olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

tag: bolívia

fronteira e trâmites e um hostel inesperado

o ônibus que saía de Iruya partiu às seis da madrugada na escuridão (descemos a ladeira com mochilas e sem ver muito bem onde estávamos pisando). às nove estávamos no encontro da estrada de terra que vai a Iruya e a ruta 9. dali tomamos um ônibus até La Quiaca, fronteira com Bolívia.

esperando o ônibus na ruta 9.

esperando o ônibus na ruta 9.

eu precisava cruzar a fronteira porque me ia vencer o visto de turista na Argentina. também queria conhecer Yavi, um povoadinho vizinho que todos pelo caminho me indicaram (menos um parente da doña Asunta em Iruya que tinha dito que sim é lindo mas não é como aqui). Barbara e Marie seguiam pra Bolívia.

fomos direto ao hostel indicado no livrinho Get South (desconto de 10%), a cinco quadras e meia da rodoviária. o nome do hostel é El Apolillo. de fora uma casa mei sem vergonha com um portão velho.

por dentro: wooosh.

eu e Antu, que aparentemente gosta de mate.

eu e Antu, que aparentemente gosta de mate.

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tudo lindo e colorido e limpo e arrumadinho. muitas referências a La Boca. a cachorrinha (outra dessas que parece um porquinho) se chamava Antu (mapuche pra sol) e tinha uma casinha com os dizeres soy Antu de la Boca. uma cozinha linda e colorida e limpa e arrumadinha. vai vendo a que ponto chegamos quando a pessoa se impressiona com uma pia de cozinha (e que linda pia).

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e depois de três dias sem internet a gente tinha também wifi. mais ou menos. um wifi que vinha no lombo de uma lhama.

eu e Barbara saímos pra cruzar a fronteira; Marie ficou porque se ela saísse e voltasse teria que pagar alguma taxa qualquer de europeus. caminhamos com a calma que pediam os 3440 metros de altitude de La Quiaca. paf. que coisa curiosa é a altitude.

porque o coração dispara com alguns passos numa ladeira de inclinação mínima como se um esforço terrível; a cabeça fica leve basta um movimento mais brusco, como se depois de um tanto de vinho; o estômago, se vazio, parece ainda mais vazio; se cheio, parece ainda mais cheio e com preguiça de fazer digestão.

(e claro que eu não vou dizer o que acontece se você sair correndo porque sinceramente eu nunca fiz isso e só sei imaginar o que acontece, como aliás eu fiz no A última expedição.)

aí que compramos uns sandubas de rosbife no caminho e seguimos até a fronteira.

(sanduba de rosbife tudo o que eu mais precisava naquele momento da minha vida.)

Olivia na fronteira.

Olivia na fronteira.

La Quiaca não é o mais feio dos povoados, principalmente por se tratar de fronteira (tem até uma praça simpática), mas também não é um troço exatamente muito lindo. trata-se de um povoado da puna, como convém, com essas casas baixas com telhado de chapa e esse tom de terra por todo lado.

aí que o lado boliviano curiosamente tem outra cara, com algumas quadras depois da fronteira cheias de comércio e aquela construção típica boliviana: aquela sem o acabamento do reboco. as cholas bolivianas são diferentes das mulheres do norte argentino, ainda que parecidas (no norte argentino a influência do gaucho ainda é muito presente). também são mais mal-humoradas.

trâmites feitos comprei folhas de coca e já meti umas na boca pra dar uma força na digestão do sanduba de rosbife. depois de encontrar a bilheteria do trem precisamos matar tempo até que abrisse e ficamos na praça vendo o tempo passar. um senhor veio puxar assunto e tinha vivido muitos anos na Argentina e conhecia São Paulo e Santos e Rio de Janeiro e era arquiteto etc. mui simpático. nos contou um pouco sobre a origem da região e disse que tinha voltado pra morrer em casa (exagerado porque nem era tão velho).

matando tempo e coqueando.

matando tempo e coqueando em Villazón.

no final das contas a bilheteria não tinha sistema e era pra elas voltarem no dia seguinte que dava pra comprar na hora. voltamos pra uma fila gigante na imigração.

(e o sujeito da imigração argentina que olha meu passaporte sem dúvida se dá conta de que eu só tinha cruzado a fronteira pelo prazo do visto e pergunta hacia donde vá ahora, señorita?)

Ushuaia aí vou eu.

Ushuaia aí vou eu.

enfim Argentina, comprar yerba mate e pasta de dente que acabaram, macarrão pra fazer à noite e nos agarrou uma chuva de céu azul (uma nuvem gorda e cinzenta única entre as outras inofensivas e branquinhas) com umas gotas esparsas: grandes e pesadas e GELADAS. alcançamos o hostel a tempo. a roupa que tinha ido pra máquina quando chegamos já estava limpa e seca. principalmente limpa. que alegria roupa limpa. que alegria uma ducha quentinha e forte. que alegria uma cama confortável, um travesseiro na altura certa, um espaço comum agradável e uma cozinha bem equipada.

disso tudo, a internet via lhama a gente releva. fácil.

uma esquina de La Quiaca: pueblo de puna.

uma esquina de La Quiaca: pueblo de puna.

bode expiatório

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deve existir alguma coisa na altitude pra justificar a incrível capacidade minha e do rogério de tirar TODAS as fotos da viagem completamente tortas.

ou o excesso de horizonte por todos os lados só REFORÇA que alinhamento não é mesmo o nosso forte.