olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

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escritor é um bicho estranho

escritor é um bicho estranho.

escritor trabalha primeiro, e depois torce pra, talvez, ser remunerado.

escritor na internet é ainda mais estranho: trabalha trabalha trabalha loucamente, de graça, e de vez em quando pede uns trocados; se tanto, fica esperando que todo esse capital simbólico se transforme em um convite pra escrever e ser pago por isso.

muitas vezes o que recebe são convites pra trabalhar de graça.

mas essas pessoas pra quem ele trabalha de graça estão ganhando alguma coisa?

ou é porque estão trabalhando de verdade?

mas na maioria das vezes o escritor segue escrevendo; segue trabalhando em troca de capital simbólico; segue trabalhando um day job qualquer que ponha comida na mesa e que muitas vezes serve também pra lhe tirar o fôlego e a vontade de fazer o trabalho que ele realmente queria estar fazendo.

não tenho dúvida de que a lógica atual do trabalho é torta, mas que estranho pensar que, quando se trata de um escritor, tudo bem que essa lógica não se aplique. tudo bem que ele não receba nada pra trabalhar, que ele tenha que ter dois trabalhos, um que paga e outro que… não é nem um trabalho, afinal. todo mundo sabe escrever, não é mesmo?

que mundo louco esse que manda o escritor trabalhar e não quer pagar o escritor pelo trabalho que ele produz.

e que vamos dizer do artista?

o que é o mundo sem a arte?

sem a literatura?

mas a gente segue trabalhando, de graça, por amor, pela necessidade de conectar-se, de expressar-se, pelo capital simbólico que às vezes se transforma em capital financeiro e ajuda a pagar as contas, mas nem sempre.

quase nunca.

porque eu, por mim, trabalharia de graça mesmo; escreveria pro resto da vida sem nunca pedir nada em troca. não fosse o mundo exigir que eu pague por teto, comida, internet.

o mundo é um lugar estranho.



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dez reais é o preço de uma cerveja. você me ajuda a pagar as contas e eu posso me dedicar à escrita com mais tempo e tranquilidade.

e mais uma vez feliz ano novo!

mais poética

foi lendo “Os prêmios”, do Cortázar, num verão em Porto Alegre entre 2010 e 2011. tinha começado a escrever um livro novo sem nenhum projeto narrativo, sem nenhum story board, sem nenhum tipo de planificação. tinha dois personagens e uma ideia, e escrever aquele romance me dava uma alegria imensa.

aí empacava, como é sempre inevitável, e me metia a ler Cortázar — nessa época pré-Kobo tinha levado uns três quilos de livros na mala (e voltei com mais três porque sebos), e só esse Cortázar devia pesar um quilo inteiro. lia um pouco, um ou dois capítulos, e súbito voltava o fluxo da escrita durante a leitura; abandonava o livro e abria outra vez o computador, e lançava ao texto mais algumas linhas, algumas páginas.

todos os dias.

meu livro não tinha nada com “Os prêmios”. não na trama, nem nos personagens. mas era a forma de relacionar texto, trama e personagens que me fazia seguir escrevendo como se ler e escrever fossem uma coisa só.

aí que desde “Os prêmios” e principalmente, antes dele, de “62 Modelo para armar” que tenho buscado na literatura algo que parece cada vez mais difícil de encontrar. esse enrosco entre história e linguagem que jamais despreza um deles a favor do outro. porque cada vez mais (me repito?) algumas literaturas se esforçam por separar as duas coisas. ou o livro tem história, ou tem trabalho de linguagem.

não pode ter as duas coisas?

como escritora de literatura mais ou menos policial me sinto às vezes num indesejado meio de caminho. a linguagem é às vezes muito complicada pra quem quer literatura de entretenimento, e a história é entretenimento demais pra quem quer um texto mais profundo. olha, não é por nada não, mas eu até que sei fazer literatura de entretenimento, e poderia me meter a escrever essa literatura hermética de academia. eu passei pela academia, também. mas eu não queria, sabe? eu quero escrever o que eu gosto de ler; e já faz um tempo que não encontro tão fácil a literatura que se esforça pelo caminho do meio.

e se mesmo Cortázar tantas vezes é acusado de escrever pra adolescentes, de ser inadequado pra adultos sérios e comprometidos e inteligentes.

