olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

tag: escalada

inesperada eslováquia

quando começamos esta volta por Alemanha e leste da Europa, tínhamos uma ideia vaga de por onde queríamos passar: Praga, Cracóvia, algum lugar na Eslováquia e quem sabe Hungria. aí que já tínhamos transporte e hospedagem em Budapeste desde Berlim, e ainda não sabíamos como ia ser o caminho entre Polônia e Hungria, e que tinha de interessante pra ver e parar e ficar na tal da Eslováquia, esse país meio esquecido que ficou com o menor do turismo quando a Tchecoslováquia se separou.

mas viva a internet etc.

ainda na Polônia, descobrimos um tal paraíso de escalada no meio do nada no lado oeste da Eslováquia, perto de cidades obscuras e impronunciáveis (Bytča, Žilina), num lugar igualmente obscuro e impronunciável: Súl’ov.

nova empreitada: descobrir como chegar até lá desde Zakopane, sul da Polônia, outro destino um tanto quanto fora de mão escolhido no meio do caminho.

a internet nos sugeriu que o percurso era POSSÍVEL. uma vez em Zakopane, com a ajuda do meio-inglês da moça do caixa na estação de ônibus, descobrimos como cruzar a fronteira até um lugar chamado Poprad, por onde passam muitos trens e provavelmente entre eles um que fosse em direção a Žilina, que é a quarta maior cidade da Eslováquia, parece, embora tenha esse surpreendente número de 80 mil habitantes.

missão cumprida.

de Poprad um trem a Žilina, depois outro trem a Bytča e enfim um ônibus a Súl’ov — esse último que esperamos numa parada de velho oeste junto de um tiozinho que só falava eslovaco com quem nos comunicamos lindamente pra ter certeza de que era ali mesmo que precisávamos esperar.

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depois de cinco dias em Súl’ov pra caminhar e escalar (conhecemos uma dupla de primos escaladores, um inglês-polonês e o outro sueco, que compartilharam a corda e foram boa companhia pra uma cerveja no fim do dia) rumamos de volta a Žilina com a ideia de ficar uma noite antes de tomar o primeiro trem com conexão Bratislava-Budapeste no dia seguinte.

mas aí todos os trens pra Budapeste cancelados fronteira da Hungria fechada etc. resolvemos ficar mais uma noite em Žilina e uma em Bratislava, que dali a Viena (nosso destino seguinte) era um pulo.

foi que acabamos ficando mais na Eslováquia do que na Polônia, onde já tínhamos ficado uma semana inteira entre Cracóvia e Zakopane. deu tempo pra esquecer o mínimo de polonês que eu tinha aprendido e substituir no cérebro pelo eslovaco, ou pelo menos pelo “dobry” básico pra ser simpática na hora de cumprimentar as pessoas.

e eu gostei da Eslováquia. Bratislava, onde só ficamos uma noite, tem tudo pra ser tão turística quando Praga, mas não é. por quê? a falta de um relógio astronômico? menos igrejas?

uma coisa é certa: tem bem menos turistas. e quem sabe alguns dos que estavam ali só estavam ali porque não conseguiram entrar na Hungria pra visitar Budapeste (eu, por exemplo). outros estavam porque calhamos de cair na cidade num fim de semana de festival de folclore com música e moda e artesanato e aparentemente tinha muito turista eslovaco enchendo as ruas do centro velho.

aí que fiquei pensando se tinha gostado da Eslováquia pelo ritmo mais lento e lugares menores como Súl’ov e Žilina (antes que você pergunte eu te digo: Žilina não tem nada demais além de uma praça grande e umas ruas de pedestres com algumas construções antigas); o esforço necessário pra decifrar o idioma quando não tinha menu em inglês nos restaurantes e tudo o que a garçonete sabia dizer era “non-smoke” e “drink?”; ou.

quê?

aí me ocorreu que o melhor da Eslováquia foi justamente o fato de que eu não esperava nada dela.

foi o inesperado.

de Praga e Cracóvia se ouve muito etc. é pedir demais que as pobres cidades façam jus a tudo que é dito e escrito sobre elas. sobram frustrações. mas que eu sabia sobre a Eslováquia, além de que Bratislava é um nome muito legal pra meter num título de livro?

