olivia maia - escritora desterrada.

tag: constatações

as listas que eu não faço

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livros que eu quero ler. porque são tantos. quantos livros um ser humano normal consegue ler em um ano? em 2016 eu li muito, mas ainda assim muito pouco. a pilha de livros que pretendo ler em breve já vai pra mais de 140. não vou escolher entre eles uns 60 ou 80 pra ler neste ano que começa. vou mudar de ideia. vou descobrir qualquer coisa mais urgente ou mais interessante ou urgente e interessante. que tem sido a melhor maneira de ler: terminar um livro e fuçar na estante (física ou virtual) qual título grita mais alto.

resoluções de ano novo. a pessoa ansiosa pode fazer listas de coisas do dia: lavar louça, arrumar a cama, buscar encomenda no correio, pagar a conta da internet. lista de COISAS pra fazer ao longo do ano é pedir pra construir ansiedade enquanto os itens ficam ali parados todos os dias olhando pra você como quem diz hoje só amanhã?

as listas para o futuro. por que nos maltratamos tanto?

faço listas infinitas de autores e livros pra procurar.

guardo artigos no pocket pra ler um dia. ou, quem sabe, pra um dia começar a ler e nem lembrar mais por que eu tinha guardado aquele troço.

faço listas de coisas que preciso lembrar. listas de compras no mercado. o velho método de anotar as coisas pra não precisar ficar guardando na cabeça. às vezes elas ficam tanto tempo anotadas que umas semanas depois elas perdem toda importância.

talvez seja esse o principal objetivo das listas.

Guimarães Rosa me salvou de fazer publicidade

numa troca de e-mails sobre a necessidade de escrever um amigo me passou esse link: poema inédito de Angélica Freitas em homenagem a Ana Cristina Cesar.

no que fiquei depois pensando que Guimarães Rosa me salvou de fazer publicidade.

publicidade, esse caminho do artista cínico e pragmático, a saída dos criativos desesperados.

mas as possibilidades da arte, a beleza do texto, de repente, paf. por dizer: existe um caminho sensato.

já pensou?, publicidade! até o começo do último ano de colégio me parecia o único trabalho criativo com o qual eu não morreria de fome. mas aí Guimarães Rosa e aquele professor do terceiro ano (de quem fui aluna, muito me orgulho e faço alarde!) e eu voltei a rabiscar cadernos com histórias mágicas sobre crianças que encontravam fantasmas em espelhos no porão da fazenda da avó ou que iam parar num circo de 1930 quando se perdiam dos pais num passeio pelo parque.

assumir o vamos ver se e quem sabe.

Guimarães Rosa me fez acreditar que criatividade nada tinha a ver com pragmatismo.

como transformar estresse e ansiedade em produtividade

how to reframe stress and anxiety into productivity

era o título de um artigo que me apareceu (como sempre me aparecem as coisas mais estranhas) na lista de recomendações do pocket. outro desses artigos absurdos que às vezes me gritam com esses títulos longos e imperativos. quase sempre eu sigo adiante mas dessa vez eu parei e precisei pensar duas vezes no absurdo da formulação. pensei naquele artigo da Eliane Brum e nalgum outro que devo ter lido sobre a idolatria da produtividade; pensei na minha própria ansiedade e o tanto que ela está (sempre esteve) ligada a uma angústia de produzir mais e melhor e sempre (pra quê; pra quem?).

pensei então que esse título é o cúmulo da loucura dos tempos modernos: transformar em produtividade os efeitos colaterais negativos da necessidade de ser produtivo o tempo todo; a necessidade de transformar tudo em produção.

se nossa sociedade precisa de um novo ícone revolucionário ele tem que ser alguém parecido com Bartleby, o escrivão, que preferia não fazer.

e não produzia nada.

escrever também é um ato físico

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Virginia Woolf afirmou que pra escrever é necessário um quarto próprio e uma renda fixa. Stephen King insistiu que antes de mais nada é preciso uma porta fechada (a parte da instabilidade financeira estava implícita no discurso) e um ambiente livre de distrações. uma vez li também de alguma escritora contemporânea que é importante uma boa cadeira — ninguém consegue escrever com dor nas costas.

sobre renda fixa: escrever (e a arte de modo geral) exige contemplação. não deve ser à toa que escritores são sempre vistos como vagabundos, gente que não gosta de trabalhar. que difícil entender que escrever é trabalho interno, silencioso, invisível.

e ainda assim, escrever é um ato físico. é sentar-se na cadeira e postar-se frente ao computador, apoiar um caderno nas pernas, segurar deste ou daquele jeito a caneta entre os dedos. um teclado com ou sem ç. é mover os dedos sobre o teclado.

eu: não consigo escrever de portas fechadas. ou consigo (anos morando em apartamento) mas sinto que parte de mim atrofia lentamente com o imaginado isolamento. nada que não se resolva com a porta (da casa, do quintal) aberta. ou escrever em lugares públicos.

seria talvez uma espécie de claustrofobia criativa: a criatividade que exige uma rota de escape mapeavel.

escuto os ruídos da rua, a música alta dos vizinhos, a gente evangélica que passa conversando sobre deus e o diabo ladeira acima, os velhos que reclamam sobre a cansativa geografia desta cidade, as crianças que passam correndo e provavelmente quebrando coisas pelo caminho, Paulinho da venda discutindo as dores de ser palmeirense com algum flamenguista.

os passarinhos gritam e às vezes um beija-flor entra pela janela do quarto interessado nas bandeirinhas coloridas penduradas na porta.

mas é que a porta do quintal está fechada porque a gata está proibida de subir no telhado nesses dias pós-cirurgia de castração. e um pouco é como se o mundo todo não existisse para além das paredes, e tudo que me chega é um eco distante de algo que talvez tenha existido, um dia. vê: não quero interação; quero apenas essa conexão com o real, que é pra não esquecer que também eu existo e faço parte e o tempo continua correndo normalmente como também corre quando estou na rua e preciso chegar aos correios antes que feche.

das pausas

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sempre me surpreendo com essas pessoas capazes de parar no caminho de volta à casa e apreciar o pôr do sol depois de dez horas de trabalho dentro do escritório.