(socorro.)

carta da autora aos novos (e velhos) leitores

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a autora pede pra dizer que à parte sua incapacidade com as redes sociais, continua viva. talvez incapacidade não seja a melhor palavra.

vim pra dizer que continuo escrevendo. que editoras têm um ritmo todo próprio, ainda mais quando se é uma editora nadando contra a corrente do mercado editorial selvagem e suas traduções de prêmio nobel. vim pra dizer que tenho um livro pronto, um conto em andamento, uma newsletter no caminho e três romances começados.

vim pra dizer que apesar dos esforços, apesar da newsletter, apesar do blog, eu sou mesmo uma escritora de ficção, e não sirvo tão bem pra esses textos competentes de não-ficção que publicam os escritores de verdade todo o tempo.

que os meus textos de não-ficção são mais ou menos sempre o mesmo texto. eu conheço o estereótipo: as pessoas querem que eu escreva sobre esses dois anos de viagem, sobre o que eu aprendi, sobre o que eu vivi. e olha que aprendi bastante. mas o que eu aprendi cabe talvez num só texto. e acho que já escrevi esse texto. tenho certeza de que não preciso ficar atirando minhas ideias em você o tempo todo.

sempre as mesmas etc.

na ficção a coisa é diferente. a ficção é explorar o humano: as falhas, os erros, a dificuldade, a impossibilidade.

e quando você escolhe viver acolhendo com mais carinho seus próprios erros, quando resolve viver em exercício diário pra ser uma pessoa melhor, ter mais compaixão, reclamar menos, aceitar mais; tudo isso tem um efeito meio curioso na ficção. porque se antes a ficção era também um pouco explorar umas verdades sujas dentro de mim mesma, agora eu encontro todo esse espaço um pouco mais limpo e organizado.

mas sou escritora de ficção.

é só que por um instante surgiu uma espécie de incompatibilidade entre autora e obra. encontrei meio vazio o lugar em que eu costumava encontrar a literatura. tive que procurar: nisso de arrumar a casa ela acabou sendo guardada em outro lado. não seria assim tão fácil me livrar dela.

comecei pela literatura policial. depois quis fugir dela, e hoje em dia volto um pouco, mas logo em seguida me afasto. quer dizer: algo na literatura policial me chama, e ao mesmo tempo percebi que algo na polícia brasileira não me interessa, nem mesmo como literatura: não me interessa o machismo da polícia, a corrupção da polícia. às vezes até a literatura tem limites.

em outras palavras: continuo na literatura policial, mas longe da polícia. há outras formas de fazer literatura policial sem precisar meter a mão nas sujeiras da polícia. e é por esse caminho que tenho me metido, lentamente. mais ainda porque meu texto mudou quando me meti a escrever coisas menos policiais, e encontrei um estilo que é meu, e talvez seja pouco policial, mas é meu e pretendo ficar com ele até que ele se canse de mim.

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esse texto foi originalmente publicado como parte de uma das edições da minha newsletter. se ainda não assina, é só inscrever seu e-mail aqui no blog.

um conto com eternas duas páginas

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o conto se chama Mancha de café e já tem duas páginas.

era um conto que teria talvez 20 ou 40 páginas.

mas vou escrevendo parágrafo por dia, ou menos, e ele continua com duas páginas.

começo a desconfiar que ele vai terminar com seis páginas.

o que não é um problema em si, na verdade, mas também que me ocorreu na última vez que abri o arquivo que o conto não era grande coisa, e que a ideia grandiosa que tive quando comecei a escrever se reduziu a uma banalidade mais ou menos policialesca com um catch final pro leitor fazer a-ha!

ou seja: começo a desconfiar que não quero terminar de escrever esse conto.

e como a ideia era pelo menos terminar esse conto pra voltar ao ritmo de escrita e então retomar a escrita de um dos romances iniciados, parece que tenho um problema.

ou: hora de mudar os planos.

esse vício de escrever

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existe um prazer físico em escrever com o teclado do computador que faz despertar umas vontades de escrever simplesmente por estar usando as teclas, corrigindo um texto alheio, digitando uma atualização no twitter. esse vício de apertar as teclas com as pontas dos dedos e ver as palavras formarem-se na tela, quase alheias ao movimento que as produz. e continuar digitando, escrevendo, inventando; qualquer coisa só pra não parar de mover os dedos, de escutar esse ruído tão familiar e tão lindo, esse ruído que faz surgir personagens e histórias e tudo isso que teoricamente não existe de verdade mas que, enfim, nunca se sabe.