olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

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visita a San Isidro e nunca mais aquela ladeira

vou contar o que acontece quando um ser humano das terras baixas do mundo passa três noites num povoado a 2780 metros de altitude cuja inclinação natural é tipo uns 83 graus no sentido mais comprido das ruas e além disso esse ser humano está hospedado a uns dez metros do ponto mais alto do lugar tanto que a vista da varanda é quase a mesma da vista do mirador um pouco mais acima.

e mais: dito ser humano inventa de caminhar um monte todos os dias até o rio e até a feira e até qualquer coisa e subir e subir e subir e óbvio que existe qualquer tipo de distorção digna de um desenho do Escher porque eu tenho certeza que nesse lugar se sobe muito mais do que se desce.

se bem que meu joelho diria o contrário, porque ele sofre é com a descida, e eu já estava num nível joelho -10 nesse último dia inteiro que tínhamos em Iruya.

pois: estávamos todos hecho mierda, como se diz por aqui.

nos despedimos de Juan que ia um pouco mais ao sul antes que acabassem suas férias;

foto de despedida: Barbara, eu, Marie e Juan.

foto de despedida: Barbara, eu, Marie e Juan. e um cachorro.

e seguimos as três a San Isidro, um micro-povoado que fica a mais ou menos uns sete quilômetros de Iruya caminhando pelo leito do rio seco.

pelo rio San Isidro.

pelo rio San Isidro.

(mais ou menos seco.)

e um caminho lindo de quebrada, rodeado por montanhas altas e coloridas. muitas vezes precisamos cruzar o rio quando nos restava seguir o caminho dos carros e aí era buscar a combinação de pedras mais interessante pra não sair rolando rio abaixo.

Olivia salta pedras.

Olivia salta pedras.

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e: subida.

são talvez menos de dois quilômetros em descida até o encontro do rio Iruya com o rio San Isidro, e depois dali em diante só subida.

os últimos quinhentos metros ainda uma senhora subida, quando já se vê no topo do morro algumas casinhas. aos pés do povoado perguntamos a um rapaz por onde a gente subia e ele mui engraçadinho ali tem um elevador e né. uma escadaria inclinada com um monte de degraus irregulares. mas a gente fica reclamando e ali atrás vinham uns três homens trazendo material de construção e uma privada, tudo no ombro.

últimos metros. muertas.

últimos metros. muertas.

no final das contas fizemos todo o caminho em duas horas.

parecia que tínhamos caminhado um dia inteiro.

ali em cima não chega carro, por motivos óbvios, e as ruas são como corredores (na verdade um caminho pela esquerda subia e outro à direita fazia uma curva; em frente tinha mais morro). um cachorro nos observava de uma porta.

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uma senhora passou e perguntamos pela doña Teresa e suas mundialmente famosas empanadas de queijo. passamos pelo que era a igreja e a escola e adiante uma fileira de comedores e hospedagens. a última era a de Teresa.

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rua principal de San Isidro.

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aterrizamos numa das mesas e pedimos uma dúzia de empanadas de queijo e meia dúzia de carne. porque se é pra fazer errado, faz errado direito.

olá, empanadas de queijo.

olá, empanadas de queijo.

informo que: melhores empanadas de queijo do universo.

ops.

ops.

depois caminhamos mais um tanto, subimos um pouco mais de morro e tiramos fotos até que o frio e o vento nos expulsaram daqueles picos muito altos e achamos melhor buscar um lugar pelo rio pra descansar um pouco. e nem isso: o céu tinha fechado, ameaçava chover e vinha por todo o caminho um vento gelado.

 

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descendo as escadas de volta ao leito do rio.

acabamos parando quando quase o encontro dos rios. uma pausa de poucos minutos e seguir de volta.

depois de um monte de descida, era pra terminar o dia com mais um monte de subida. miles de subida. chegar à igreja de Iruya e olhar pra cima e lá no fim da rua a hospedagem de doña Asunta, distante. nem conseguimos comprar comidas pra noite porque um monte de lugares fechados. subimos e subimos e subimos e capoft. e depois no começo da noite baixar outra vez pra comprar frutas e bolachinhas pro café da manhã e subir de novo, e subir pela última vez, e não subir nunca mais.

