olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

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Guimarães Rosa me salvou de fazer publicidade

numa troca de e-mails sobre a necessidade de escrever um amigo me passou esse link: poema inédito de Angélica Freitas em homenagem a Ana Cristina Cesar.

no que fiquei depois pensando que Guimarães Rosa me salvou de fazer publicidade.

publicidade, esse caminho do artista cínico e pragmático, a saída dos criativos desesperados.

mas as possibilidades da arte, a beleza do texto, de repente, paf. por dizer: existe um caminho sensato.

já pensou?, publicidade! até o começo do último ano de colégio me parecia o único trabalho criativo com o qual eu não morreria de fome. mas aí Guimarães Rosa e aquele professor do terceiro ano (de quem fui aluna, muito me orgulho e faço alarde!) e eu voltei a rabiscar cadernos com histórias mágicas sobre crianças que encontravam fantasmas em espelhos no porão da fazenda da avó ou que iam parar num circo de 1930 quando se perdiam dos pais num passeio pelo parque.

assumir o vamos ver se e quem sabe.

Guimarães Rosa me fez acreditar que criatividade nada tinha a ver com pragmatismo.

a impossibilidade do relato

… it is impossible to convey the life-sensation of any given epoch of one’s existence, — that which makes its truth, its meaning – its subtle and penetrating essence. It is impossible. We live, as we dream — alone…

Heart of Darkness, Joseph Conrad

que também é a dificuldade de Riobaldo em Grande sertão: veredas; a mesma impossibilidade do relato, da precisão dos detalhes que realmente importam quando o que realmente importa sequer se parece assim no momento do acontecer:

Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas — de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.

ou porque não existe o passado senão como percepção de passado, ilusão de memória, e essa constatação da impossibilidade do relato nada mais é do que a constatação do óbvio.

Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que eu pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido — porque, enquanto coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo.

“coração bem batendo” seria a “life-sensation”, “its subtle and penetrating essence” na linguagem do Conrad (na fala do Marlow). o “razoável comum” seria esse retomar de fatos, aparar as bordas, limpas as partes sujas (como diria aquele vídeo do filtro solar que por uns anos circulava pela internet feito gripe no metrô de Buenos Aires no inverno) e remendar as partes quebradas para apresentar ao público: contar em jornal ou livro.

ou porque a insistência em compartilhar a experiência é uma das coisas que nos faz humanos. e a impossibilidade de compartilhar a experiência o que reforça essa humanidade, porque frustrados buscamos a arte, a literatura, a música e mais tantas quantas alternativas de compartilhar pelas bordas isso que não pode ser compartilhado por inteiro.

diário de um romance iniciado

uma ideia na madrugada, fruto de uma insônia eufórica.

título, epígrafes.

as primeiras linhas. seis parágrafos curtos. meia página.

súbito a sensação de familiaridade. uma citação num livro de Javier Marías. uma peça de Shakespeare?

conheço Shakespeare por osmose, com essa sina de estudante de letras que já conhece o destino de Riobaldo e Diadorim antes de começar a ler o romance de Guimarães Rosa. por leituras transversais, tangentes.

mas a familiaridade está lá.

uma pesquisa e concluir que sim, Shakespeare já contou aquela história, com mais sangue do que eu pretendia contar (como convém).

então a pausa na escrita para ler a peça, porque, enfim. voltas.

macbeth

reincidências.

o livro ausente

O livro ausente, formatado e arquitetado no pensamento, pode manter-se como reserva de si mesmo — uma realidade virtual inesgotável — e nem chegar à condição de objeto.

Daisy Turrer
(sobre O livro por vir, de Maurice Blanchot, no prólogo de O livro e a ausência de livro em Tutaméia, de Guimarães Rosa)