olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

tag: cortázar

mais poética

foi lendo “Os prêmios”, do Cortázar, num verão em Porto Alegre entre 2010 e 2011. tinha começado a escrever um livro novo sem nenhum projeto narrativo, sem nenhum story board, sem nenhum tipo de planificação. tinha dois personagens e uma ideia, e escrever aquele romance me dava uma alegria imensa.

aí empacava, como é sempre inevitável, e me metia a ler Cortázar — nessa época pré-Kobo tinha levado uns três quilos de livros na mala (e voltei com mais três porque sebos), e só esse Cortázar devia pesar um quilo inteiro. lia um pouco, um ou dois capítulos, e súbito voltava o fluxo da escrita durante a leitura; abandonava o livro e abria outra vez o computador, e lançava ao texto mais algumas linhas, algumas páginas.

todos os dias.

meu livro não tinha nada com “Os prêmios”. não na trama, nem nos personagens. mas era a forma de relacionar texto, trama e personagens que me fazia seguir escrevendo como se ler e escrever fossem uma coisa só.

aí que desde “Os prêmios” e principalmente, antes dele, de “62 Modelo para armar” que tenho buscado na literatura algo que parece cada vez mais difícil de encontrar. esse enrosco entre história e linguagem que jamais despreza um deles a favor do outro. porque cada vez mais (me repito?) algumas literaturas se esforçam por separar as duas coisas. ou o livro tem história, ou tem trabalho de linguagem.

não pode ter as duas coisas?

como escritora de literatura mais ou menos policial me sinto às vezes num indesejado meio de caminho. a linguagem é às vezes muito complicada pra quem quer literatura de entretenimento, e a história é entretenimento demais pra quem quer um texto mais profundo. olha, não é por nada não, mas eu até que sei fazer literatura de entretenimento, e poderia me meter a escrever essa literatura hermética de academia. eu passei pela academia, também. mas eu não queria, sabe? eu quero escrever o que eu gosto de ler; e já faz um tempo que não encontro tão fácil a literatura que se esforça pelo caminho do meio.

e se mesmo Cortázar tantas vezes é acusado de escrever pra adolescentes, de ser inadequado pra adultos sérios e comprometidos e inteligentes.

(socorro.)

temas e demônios

Como afirma Vargas Llosa: “El por qué escribe un novelista está visceralmente mezclado com el sobre qué escribe: los demonios de su vida son los temas de su obra.” Hay un poema hindú, el Vijñana Bhairava, que le gustava mucho a Cortázar, y que en cierta forma le explica: “En el momento en que se perciben dos cosas, tomando conciencia del intervalo entre ellas, hay que hincarse en ese intervalo. Si se eliminan simultáneamente las dos cosas, entonces, en ese intervalo, resplandece la realidad.”

Ignacio Solares, Imagen de Julio Cortázar

pergunta aos amigos escritores: quais são os demônios de sua vida? como esses demônios se infiltram na sua obra?

(pergunta a sério. proponho post-resposta nos blogs respectivos. alguém encara?)

o talvez definitivo

Os antigos escrevem — diz Colombo no Diálogo — que os amantes infelizes jogavam-se no mar do penhasco de Leucádia, e se conseguissem sobreviver, ficavam livres da paixão amorosa pela graça de Apolo. Pois então “cada navegação é quase um salto do penhasco Leucade”. Os navegadores estão sempre em perigo de morte, mas justamente por isso valorizam a vida mais que os outros. Distantes da terra, eles não têm maior desejo do que ver dela um “cantinho”. Disso fazem fé aqueles que participam da presente expedição: incertos da viagem, acordam e adormecem pensando na terra; “e se uma só vez nos será revelado de longe o cume de um monte ou de uma floresta, ou coisa parecida, nossa felicidade será imensa.”

– Piero Boitani, A sombra de Ulisses

e pensar no final do conto “Perda e recuperação do cabelo“, do Cortázar. pensar nesse grande talvez que nos empurra adiante numa vida que nunca poderia ter sentido nenhum senão aquele que damos a ela. por acreditar em alguma coisa ou procurar o que com certa frequência nos parece impossível alcançar*; para lutar contra o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis; por procurar um fio de cabelo com um nó no meio; por acreditar no novo mundo ou num mundo novo.

é o mesmo talvez que faz a literatura:

“Os homens escrevem ficções porque estão encarnados, porque são imperfeitos. Um deus não escreve romances.” (Enrique Vila-Matas)

nesse livro A sombra de Ulisses, o autor conta como Leopardi comenta a glória da empreitada de Colombo apontando que “o conhecimento reduz, faz com que [o mundo] ‘diminua’ na consciência do homem”, “achata a Terra tornando-a uniforme, transformando-a em breve carta“, “arranca o ‘caro imaginar’ do menino e da humanidade criança, mata, com o ‘real’, o estupendo poder primigênio da imaginação”, “faz desaparecer de repente, fixando-os em um ponto geográfico, os sonhos do outro mundo, da nova terra além do ocaso do sol”. pois está posta a contradição desse talvez. é ele, afinal que impulsiona a ciência, tida por Leopardi como “inimiga das grandes ideias, apesar de ter desmedidamente ampliado as opiniões naturais”, pois “uma pequeníssima ideia confusa é sempre maior do que uma grandíssima completamente clara”.

o talvez é sempre maior do que o sim e o não. o possível é sempre infinito, enquanto o fato está limitado em suas dimensões medíveis. mas no devir da existência a grandeza do talvez está condenada a se transformar a todo momento em simnão, em fatos, descobertas; mesmo na forma de ficção ele perde também um pouco da sua imensidão, dadas as devidas proporções e acreditando no que Aristóteles apontou sobre a diferença entre poesia e história: a poesia é “o que poderia acontecer”.

um talvez que cria a esperança mas também faz nascer a espera. de qualquer forma, não escapamos dele.

* na terça-feira saindo do metrô fui abordada por uma moça mui simpática que precisava dizer, ainda que aquilo soasse um pouco estranho que eu pensava que estava buscando alguma coisa impossível, mas não, era isso mesmo, não era uma busca impossível. eu sorri, ela pareceu um pouco constrangida, deu um tchau meio sem jeito e subiu os degraus da escala rolante.

autoestrada do norte

engarrafamento de 200 km na Rússia já dura cinco dias.

Rússia: engarrafamento após nevasca tem 200 km e já dura 5 dias

“o governo russo admitiu que as estradas do país precisam de melhorias.”

alguém no twitter comentou o quanto isso fazia lembrar um certo conto do Cortázar. desses contos que a gente lê e diz que o realismo fantástico e o absurdo etc.

mas não custa pensar em Pirandello, que bem lembrou o quanto a ficção muitas vezes inventa a realidade, e não o contrário.