olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

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a cultura depois da guerra

a reação com os absurdos da humanidade se alternam entre a surpresa constante e a ideia de que nada mudou: continuamos nos surpreendendo com as mesmas coisas que espantavam os cidadãos europeus na segunda metade do século XIX. ou: critica-se a sociedade que se mantém imersa em seu mundo particular com os smartphones, mas uma fotografia do começo do século XX revela um vagão de trem em que todos estão imersos em seus mundos particulares com as caras no jornal aberto.

algum esperto vai dizer: vê! nada mudou.

(tem também aquele que vai dizer não é bem assim.)

Antonio Candido em seu incansável otimismo disse que a prova de que humanidade progride é que hoje, embora ainda existam os genocídios, ninguém se orgulha publicamente por ser responsável por um genocídio. a consciência humana estaria em processo de transformação.

(ou seria mero efeito de superego coletivo exagerado pela expansão do alcance da mídia?)

It may well be that it is a mere fatuity, an indecency to debate of the definition of culture in the age of the gas oven, of the arctic camps, of napalm. The topic may belong solely to the past history of hope. But we should not take this contingency to be a natural fact of life, a platitude. We must keep in sharp focus its hideous novelty or renovation. We must keep vital in ourselves a sense of scandal so overwhelming that it affects every significant aspect of our position in history and society. We have, as Emily Dickinson would have said, to keep the soul terribly surprised.

George Steiner, In Bluebeard’s Castle

o superego vigilante como o elemento de constante surpresa. mas se esse horror não é um fato natural da vida, se precisamos seguir adiante tomando-o sempre como absurdo e escandaloso — que se pode fazer contra ele? basta manter-se surpreso e dizer que não, isso não é normal? impedir enfim que o horror seja motivo de orgulho.

enquanto isso a história (envergonhada) segue se repetindo.

como começar um romance II

La vida es un pequeño espacio de luz entre dos nostalgias: la de lo que aún no has vivido y la de lo que ya no vas a poder vivir. Y el momento justo de la acción es tan confuso, tan resbaladizo y tan efímero que lo desperdicias mirando con aturdimiento alrededor.

Rosa Montero, La carne

enciclopédia de seres fantásticos

“The person possessed by hatred. Known since time immemorial. He doesn’t change; only the methods change that he employs in gaining his end. Moderately ominous when he acts in isolation, which, however, rarely occurs, as he is contagious. He spits. He spreads chaos in the conviction that he is creating order. He likes making pronouncements in the first person plural; this may initially be groundless, but it becomes increasingly justified with persistent repetition. He departs from the truth in the name of some higher order. He is devoid of wit, but God save us from his jokes. He is not curious about the world; in particular he does not wish to know those whom he has singled out as enemies, rightfully considering that this might weaken him. As a rule, he sees his brutal actions as being provoked by others. He doesn’t have doubts of his own and doesn’t want the doubts of others. He specializes, either individually or, preferably, en masse, in nationalism, anti-Semitism, fundamentalism, class warfare, generational conflict, and various personal phobias, to which he must give public expression. His skull contains a brain, but this doesn’t discourage him…”

Wislawa Szymborska, Nonrequired Reading

como começar um romance

A vida não é um romance. Pelo menos é o que você gostaria de acreditar. Roland Barthes sobe a Rue de Bièvre. O maior crítico literário do século XX tem todas as razões para estar no auge da angústia. Sua mãe, com quem mantinha relações muito proustianas, morreu. E seu curso no Collège de France, intitulado “A preparação do romance”, resultou num fracasso que dificilmente ele pode disfarçar: o ano inteiro ele terá falado para seus estudantes de haikus japoneses, de fotografia, de significantes e significados, de divertimentos pascalianos, de garçons de bar, de robes de chambre ou de lugares no auditório — de tudo, menos do romance. E vai fazer três anos que isso dura. Ele sabe, necessariamente, que o próprio curso não passa de uma manobra dilatória para adiar o momento de começar uma obra realmente literária, isto é, que faça justiça ao escritor hipersensível que cochila dentro dele e que, segundo a opinião de todos, começou a brotar em seus Fragmentos de um discurso amoroso, já então a bíblia dos menores de vinte e cinco anos. De Sainte-Beuve para Proust, está na hora de mudar e assumir o lugar que lhe cabe no panteão dos escritores. Mamãe morreu: desde O grau zero da escrita fechou-se um ciclo. Chegou a hora.

Quem matou Roland Barthes, Laurent Binet

sobre a seriedade

I think seriousness and humor are equally important, which is why I eagerly await the day when seriousness will get its comeuppance and start envying humor. Humor, for example, comes in many varieties, while seriousness is never organized by categories, although it clearly should be. Dear Critics, since you employ the term “absurd humor,” you should introduce its counterpart, “absurd seriousness.” Learn to distinguish between forced and primitive seriousness, lighthearted and gallows seriousness. This bracingly sensical conception will jump-start critics and journalists alike. Do we not require, in life as in art, indiscriminate seriousness? bawdy seriousness? sparkling seriousness? spirited seriousness? I would read with pleasure about thinker X’s “terrific sense of seriousness,” about bard Ys “pearls of seriousness,” about avant-garde Z’s “offensive seriousness.” Some reviewer or other will finally decide to remark that “playwright N. N.’s feeble play is redeemed by the effervescent seriousness of its conclusion” or that “in W. S.’s poetry one catches notes of unintentional seriousness.” And why don’t humor magazines have columns of seriousness? And why, moreover, do we have so many humor magazines and so few serious ones? Well?

Wislawa Szymborska, Nonrequired Reading