olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

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in the dark and deep

A autópsia informou that he died of unknown causes, sentença a que acrescentei para mim: in the dark and deep part of the night.

W.G. Sebald, Os anéis de Saturno

of poetry

Poetry is not a turning loose of emotion, but an escape from emotion; it is not the expression of personality, but an escape from personality. But, of course, only those who have personality and emotions know what it means to want to escape from these things.

T. S. Eliot, Tradition and the Individual Talent, 1920.
[sim, eu já postei isso antes, but it never gets old.]

e o fim do ensaio:

There are many people who appreciate the expression of sincere emotion in verse, and there is a smaller number of people who can appreciate technical excellence. But very few know when there is expression of significant emotion, emotion which has its life in the poem and not in the history of the poet. The emotion of art is impersonal. And the poet cannot reach this impersonality without surrendering himself wholly to the work to be done. And he is not likely to know what is to be done unless he lives in what is not merely the present, but the present moment of the past, unless he is conscious, not of what is dead, but of what is already living.

quando a lua não vem da Ásia

oy, mais Campos de Carvalho, agora um capítulo inteiro, levando meu pavor de baratas to a whole new level of freakiness:

Capítulo Negro

Tenho sido injusto para com a Noite. Amo a Noite e vivo a difamá-la, chegando mesmo ao crime de tomar narcótico para combater a insônia — esse meu único bem. A Noite é a túnica que me assenta como uma luva, como sudário a um cadáver, ou — já que estou mesmo no terreno das comparações — como óculos escuros num cego de nascença, em pleno meio-dia.

Só não amo, na Noite, as baratas e os escorpiões, estes felizmente mais raros de encontrar do que os fantasmas ou os assassinos embuçados nas esquinas sem luz, a desoras. As baratas, temo-as como aos seres fantásticos criados pela imaginação de Jerônimo Bosch, e preferiria ter que entrar na jaula dos leões a ter por um instante na mão um desses habitantes dos esgotos e das sarjetas, de antenas vibráteis e patas de caranguejo. Vou mesmo ao extremo de preferir uma sopa de escorpiões vivos ao simples contato de uma barata morta e já em parte devorada pelas formigas, de patas para o ar como uma prostituta. O meu inferno será por certo todo coalhado de baratas aos milhares e aos milhões, todas vivas e ágeis dentro das trevas eternas e úmidas — a menos que falte ao meu punidor a imaginação necessária para punir-me até a loucura, ou não tenha ele maldade bastante para impor um tal castigo à minha humana inocência.

Mas a Noite, excluídas as baratas e a ameaça dos escorpiões, é a minha musa e o meu túmulo bem-amado, aquele a que aspiro com todas as forças da minha alma, como deve aspirar ao seu todo ser lúcido e tocado de inviolável pureza. E aqui lhe rendo esta homenagem tardia mas veemente, no pleno silêncio deste quarto frio e povoado de trevas, tendo por quadro-negro esta parede onde a custo faço deslizar a ponta do meu lápis, já que a lua hoje não veio da Ásia e não consigo sequer enxergar o meu triste corpo ajoelhado na cama.

Non dormit diabolus.

A lua vem da Ásia (1956), Campos de Carvalho

quem é louco?

porque tem dias que é bem assim que o mundo nos diz as coisas

Demitido a bem do serviço público, inscrevi-me numa maratona de danças e fui transportado semi-inconsciente para um hospital de tuberculosos, onde vim a falecer na madrugada de 15 de setembro de 1934. Mas o atestado de óbito fora passado um pouco às pressas e obtive alta dois meses depois, mais forte do que um touro da Pomerânia ou de qualquer outra parte do globo.

A lua vem da Ásia (1956), Campos de Carvalho

enquanto tento entender Adorno

do ensaio:

Em vez de alcançar algo cientificamente ou criar artisticamente alguma coisa, seus esforços ainda espelham a disponibilidade de quem, como uma criança, não tem vergonha de se entusiasmar com o que os outros já fizeram. (…) Ele não começa com Adão e Eva, mas com aquilo sobre o que deseja falar; diz o que a respeito lhe ocorre e termina onde sente ter chegado ao fim, não onde nada mais resta a dizer: ocupa, desse modo, um lugar entre os despropósitos.

Theodor Adorno, O ensaio como forma, no livro “Notas de literatura I”