quando começamos esta volta por Alemanha e leste da Europa, tínhamos uma ideia vaga de por onde queríamos passar: Praga, Cracóvia, algum lugar na Eslováquia e quem sabe Hungria. aí que já tínhamos transporte e hospedagem em Budapeste desde Berlim, e ainda não sabíamos como ia ser o caminho entre Polônia e Hungria, e que tinha de interessante pra ver e parar e ficar na tal da Eslováquia, esse país meio esquecido que ficou com o menor do turismo quando a Tchecoslováquia se separou.

mas viva a internet etc.

ainda na Polônia, descobrimos um tal paraíso de escalada no meio do nada no lado oeste da Eslováquia, perto de cidades obscuras e impronunciáveis (Bytča, Žilina), num lugar igualmente obscuro e impronunciável: Súl’ov.

nova empreitada: descobrir como chegar até lá desde Zakopane, sul da Polônia, outro destino um tanto quanto fora de mão escolhido no meio do caminho.

a internet nos sugeriu que o percurso era POSSÍVEL. uma vez em Zakopane, com a ajuda do meio-inglês da moça do caixa na estação de ônibus, descobrimos como cruzar a fronteira até um lugar chamado Poprad, por onde passam muitos trens e provavelmente entre eles um que fosse em direção a Žilina, que é a quarta maior cidade da Eslováquia, parece, embora tenha esse surpreendente número de 80 mil habitantes.

missão cumprida.

de Poprad um trem a Žilina, depois outro trem a Bytča e enfim um ônibus a Súl’ov — esse último que esperamos numa parada de velho oeste junto de um tiozinho que só falava eslovaco com quem nos comunicamos lindamente pra ter certeza de que era ali mesmo que precisávamos esperar.

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depois de cinco dias em Súl’ov pra caminhar e escalar (conhecemos uma dupla de primos escaladores, um inglês-polonês e o outro sueco, que compartilharam a corda e foram boa companhia pra uma cerveja no fim do dia) rumamos de volta a Žilina com a ideia de ficar uma noite antes de tomar o primeiro trem com conexão Bratislava-Budapeste no dia seguinte.

mas aí todos os trens pra Budapeste cancelados fronteira da Hungria fechada etc. resolvemos ficar mais uma noite em Žilina e uma em Bratislava, que dali a Viena (nosso destino seguinte) era um pulo.

foi que acabamos ficando mais na Eslováquia do que na Polônia, onde já tínhamos ficado uma semana inteira entre Cracóvia e Zakopane. deu tempo pra esquecer o mínimo de polonês que eu tinha aprendido e substituir no cérebro pelo eslovaco, ou pelo menos pelo “dobry” básico pra ser simpática na hora de cumprimentar as pessoas.

e eu gostei da Eslováquia. Bratislava, onde só ficamos uma noite, tem tudo pra ser tão turística quando Praga, mas não é. por quê? a falta de um relógio astronômico? menos igrejas?

uma coisa é certa: tem bem menos turistas. e quem sabe alguns dos que estavam ali só estavam ali porque não conseguiram entrar na Hungria pra visitar Budapeste (eu, por exemplo). outros estavam porque calhamos de cair na cidade num fim de semana de festival de folclore com música e moda e artesanato e aparentemente tinha muito turista eslovaco enchendo as ruas do centro velho.

aí que fiquei pensando se tinha gostado da Eslováquia pelo ritmo mais lento e lugares menores como Súl’ov e Žilina (antes que você pergunte eu te digo: Žilina não tem nada demais além de uma praça grande e umas ruas de pedestres com algumas construções antigas); o esforço necessário pra decifrar o idioma quando não tinha menu em inglês nos restaurantes e tudo o que a garçonete sabia dizer era “non-smoke” e “drink?”; ou.

quê?

aí me ocorreu que o melhor da Eslováquia foi justamente o fato de que eu não esperava nada dela.

foi o inesperado.

de Praga e Cracóvia se ouve muito etc. é pedir demais que as pobres cidades façam jus a tudo que é dito e escrito sobre elas. sobram frustrações. mas que eu sabia sobre a Eslováquia, além de que Bratislava é um nome muito legal pra meter num título de livro?

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confesso que entrar na Áustria foi um alívio: percebi de repente que sabia muito mais alemão do que imaginava. poder ler as publicidades e as placas de informação no metrô é um troço que a gente não valoriza o suficiente (embora informo que todas as publicidades ficam infinitamente ridículas quando você não sabe ler o que está escrito).

e Viena é linda e cheia de construções enormes e fabulosas, mas a timidez e a surpresa eslovaca me ganharam.

claro que isso é coisa da minha cabeça: concluir que ainda é muito mais divertido desbravar e decifrar o desconhecido do que repisar pegadas alheias. Praga deve ser boa de visitar sem nunca ter ouvido dizer nada de Praga antes. é como ler Grande sertão: veredas; meu sonho poder ler aquele livro pelo menos uma vez sem saber o final.