado dos guardinhas de trânsito (e esses paceños correndo ladeira acima ladeira abaixo todo tempo sem parar que horror capoft).

ufa ufa. acho que tihuanaco amanhã nada. não sei se aguento mais ônibus e estrada de terra. meus dramins estão acabando. capaz ficar por la paz, pagar outra diária no hostal mesmo que seja pra sair às sete da noite, torrar o que sobrou de bolivianos. ya ya ya, eles diriam por aqui. bueno. que preciso de banho quente.

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