olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

tag: andanças

a vida na pequena cidade turística

um pouco é como se ainda não estivesse parada vivendo em um só lugar.

acordar cedo por hábito, a manhã livre. o fim de semana ocupado. ir trabalhar e resolver problemas e encontrar guias e fazer reservas em pousadas. voltar tarde. o dia livre e ficar em casa no sofá lendo qualquer coisa. não saber se melhor a chuva que enche as nascentes e os rios ou o céu azul o sol forte que seca finalmente a roupa que passou dias úmida esperando uma brecha pra estar no varal. a chuva que deixa a alma úmida, o sol forte que um calor terrível e o rio seco.

o quintal de escalada a vinte minutos, o rio a vinte minutos, a vontade de ficar um pouco mais em casa porque tanta coisa acontecendo e às vezes a gente se sente meio tartaruga.

2016-01-11a

vista do morro do Pai Inácio.

custa ainda acreditar que estou aqui e posso continuar aqui, e tenho uma mesa de trabalho pra apoiar o computador e organizar minhas manhãs de semana. mas também deixar umas manhãs pra ir escalar, pra dar um mergulho no rio. acostumar-se.

neste ano que começa olhe mais pra cima

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sério: olhe mais pro céu.

pare e mova um pouco a cabeça, levante um pouco o queixo. olhe pra cima. desenhe na memória a linha dos edifícios; repare naquela antena parabólica, no pássaro enfiado entre as folhas da árvore, nas pombas enfileiradas na fiação.

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caminhamos sempre olhando pro chão.

claro: senão periga tropeçar. ninguém quer tropeçar em plena avenida. sem contar que precisa desviar dos postes; os postes estão por todos os lados. aqui em Lençóis o calçamento das ruas é todo irregular; meu filho, tem que olhar por onde anda senão você vai com a cara nos paralelepípedos. e esses calombos de cimento da Embasa, de quando instalaram a rede de esgoto, espalhados por todo lado. melhor medir bem os próprios passos.

mas de vez em quando: pare.

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olhe pra cima. não digo olhar na direção do horizonte, botar a cara na janela do prédio e de cima inspecionar a cidade lá embaixo e as nuvens na distância. estou dizendo: ponha-se num lugar à céu aberto e olhe pra cima. olhe acima dessa linha de cabeças humanas que se movimentam ao seu redor.

como quem entra numa igreja antiquíssima e aprecia os afrescos desbotados.

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acredite em mim: o mundo de repente fica maior. o mundo fica gigantesco.

olhar pra cima é sair um pouco de dentro da própria cabeça, dos próprios problemas. olha essa nuvem, esses desenhos. essa cor cinzenta anunciando uma tempestade. deixa entrar a luz. faça isso como um lembrete de que está tudo bem, vai ficar tudo bem. o mundo é tão grande. você é parte de tudo isso. vai dar tudo certo.

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não precisa se preocupar: o mundo ainda vai estar ali quando você abaixar o olhar.

de volta a lençóis

o ônibus sai às 10h15 desta quinta-feira.

chegamos em Lençóis na sexta-feira à tarde, casados, passaporte já devidamente carimbado pela polícia federal e RNE devidamente requerido, com o resto da casa nas costas e a ladeira de calçamento irregular da rua das Pedras pra subir. ainda não temos internet em casa, mas vamos providenciar assim que a gente chegar.

agora começa.

sobre largar tudo e ir viajar

na última edição da newsletter mandei aos assinantes um texto chamado “as duas grandes mentiras sobre largar tudo e viajar”. começa assim:

apareceram recentemente como sempre aparecem uns comentários na minha linha do tempo do twitter sobre essas pessoas que “largam tudo e saem viajando” e sobre como a única maneira de fazer isso é viver às custas dos pais ou ser de família rica e viver de renda.

nessa hora eu caio da cadeira.

daí então que me lembro do outro lado desse mito: a ideia de que qualquer um pode sair viajando, loucamente, com uma mochila de 30 litros nas costas, uma barraca da náutica e uma sandália velha nos pés, pegando carona com os caminhoneiros na BR.

recebi muitas respostas positivas e fiquei contente em saber que um texto assim podia inspirar ou dar uma força a quem estava brigando com as tais das mentiras que eu tentei desmentir. depois de uma sugestão da Aline Valek, resolvi publicar também o texto no Medium, dessa vez com fotos.

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agora o texto vai ficar estacionado por lá. você pode ler, comentar, recomendar aqui: as duas grandes mentiras sobre largar tudo e viajar. se você leu primeiro na newsletter, pode clicar pra ver a seleção de fotos que escolhi pra ilustrar o texto. se não conhece a newsletter, assine aqui!