olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

tag: estrada

sobre largar tudo e ir viajar

na última edição da newsletter mandei aos assinantes um texto chamado “as duas grandes mentiras sobre largar tudo e viajar”. começa assim:

apareceram recentemente como sempre aparecem uns comentários na minha linha do tempo do twitter sobre essas pessoas que “largam tudo e saem viajando” e sobre como a única maneira de fazer isso é viver às custas dos pais ou ser de família rica e viver de renda.

nessa hora eu caio da cadeira.

daí então que me lembro do outro lado desse mito: a ideia de que qualquer um pode sair viajando, loucamente, com uma mochila de 30 litros nas costas, uma barraca da náutica e uma sandália velha nos pés, pegando carona com os caminhoneiros na BR.

recebi muitas respostas positivas e fiquei contente em saber que um texto assim podia inspirar ou dar uma força a quem estava brigando com as tais das mentiras que eu tentei desmentir. depois de uma sugestão da Aline Valek, resolvi publicar também o texto no Medium, dessa vez com fotos.

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agora o texto vai ficar estacionado por lá. você pode ler, comentar, recomendar aqui: as duas grandes mentiras sobre largar tudo e viajar. se você leu primeiro na newsletter, pode clicar pra ver a seleção de fotos que escolhi pra ilustrar o texto. se não conhece a newsletter, assine aqui!

de volta a córdoba: san marcos sierra

não bastassem as 24 horas de viagem me restavam ainda umas quatro até alcançar Capilla del Monte. comprei passagem pras duas da tarde. Fernando conseguiu também passagem pro mesmo horário, com destino a Tucumán. já era uma e meia então não precisamos esperar muito. já era hora da despedida.

porque muito estranho ter se acostumado com uma companhia de viagem e de repente vai cada um pra um lado. fato é que se não fosse pela companhia jamais teria ido até o refúgio Las Grutas, e muito menos seguido ao Chile em caminhão. então valeram os dias.

adiante.

me meti no ônibus e acomodei-me ao lado de um senhor que roncaria toda a viagem.

puf.

fui meio dormida, meio conversando no whatsapp, meio vendo um filme mais ou menos na televisão do ônibus; a paisagem não é grande coisa e se repete infinitamente: uma grande planície e nada mais. um pouco mais adiantadas as horas se começa a ver algo das serras de Córdoba adiante.

pois que meu plano era ir a Capilla del Monte porque de lá tomaria um ônibus a San Marcos Sierra. também saem ônibus desde Cruz del Eje, mas esse é um povoado feiozinho e sem graça e eu preferia passar uma noite em Capilla do que correr o risco de ter de procurar alojamento em Cruz del Eje.

mas a sorte, essa maluca: quando o ônibus fez a parada na rodoviária de Cruz del Eje, vi ali esperando um ônibus de linha que ia a San Marcos. desci e pedi ao motorista que esperasse um pouco, fui até o outro ônibus e perguntei. sim, ia a San Marcos, sai em dez minutos. voltei, agarrei minhas mochilas e aproveitei a coincidência.

cheguei em San Marcos Sierra no finalzinho da tarde, ainda com luz. no posto de informação turística a mocinha me deu várias indicações de hostel e saí caçando preços até parar no mais barato, um pouco afastado do centro (o que nesse lugar significa a 5 quadras da praça), chamado Viejo Molino. estava cansada mas o dono me disse que comprasse frios e pão que me fazia uns sanduíches.

feito.

aí não sei mais nada: dormi.

no dia seguinte saí do hostel só pra comer e fiquei bem à toa nerdeando um pouco, selecionando fotos e fazendo nada no computador. era muita informação muito lugar muita paisagem pra processar das três semanas anteriores e eu nem sabia bem por onde começar.

enquanto isso na fronteira

ainda tenho o resto dos relatos do Chile pra escrever e publicar (além das fotos), mas deixo vocês com uma foto da aduana de caminhões de Uspallata, de volta à Argentina, com o gênio Luís, o mesmo caminhoneiro que nos levou 10 dias atrás ao Chile pelo paso de San Francisco:

de Diego Almagro ao oceano pacífico

eu achava que sabia espanhol até entrar no Chile.

porque nem ninguém me entende e eu não entendo ninguém. meu consolo é que também não entendem o Fernando, que é argentino (mas até aí ele diz que nem a mãe dele entende o que ele diz).

Diego Almagro é menos feia pela manhã. na verdade tem algo de pitoresca; e como acontece nessas cidadezinhas nada turísticas a gente toda fica te encarando imaginando talvez de onde cazzo saíram essas pessoas estranhas esse tipo magrelo e muito branco e essa maluca de cabelo curto.

fomos à empresa de ônibus comprar a passagem a Caldera e paramos na biblioteca pra usar internet e perguntar sobre a região. tínhamos que sair da hospedagem ao meio-dia e o ônibus saía às 14h. compramos comida e esperamos na calçada com uns sanduíches frios em frente ao lugar onde o ônibus parava.

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a viagem é mais ou menos curta e exemplifica o que o Fernando tinha comentado sobre chegar ao oceano Pacífico: você pode estar a poucos quilômetros do mar e ainda assim só vê montanha. cruzamos foi um grande deserto arenoso de morros com cara de duna e mais alguns povoados mineiros até alcançar Chañaral, que é uma cidade de porto e praia.

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aí estava o oceano Pacífico, cinzento sob o céu nublado.

e mesmo cinzento quando subia uma onda se via aquela cor turquesa de mar do Caribe.

pedras e montanhas e casinhas coloridas de chapa. o ônibus tomou a esquerda rumo ao sul e seguiu pela rodovia bordeando o mar. vez ou outra surgiam uns pontos com casinhas pré-fabricadas enfileiradas pela areia. no mais era muita pedra e muita areia. muita areia por todos os lados. estávamos num deserto ao lado do oceano.

mais adiante o céu ia se abrindo e o mar se via mais azul. nos enroscamos numa parte do caminho cheia desses bloqueios em que liberam um lado da pista por vez, que estavam remendando o asfalto e fazendo miles de obras pelo caminho. Caldera estava a poucos quilômetros depois disso tudo. chegaríamos com o sol (mas o vento veio junto).

aí claro encontrar hospedagem, encontrar a praça, encontrar comida, não encontrar o escritório de informação turística, encontrar lavanderia… usar a internet do hostal. somos mochileros muy truchos, disse o Fernando.

sim.

Caldera em si não tem grande coisa de praia, e melhor é caminhar cinco quilômetros até Bahia Inglesa um pouco mais ao sul. mas tudo bem porque se tanto que de fato as coisas são todas mais caras no Chile nenhum dos dois tem muita pressa de chegar em lugar nenhum (até porque nem sabemos como vamos fazer pra voltar à Argentina).