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confesso que entrar na Áustria foi um alívio: percebi de repente que sabia muito mais alemão do que imaginava. poder ler as publicidades e as placas de informação no metrô é um troço que a gente não valoriza o suficiente (embora informo que todas as publicidades ficam infinitamente ridículas quando você não sabe ler o que está escrito).

e Viena é linda e cheia de construções enormes e fabulosas, mas a timidez e a surpresa eslovaca me ganharam.

claro que isso é coisa da minha cabeça: concluir que ainda é muito mais divertido desbravar e decifrar o desconhecido do que repisar pegadas alheias. Praga deve ser boa de visitar sem nunca ter ouvido dizer nada de Praga antes. é como ler Grande sertão: veredas; meu sonho poder ler aquele livro pelo menos uma vez sem saber o final.

interagindo com suíços no centro de escalada

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porque aprender um idioma novo, completamente novo, é um troço terrivelmente divertido e terrivelmente cansativo. sempre palavras novas, construções novas e aprender mais a cada dia e errar mais a cada dia e essa incapacidade de expressar o que você quer dizer sem olhar no dicionário ou ficar meia hora com o olhar perdido montando uma frase na cabeça enquanto a outra pessoa espera uma resposta.

capow.

aí que hoje fui escalar sem o oliver que tinha suas burocracias pra resolver e veio um senhorzinho puxar papo quando eu estava fazendo boulder, perguntar se ele estava me atrapalhando. “bininweg?”, ele perguntou, e eu obviamente não entendi nada. pedi desculpas e disse no meu melhor hochdeutsch que meu alemão era schlecht (ruim). ele repetiu “bin ich im Weg?” (algo como “estou no caminho?”) e eu disse que não, não.

nein nein.

(alemão obviamente avançadíssimo.)

depois ele veio ainda muito paciente me dar umas dicas e dizer que sim, aquela rota que eu estava tentando fazer era mesmo muito difícil, mão direita ali, mão esquerda ali etc. não vou dizer que entendia tudo mas acho que entendia o suficiente e arrisquei umas respostas enquanto ele me contava que estava voltando depois de muito tempo parado e que tinha feito uma cirurgia no ombro.

mais tarde um dos seus companheiros deve ter ouvido meu sotaque sofrível porque perguntou se eu falava espanhol e aproveitou pra praticar comigo um pouquinho do idioma.

(ckeckpoint, pause etc.)

acho que, entre aulas, ajuda do oliver, fiscal de ticket no trem perguntando de onde e pra onde eu estou indo, e dicas de escalada por velhinhos atletas, estou avançando.

mas, fooo. tem horas que o cérebro dá uns nós que nem o inglês salva.

mais um domingo

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acordar dez da manhã depois de ir dormir passado meia-noite — que é pra compensar as horas de sono perdido por ter acordado cinco da manhã no sábado pra visitar a parte italiana da Suíça –; café da manhã reforçado e de bicicleta até o centro de escalada do outro lado do morro a umas duas ou três vilas de distância parando pra tirar foto dum campode girassois; uma hora e meia de escalada e tomar o rumo do lago, encontrar um ponto cheio de argentinos e portugueses e a água quentinha; um pão recheado com chocolate e um mergulho com os patos e os cisnes enormes que te olham desconfiados; a volta que uma subida interminável e enfim a ladeira final cruzar o trilho de trem e estar de volta, e o marcador de temperatura gritando 40° ali antes da curva, e ainda são cinco da tarde e vai ter hambúrguer vegetariano pra fechar a tarde.