olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

tag: cordilheira dos andes

de los andes a la rioja em 24 horas

sete e meia em ponto nos buscou o taxista pra nos levar ao porto terrestre, em Los Andes, parada obrigatória para os caminhões que vão cruzar a fronteira.

no dia anterior havíamos chegado no fim da tarde, rodado a cidade inteira pra enfim encontrar um residencial com um preço mais ou menos razoável, buscado algum lugar pra comer… comecei a ver no computador a estreia do Palmeiras no estádio novo e desisti na metade, e caminhamos um pouco na praça porque havia uma feira de livros e música.

aí dormir, acordar cedo, esperar o táxi.

pouco antes de sairmos, ainda com o wifi da hospedagem, veio mensagem do Luís dizendo que ia atrasar um tanto mas que esperássemos no posto de gasolina do porto terrestre que nos buscava lá.

então esperamos.

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jamais perdemos fé no nosso amigo (gênio) Luís mas chegou um momento começamos a desconfiar que alguma coisa podia ter acontecido. e a gente sem internet sem telefone sem nada. me meti num prédio onde ficam umas lojas e bancos e consegui depois de muita luta agarrar um sinal de wifi. pulou mensagem de Luís dizendo que ia atrasar ainda mais mas que estava chegando. em seguida outra, nova, dizendo que recém chegava e já havia visto Fernando no posto de gasolina e que esperássemos ali.

feitos os trâmites o caminhão fez a volta, encostou ali na entrada do posto e saltamos pra dentro. mais adiante esperamos um pouco Juan, o colega de Luís, que outra vez viria atrás no caminhão branco.

dali até a aduana chilena o caminho não é muito demorado, mas fomos parando pra esperar Juan, pra comprar comida, pra obrigar Luís a parar um pouco porque lhe atacava uma pressão alta (e por isso tinha atrasado). se já estava mei fresco em Los Andes vai ficando cada vez mais frio conforme vamos subindo a cordilheira. e vão surgindo aqueles picos nevados metidos entre nuvens.

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porque aí vem uma subida num ziguezague sem fim. ao contrário do paso de San Francisco esse é movimentado e além de caminhão passava também todo tipo de carro e ônibus sem parar. quando alcançamos a aduana chilena, vinham do céu uns floquinhos modestos de neve pra fazer pontinhos brancos no casaco. e eu com meus crocs sem meia.

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passamos pelos trâmites junto da fila de caminhoneiros e esperamos as burocracias. Luís já se sentia melhor e estava praticamente saltitando apesar da altitude. hora de cruzar a fronteira.

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a fronteira está num túnel gigantesco; por isso é um dos pasos de fronteira mais usados (não precisa subir a mais de 4 mil metros de altitude pra cruzar). ainda assim quando tem neve tem NEVE. nesse dia só os picos e uma ameaça de neve sem vergonha que era só uns cuspes gelados.

a vista que segue tem mais pinta de uma estrada entre montanhas, deslizando pelo vale e passando por alguns centros de esquis (obviamente vazios).

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fomos parar na aduana de caminhões de Uspallata, já na província de Mendoza. o caminhão passou por uma máquina de raio-x gigante e tudo. pelo jeito fomos aprovados. aí sim esperamos um monte depois de fazer os trâmites de entrada porque Luís e Juan tinham que esperar uns papéis e não tinha sistema etc. eram quase oito da noite e o dia ia embora.

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quando finalmente nos liberaram já era noite e seguimos a Uspallata pra parar e comer. era tarde mas estavam mui atrasados depois do atraso da manhã e a demora no sistema da aduana. queriam chegar em Tinogasta no começo da tarde do dia seguinte e ainda tinha muito chão pela frente. então adiante pela estrada no rumo de San Juan.

Fernando capotou na cama atrás da cabine enquanto fui na frente conversando com Luís pra disfarçar o sono e o cansaço. já eram mais de 12 horas entre estrada e espera. paramos por aí no limite entre San Juan e La Rioja, em algum povoado cujo nome eu não cheguei a descobrir (e olho no mapa e não há nada). Luís se meteu na cama pra dormir e eu e Fernando nos acomodamos como pudemos nos bancos da frente (porque a gente podia dormir direito depois).

consegui dormir umas duas horas. acordei com o dia clareando e fui caçar um banheiro. por sorte o posto de gasolina do outro lado da pista estava aberto e o banheiro estava bem usável.

um friozinho.

um sono desgraçado.

pouco depois acordou Luís e logo estavamos na estrada outra vez. entramos na província de La Rioja e tocamos em direção à capital, onde foi minha vez de ocupar a parte de trás da cabine e tirar uma sonequinha.

