olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

tag: arte

folhas

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quando escrever se torna impossível, testo a paciência com um caderno de desenho e caneta nanquim.

se você fosse a última pessoa na terra

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Do you work solely for your own pleasure? Or are you chasing the confirmation and likes of others, altering your photos towards what you think people will like? Do you take pictures just because you love the sound of the shutter or do you do it because you can’t wait to hear the notification sound on your phone, saying that someone ”liked” your shot?

em If you were the last person on earth, would you still take a photo?

a premissa do texto é interessante: se você fosse a última pessoa na Terra, você ainda tiraria uma foto?

o desenvolvimento e a conclusão, óbvios: porque importante é fazer a arte que queremos fazer; não faz sentido escrever, fotografar, pintar etc apenas pra ganhar corações no instagram ou no medium. que hoje em dia a internet nos empurra nessa direção graças ao feedback instantâneo etc. estamos todos viciados em coraçõezinhos virtuais.

e afinal devemos fazer a arte que amamos e inevitavelmente nos conectaremos com pessoas que estão interessadas nessa arte. fazer o que se ama é o único caminho possível para ganhar dinheiro com o que se ama.

mas a resposta à pergunta fica incompleta.

se você fosse, de fato, a última pessoa na Terra, você ainda tiraria uma foto?

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praia de Japaratinga, Alagoas.

pra quem fotografamos?

pra nós mesmos?

será?

afinal se você fosse a última pessoa na Terra, e não há mais sequer aqueles que possam se interessar pelo que você faz por amor, e não pra agradar ou ganhar coraçõezinhos, ainda assim você tiraria a foto? dinheiro obviamente já não seria uma questão.

sua arte seria tudo que te resta?

quer dizer, ainda é possível fazer o que se ama, e provavelmente muito importante, já que você é a última pessoa na Terra e não há muito mais a fazer senão cuidar da sua sobrevivência e preencher o tempo livre.

mas a pergunta continua ali:

você ainda tiraria uma foto?

você continuaria fazendo arte?

a arte é mera expressão necessária do eu? a quem estaria direcionado esse esforço de expressão? por que sentimos essa estranha necessidade de expressar-se? ou a gente, no fim das contas, faz arte, até (e principalmente) a arte que realmente faz sentido para nós mesmos, pra se conectar, de alguma forma, com o outro?

a impossibilidade do relato

… it is impossible to convey the life-sensation of any given epoch of one’s existence, — that which makes its truth, its meaning – its subtle and penetrating essence. It is impossible. We live, as we dream — alone…

Heart of Darkness, Joseph Conrad

que também é a dificuldade de Riobaldo em Grande sertão: veredas; a mesma impossibilidade do relato, da precisão dos detalhes que realmente importam quando o que realmente importa sequer se parece assim no momento do acontecer:

Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas — de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.

ou porque não existe o passado senão como percepção de passado, ilusão de memória, e essa constatação da impossibilidade do relato nada mais é do que a constatação do óbvio.

Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que eu pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido — porque, enquanto coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo.

“coração bem batendo” seria a “life-sensation”, “its subtle and penetrating essence” na linguagem do Conrad (na fala do Marlow). o “razoável comum” seria esse retomar de fatos, aparar as bordas, limpas as partes sujas (como diria aquele vídeo do filtro solar que por uns anos circulava pela internet feito gripe no metrô de Buenos Aires no inverno) e remendar as partes quebradas para apresentar ao público: contar em jornal ou livro.

ou porque a insistência em compartilhar a experiência é uma das coisas que nos faz humanos. e a impossibilidade de compartilhar a experiência o que reforça essa humanidade, porque frustrados buscamos a arte, a literatura, a música e mais tantas quantas alternativas de compartilhar pelas bordas isso que não pode ser compartilhado por inteiro.

o menino, o lobo e a literatura

Between the wolf in the tall grass and the wolf in the tall story there is a shimmering go-between. That go-between, that prism, is the art of literature.

li no site brain pickings um artigo sobre a visão do Nabokov a respeito da escrita e da arte de contar histórias. ele afirma que a literatura nasceu no momento em que aquele menino veio correndo da colina gritando “o lobo! o lobo!” e não havia lobo nenhum. que o menino fizesse isso muitas vezes e acabasse comido pelo lobo, quando ele apareceu de verdade, não vem ao caso aqui. o que vale é a invenção: o shimmering go-between determina a arte da literatura. esse devir, esse “e se”. aquilo que a gente já sabia?

Going back for a moment to our wolf-crying woodland little woolly fellow, we may put it this way: the magic of art was in the shadow of the wolf that he deliberately invented, his dream of the wolf; then the story of his tricks made a good story.

o que também me faz lembrar daquele conto do Guimarães Rosa: “Os três homens e o boi dos três homens que inventaram o boi”. literatura pura. o boi inventado acaba por sobreviver aqueles que o inventaram. a mágica da arte está na possibilidade construída na “sombra do lobo” inventado pelo menino. na sombra do boi dos três homens (que inventaram o boi).

ainda sobre isso, dando um sutil passo ao lado, também no site brain pickings li sobre Tolkien e suas opiniões a respeito dos contos de fadas. vale a leitura. pra além de afirmar que não existe “literatura pra crianças” e que contos de fadas só são infantis na medida em que os “adultos” os leem pras crianças, ele aponta a relação da linguagem com a invenção, a partir da capacidade da nossa mente de usar a linguagem pra criar abstrações.

The human mind, endowed with the powers of generalization and abstraction, sees not only green-grass, discriminating it from other things (and finding it fair to look upon), but sees that it is green as well as being grass.

essa capacidade da mente de distinguir a “coisa” da sua “característica” é o que também permite que se façam trocas: se eu penso grama e penso verde, também posso pensar grama e vermelho, sangue e azul:

The mind that thought of light, heavy, grey, yellow, still, swift, also conceived of magic that would make heavy things light and able to fly, turn grey lead into yellow gold, and the still rock into a swift water. If it could do the one, it could do the other; it inevitably did both. When we can take green from grass, blue from heaven, and red from blood, we have already an enchanter’s power — upon one plane; and the desire to wield that power in the world external to our minds awakes.

um lobo que não existe, um boi inventado, coisas pesadas que se tornam leves e podem voar. a insistência de um poder inventivo do qual, aparentemente, a gente não consegue fugir.