olivia maia - escritora desterrada.

tag: escrita

como começar um romance II

La vida es un pequeño espacio de luz entre dos nostalgias: la de lo que aún no has vivido y la de lo que ya no vas a poder vivir. Y el momento justo de la acción es tan confuso, tan resbaladizo y tan efímero que lo desperdicias mirando con aturdimiento alrededor.

Rosa Montero, La carne

as much as death is inevitable life is inevitable

, ,

The most solid advice, though, for a writer is this, I think: Try to learn to breathe deeply, really to taste food when you eat, and when you sleep, really to sleep. Try as much as possible to be wholly alive, with all your might, and when you laugh, laugh like hell, and when you get angry, get good and angry. Try to be alive. You will be dead soon enough.

William Saroyan, The Daring Young Man on the Flying Trapeze (prefácio)

tantos outros personagens para escolher

enquanto não publico a newsletter já obviamente atrasada, deixo com vocês (e principalmente aos amigos e amigas escritores) um artigo longo e interessante pra pensar um pouco em nosso terrível ofício (enquanto vou lendo On Writing, do Stephen King, que tenta me empurrar num estado de ânimos contrários ao da leitura deste artigo).

Between advertising and the novel, the lines of influence are blurry because the new marketplace was blending the forms together, forcing them to change their practices to survive. Every advertiser was a novelist, every novelist, at least for a sentence, an advertiser. Or, as a critic for Life in 1913 describes the work of one first sentence, a street “barker.” (…)

As Marchand writes, America was now for the first time a majority urban population. For the first time in human history, the majority of people the average person encountered in a given day were strangers. Others had no inner lives; they were just the external characteristics visible during a first impression. For advertisers, this meant cajoling people about every detail of their appearance, littering advertisements with scrutinizing eyeballs. And there’s something of this too for the novel-reading public. Adrift in what the era’s writers continually described as a “flood” of fiction, there was no time to create a character ab ovo; he or she must come fully formed, must offer quick and memorable impressions. There are so many other characters to choose from.

» In Search of the Novel First Sentence | Electric Literature

escritor é um bicho estranho

escritor é um bicho estranho.

escritor trabalha primeiro, e depois torce pra, talvez, ser remunerado.

escritor na internet é ainda mais estranho: trabalha trabalha trabalha loucamente, de graça, e de vez em quando pede uns trocados; se tanto, fica esperando que todo esse capital simbólico se transforme em um convite pra escrever e ser pago por isso.

muitas vezes o que recebe são convites pra trabalhar de graça.

mas essas pessoas pra quem ele trabalha de graça estão ganhando alguma coisa?

ou é porque estão trabalhando de verdade?

mas na maioria das vezes o escritor segue escrevendo; segue trabalhando em troca de capital simbólico; segue trabalhando um day job qualquer que ponha comida na mesa e que muitas vezes serve também pra lhe tirar o fôlego e a vontade de fazer o trabalho que ele realmente queria estar fazendo.

não tenho dúvida de que a lógica atual do trabalho é torta, mas que estranho pensar que, quando se trata de um escritor, tudo bem que essa lógica não se aplique. tudo bem que ele não receba nada pra trabalhar, que ele tenha que ter dois trabalhos, um que paga e outro que… não é nem um trabalho, afinal. todo mundo sabe escrever, não é mesmo?

que mundo louco esse que manda o escritor trabalhar e não quer pagar o escritor pelo trabalho que ele produz.

e que vamos dizer do artista?

o que é o mundo sem a arte?

sem a literatura?

mas a gente segue trabalhando, de graça, por amor, pela necessidade de conectar-se, de expressar-se, pelo capital simbólico que às vezes se transforma em capital financeiro e ajuda a pagar as contas, mas nem sempre.

quase nunca.

porque eu, por mim, trabalharia de graça mesmo; escreveria pro resto da vida sem nunca pedir nada em troca. não fosse o mundo exigir que eu pague por teto, comida, internet.

o mundo é um lugar estranho.



se você gosta do que eu escrevo, se você gosta das minhas fotos, se você quer me incentivar a continuar escrevendo de graça, no blog e na newsletter, considere fazer uma colaboração. você pode fazer uma contribuição única de qualquer valor ou uma assinatura mensal de dez reais.

dez reais é o preço de uma cerveja. você me ajuda a pagar as contas e eu posso me dedicar à escrita com mais tempo e tranquilidade.

e mais uma vez feliz ano novo!