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aí aquele silêncio que precede a despedida.

(ou que sucede o cansaço de vinte horas de estrada.)

era pouco mais de meio-dia quando alcançamos a entrada da cidade de La Rioja. nos despedimos de Luís (capo) e empreendemos a looonga caminhada até a rodoviária (que teoricamente fica na entrada). mas vá andar dez quadras com a mochila nas costas.

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cruzando a cordilheira dos andes com o amigo luís

wooof.

que troço lindo e infinito é a cordilheira dos Andes.

que enormes são as distâncias que no mapa aparecem em meio centímetro.

que imensidão é a puna.

claro que eu tinha uma ideia de cordilheira de desenho animado, de ir se metendo por entre montanhas sem fim; e claro que não é nada disso. são planícies gigantescas, salares enormes, lagoas salgadas de água azul ou verde; um grande deserto plano cercado de montanhas de cinco ou seis mil metros de altitude enquanto você cruza um pouco abaixo disso pela parte mais plana. cores e cinzas vulcânicas.

o caminhoneiro se chamava Luís; o que vinha atrás no caminhão branco era Juan, na volta de sua primeira incursão à Argentina. Luís quis apertar minha mão quando eu disse que estava viajando fazia 15 meses. tipo mui divertido e eu entendia quase tudo que dizia com esse sotaque chileno difícil. conhecia uma caminhoneira brasileira que lhe mandava mensagens mui maliciosas com propostas indecentes pelo whatsapp (e ele não entendia nada e eu traduzi e ele se assustou).

parecia mui contente de ter companhia e compartilhamos umas peras que tinha que comer antes de chegar na aduana chilena.

são uns 20 km de asfalto até o paso internacional; uma placa no meio do nada. aí começa a estrada de terra e pedregulho do lado chileno.

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e mais uns 80 km pra chegar na aduana chilena.

nunca.

paramos na Laguna Verde pra tirar fotos. um vento terrível e frio. a lagoa verdinha só não refletia o céu e as montanhas porque o vento, e tinha ondas. por todo lado que se olhava algum pico nevado. era afinal a região dos seismiles.

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foi meio infinita essa parte da viagem porque a estrada obrigava uma velocidade mei preguiçosa, apesar de o caminhão estar vazio. o tempo não se sentia muito arrastar porque a conversa e a paisagem e as fotos e bolacha de água e sal com um patê suspeito que o Fernando tinha comprado em Fiambalá. mais adiante surgia uma planície ainda mais gigantesca com a linha da estrada passando pelo meio e Luís disse que atrás de uns picos nevados adiante estava a aduana chilena.

enchendo a cara de bolacha de água e sal. vulcão Ojos del Salado, um dos picos mais altos dos Andes.

ainda assim foi uma eternidade pra cruzar essa planície.

na aduana apresentamos documento, preenchemos papel, passamos mochila pelo detector de coisas orgânicas e fomos aprovados pra seguir adiante. tinha muito caminho pela frente e ainda estávamos no meio da cordilheira. ao lado se estendia o salar de Pederneras, outro troço imenso sem fim.

estávamos oficialmente em solo chileno.

.

a fome foi apertando porque nada de comida de verdade desde que acordamos, mas ali era nada ninguém nunca e pelo menos a gente tinha as bolachinhas de água e sal (aparentemente tão infinitas quanto a cordilheira). Juan do outro caminhão nos passou um suco ades pra enganar a fome. seguimos por essa paisagem desértica que nem mesmo uma vicuña, uma lebre, um passarinho.

e tudo isso nenhuma alma viva que cruzou no sentido contrário, que era pra pensar que estaríamos pra sempre na aduana argentina esperando alguém pra nos levar de volta a Fiambalá.

tomamos o rumo de Diego Almagro, que era a parada do Luís mais próxima do nosso destino: a praia de Caldera.

já eram seis da tarde e sem almoço quando começamos a descer a cordilheira pela Cuesta de los Patos, que aí sim tem a cara de cordilheira de desenho animado da minha imaginação. foram aparecendo sinais de civilização: é uma região mineira cheia de trilhos de trem e casinhas de chapa. Luís conseguiu sinal de internet e nos ofereceu conexão fazendo do celular um roteador wifi.

