olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

tag: escrever

e que saiba abrir a porta para ir brincar

Gato5nd

há certos escritores que se lê como se escreve. que o cérebro registra a leitura como se escreve, como se reproduzisse em eco o texto alheio e se apropriasse dele. desses o prazer maior da leitura, dessa construção em conjunto, de pertencer a qualquer coisa externa que ao mesmo tempo também é você, também é algo seu, transformado seu.

o texto acaba mas jamais acaba, e continua pela ponta do lápis, pelos dedos no teclado em energia renovada e a certeza que sim, tudo já foi dito e tudo já foi escrito, mas há esse eco e por ele continua-se escrevendo e registrando e dizendo, milhares de pontos de vista sobre um mesmo objeto, sobre nosso único objeto, tudo sempre reflexos de um existente para além daquilo que jamais poderia ser pronunciado.

a vida secreta das nuvens

me enganando mais uma vez, comecei — acho que comecei — a escrever outro livro. outro, não-policial. o título é esse aí. como começa ainda estou brigando, mais eis um começo possível:

Li em algum lugar que três da manhã é a hora dos suicidas. Sei que foi a essa hora que meu pai tomou toda uma caixa de remédio anti-ansiolítico junto de uma garrafa de vodca e se matou. Eu tinha sete anos. Ou seis. A verdade é que muito pouco me lembro de meu pai, senão um sorriso vago e a foto que meu irmão deixa na escrivaninha.

o fim está escrito, feito. não sei bem como vou chegar até ele, mas encontrei um fio e rumo que faltavam. e esse rumo vai se chamar Augusto. aí outro:

Ele. Chamava-se Augusto. Descobri. De uma vez que se despedia do —–, e então um “até mais, Guto”. Guto; Augusto? Devia ser. Tipo alto, robusto. Que não tanto porque forte, ou ainda um tanto pouco acima do peso. Eram os cabelos curtos, ondulados em cachos. Os olhos escuros e atentos. Mas via seus braços, quando puxava as mangas da camisa com o calor no hall do instituto, saído súbito da sala climatizada onde a temperatura nunca passava os 20ºC. Ele sempre sereno, quase imóvel em seus movimentos. Tinha em alguns dias os olhos sonolentos, e as mãos esfregavam o rosto, devagar. Como se jamais qualquer movimento necessitasse pressa, como se estivesse sempre adiantado para o que fosse, nunca prazos, nunca lugar melhor para estar. Seguindo talvez mui eficiente os preceitos daquele, romano, cheio das frases gordas. Pensei, ainda, que se vestia mal. Desleixado. Qualquer camiseta do topo da pilha da gaveta, e uma camisa de botão por cima, vezes ainda que por através do tecido da camisa clara se via a imagem na camiseta que estava por baixo. Sempre a calça jeans, o mesmo sapato velho. Mas seus braços, suas mãos. O sorriso bem educado. E vezes que falava com a namorada no telefone celular enquanto esperava no saguão. Eu o observava. Ele, sorrindo. Sorria, para todos. Para mim, também, nesse incluir-se. E era meu. E fazia-o personagem, que é o que se deve fazer com esses, que assim inatingíveis. Ele, o anel prateado no anular da mão esquerda, feito impossibilidade. E será que Fabrício notava, quando eu chegava ao final da terça-feira, e ele parava o que estava digitando porque passou o dia trabalhando e tinha fome, e sem hesitar eu o correspondia, como talvez esperasse de mim todos os dias. Mas era ainda ele — o Augusto — e meu passar minutos da parca convivência silenciosa a lhe observar as mãos, quase sempre imóveis no seu falar sereno, enquanto balançava a cabeça para o ‘sim’ e o ‘não’, entre sorrisos. Era a ele que minha mente viajava, no meu desconhecimento, ele feito personagem, ele de repente me sorrindo e porque dizia ‘oi’, aproximando-se com o passo tranqüilo e até mesmo cansado, e então o que seria atração a não se resistir, surgida no fazer-se personagem, no fazê-lo meu. Fantasiava, inconseqüente. Não. Fabrício, não. Jamais imaginaria minha traição em pensamento, fosse o que fosse, o símbolo, o anel.

por ora, só uns pedaços.