Diego Almagro tem a mesma pinta de cidade de mineração: as casinhas coloridas de chapa, mei feia, mei triste. já começava a escurecer quando Luís parou no posto de gasolina e perguntou por hospedagem. também nos trouxe chocolate. nos despedimos um pouco mais adiante e ele ainda nos disse pra mandar mensagem quando quiséssemos voltar porque capaz ele ou algum amigo podia nos levar.

parecia meio absurdo então estar no Chile depois daquela viagem de umas oito horas cruzando a cordilheira num caminhão. parecia meio absurdo estar no Chile depois de decidir tão decididamente que voltaríamos a Fiambalá e quem sabe visitar as ruínas de Shincal, no povoadinho de Londres (no caso em Catamarca).

parecia meio absurda a facilidade de caminhar como se flutuando depois de estar na altitude e de repente 900 metros sobre o nível do mar meu deus quanto oxigênio.

parecia meio absurda principalmente a fome que a gente sentia, então conseguimos hospedagem (sem internet e uma senhora que não entendia nada que a gente dizia), conseguimos sacar pesos chilenos e nos metemos numa lanchonete mei sem vergonha pra finalmente comer alguma coisa com cara de comida.

entre uma aduana e outra no caminho do paso de san francisco

dois dias em país nenhum, metidos num limbo diplomático na cordilheira dos andes.

teoricamente é solo argentino, mas o passaporte dizia outra coisa.

primeiro dia Fernando basicamente dormiu, eu caminhei um pouco enfrentando o vento pra encontrar umas lagoas, uns passarinhos e muitas vicuñas.

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um pedaço da vista desde o refúgio.

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vicuñas.

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o refúgio e, ao fundo, o prédio da aduana. no meio do nada.

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Fernando depois do almoço meditando sobre a falta de oxigênio daquela porcaria de lugar.

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pedaços de lagoa atrás dos morros.

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passarões.

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pedaço de puna.

a puna não me agarrou e talvez o corpo tenha algum tipo de memória porque no último mês estava nessa de sobe e desce da altitude sem nenhuma periodicidade. cansaço sim, claro, mas dava pra caminhar sem sentir demais as consequências da falta de oxigênio. só os músculos e o fôlego reclamavam um pouco, mas a cabeça e o estômago estavam contentes.

segundo dia Fernando se sentia melhor e nos metemos a subir uma montanha em frente ao refúgio, uma que alcança quase 4500 metros de altitude. nos acompanhou uma cachorrinha filhotona que foi reclamando quase todo o percurso e só sossegava quando alguém se sentava pra ela subir no colo ou quando a gente lhe dava bolacha de água e sal.

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não subimos tudo e fomos descendo por onde não tinha caminho em direção a uma lagoa cheia de flamingos, que obviamente voaram pra longe quando perceberam que nos aproximávamos.

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as distâncias na altitude são infinitas.

aí que chegamos e o Fernando estava apunado outra vez, todo estragado, e dormiu o resto do dia com o corpo todo xingando a falta de oxigênio. eu sem livro que meu kobo quebrou fiquei ali tomando mate no sol, meditando e às vezes perturbando o Fernando pra ele tomar água (os montanhistas insistiam diz pra ele tomar água e ele todo desmaiado e eu pensando mas vou meter água pela orelha do rapaz que ceis querem que eu faça?). pensamos que podia ser melhor voltar pra Fiambalá mas não tinha ninguém ali que ia voltar e na aduana não passava alma viva.

só o vento.

restava encarar a noite e no dia seguinte descobrir pra onde nos mandava a sorte.

entre antofagasta de la sierra e fiambalá

com os franceses nas 4×4.

tinha espaço, cabia eu, cabia minha mochila.

pensei que sim, queria ir ao vulcão Galán a maior cratera do mundo (argentino tem umas manias de o maior, o mais largo, o mais comprido), mas também não ia ter tão fácil outra chance de ir de Antofagasta a Fiambalá pelo caminho alternativo, pelas paisagens mais bonitas. então sete da manhã estava esperando os franceses na hostería municipal.

saí na frente com um dos mais aceleradinhos, que tinha lugar na caminhoneta. esqueci o nome dele. ops. ele saiu logo depois das motos e fomos nos comunicando com um inglês macarrônico com muitos substantivos e verbos no infinitivo. ele apesar de curtir velocidade ia parando quando eu queria tirar foto então por mim estava tudo belezinha.

e também que muitas vezes eu ficava olhando a paisagem com a boca aberta e esquecia de tirar foto, e só me dava conta porque o lábio começava a doer de seco.

logo saímos da estrada e nos metemos num campo desolado de terra e areia com algo de marca de rodas no caminho, mas não muito. um vulcão se aproximava com seu gigantesco campo de lava petrificada; tanto se aproximou que nos metemos nesse entorno negro e pedregoso e fizemos toda a volta pelo campo de lava até sair do outro lado num salar esburacado e duro.

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aí mais areia, ou cinzas vulcânicas, ou os dois, até chegar no famigerado campo de pedra pomes, gigantesco. me dei conta que era afinal o campo esbranquiçado que lá do vulcão Antofagasta se via na distância.

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ao fundo umas montanhas cobertas de areia e que dali pareciam montanhas abandonadas, cheias de pó, esquecidas.

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aí começou a complicação. e a subida.

três mil e oitocentos, três mil e novecentos, quatro mil metros de altitude… e subindo. o carro foi cansando e a areia foi afofando. teve um momento ali que pareceu que a gente ia ficar ali parado no meio do deserto. mas tudo bem: vitória do 4×4. continuamos subindo enquanto o campo de pedra pomes se estreitava e se tornava mais esparso, e à direita uma montanha que mais parecia uma pintura, ou um cenário de ficção científica desenhado em história em quadrinhos.

como eu posso descrever isso?:

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entende o dilema? não parece uma montanha. não parece nada.

parece coisa da cabeça de alguém com muita imaginação e tempo livre.

a montanha se mostrou inteira quando alcançamos o ponto mais alto da travessia: quatro mil trezentos e pico metros de altitude; descemos do carro, tiramos fotos, voamos com o vento forte.

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então voltamos pro carro e começamos a descer.

pouco a pouco o cenário ia mudar pra algo mais… parecido com o planeta Terra.

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pouco a pouco.

por exemplo, talvez seja aqui o momento em que as paisagens se misturam:

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e depois pedras, vegetação, terra. Houston, we have landed.

nos metemos numa encosta de uma montanha gigantesca e sem fim, com a cordilheira ao fundo, multicolorida e impossível. a estradinha estreita e o precipício. fomos devagar até alcançar um riachinho e parar pra almoçar.

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fiquei pensando que, putz, a puna, os vulcões, as paisagens incríveis. e no final o que a gente precisa pra viver é um riachinho, um vale com vegetação em volta.

parecia que tinha acabado a descida mas depois de uma curva, a descida continuou até que alcançamos um povoado metido no meio do nada (do NADA). umas pessoas até meteram as caras pra fora em plena hora de siesta pra ver que era que estava acontecendo que tinha um carro passando pela estrada.

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(“estrada”.)

aí a última parte interminável da travessia: a quebrada entre esse povoado impossível e a estrada principal, pelo leito do rio, que já estava ameaçando crescer, e que em alguns pontos me pareceu bem crescido. o cenário, mais terráqueo, me lembrou bastante Iruya e San Isidro. já estávamos a menos de dois mil metros de altitude e um calor violento.

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estrada enfim alcançada, seguimos até Palo Blanco onde era o ponto de encontro e… esperamos.

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Fiambalá estava já uns 30 km de distância mas a dúvida era se iam ou não pelas dunas (as dunas mais altas do mundo etc), porque o tempo já estava mei avançado. o grupo chegou uns minutos depois e ficaram lá falando um monte de francês enquanto eu não entendia nada. conclusão metade do grupo ia pelas dunas e metade passava por Fiambalá (o destino deles era Cortaderas, já no rumo do Paso de San Francisco). troquei de caminhoneta porque meu piloto ia pelas dunas e não passaria por Fiambalá pra economizar tempo e segui com o grupo que tomaria a estrada normal.

foi se aproximar de Fiambalá e um vento violento tipo tempestade de areia.

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Fiambalá está metida entre montanhas, aos pés da cordilheira dos Andes e feita oásis no meio de um enorme deserto de areia, com dunas e muito vento.

pararam todos no posto de gasolina e nesse ponto juntei minhas mochilas e me despedi da turma. a praça de Fiambalá estava a três quadras de distância e me empurrou o vento (e a areia).

aventuras em la rioja

aí que em Villa Unión, na província de La Rioja, rolaram altas aventuras incluindo tormenta de neve na cordilheira, e tem um monte de foto, e eu quero contar tudo como foi, mas eu demoro horas e horas respondendo e-mails divertidos e de repente são oito da noite e o moço do hostel aqui em Tucumán acabou de nos indicar um restaurante vegetariano a quatro quadras com HAMBURGUESAS.

então uma foto do último sábado a mais de 4 mil metros de altitude na cordilheira dos Andes:

eu brincado na neve e ao fundo a tormenta passada.

que sou eu brincado na neve e ao fundo a tormenta (sim, passamos no meio daquilo). do outro lado da foto o céu estava azul.

e depois eu conto tudo.