iruya é uma festa, parte impossível

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em que eu me encontro numa festa de pueblo com um grupo de cumbia eletrônica e meia dúzia de gato pingado dançando numa quadra poliesportiva

porque veja bem, à tarde acabaram os festejos para a virgem. isso eu não sei bem o que era; sei que: era aniversário do Juan que quis jantar no hotel e depois ainda quis pagar pra gente os 50 pesos cada um da entrada da baladinha que começava às 22h na quadra poliesportiva da escola. era, suponho, motivo pra fazer festa.

mas vai vendo que teve até carimbo no punho e polícia fazendo revista na entrada.

aí que tinha um grupinho de meia dúzia de pré-adolescentes perto do palco e mais alguns espalhados nas bordas. Marie comprou uma cerveja e Juan uma coca-cola e se meteram no meio da quadra pra dançar.

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o grupo uns três cantando e uns seis tocando, meio invisíveis, enquanto os três primeiros dançavam em sincronia e em looping infinito e alternavam vozes graves e um falsete meio sinistro que aparentemente faz parte da coisa.

fiesta patronal de la virgen del rosario (1)

a verdade é que mui divertido que Marie e Juan e Barbara dançando indiferentes ao fato de serem os únicos naquela quadrinha sem vergonha enquanto a banda animada tocava como se para uma multidão de 500 pessoas.

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mas depois a mistura de cumbia com música eletrônica e eu me sentei porque não tem mais joelho e estava quase dormindo.

quando fui embora a quadra estava até que metade ocupada e a turma se divertindo, e ainda quando saímos um pouco vinha uma galera subindo a ladeira na maior animação. quase uma da manhã e Iruya estava praticamente acordando da siesta pra começar a festa.

iruya é uma festa, parte diurna

em que eu me desperto às oito e minha companheira de quarto nem voltou

manhã de silêncio e estar um pouco sozinha.

acordei com uma dor monstro no joelho direito e dores musculares por todo o corpo.

comi a maçã que tinha sobrado do dia anterior e fui caminhar um pouco, subi no mirante, escrevi, voltei pro quarto, li um pouco. desci mais uma vez à outra praça, comprei danoninho e oreo e fiz um desayuno completo. o rapaz do armazém ainda me deu uma colherzinha de sorvete pra comer o danoninho mas eu acabei usando as bolachas de colher porque colher comestível é sempre mais interessante.

comecei a achar que Juan e Barbara tinham se metido n’alguma quebrada pela noite e vai saber quando se tem amigos que se metem a escalar ilhas no meio do rio quase seco.

toquei pra hospedagem em que estava Juan e perguntei por ele. numa janela apareceu Barbara, que não quis subir o morro às quatro da manhã e ficou com uma cama por lá mesmo, que era mais perto e mais pra baixo.

enquanto ela enfim subia e Juan se preparava pra acordar, e o intendente fazia outro discurso na praça e o bispo anunciava a missa das onze, fui ver se chegava a francesa num dos ônibus que vinha de Humahuaca, porque combinamos de nos encontrar mas zero internet. muito provável (como depois confirmamos) que ela nem sabia o nome do lugar em que estávamos.

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Iruya em clima de festa.

do segundo ônibus veio Marie e compartilhamos um pouco de folha de coca pra enfrentar a subida impossível àquela hora da manhã.

antes do almoço estava o grupo reunido pra comprar coisas de comer e seguir ao rio, dessa vez sem escalar nada.

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mais friozinho e mais vento. depois do almoço e de estar à toa me meti adiante numa quebradinha mui linda pra confirmar que qualquer lado que se olhe existe uma paisagem incrível. deu pra meditar e fazer siesta, mas depois de um tempo vou cansando de brigar com ponta de pedra pra conseguir sentar confortavelmente.

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voltei com Marie e a ideia era seguir direto à hospedagem porque meu joelho doía demais, mas paramos na praça depois de comprar água saborizada de pomelo e ficamos vendo os meninos e meninas da escola dançando folclore.

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compramos números da rifa mas não ganhamos o chapéu nem a faixa e frustradas subimos a ladeira pra enfrentar a última parte da festa de Iruya.

iruya é uma festa, parte 2

a procissão nos agarrou no final do jantar em um pé de ladeira; pagamos e subimos pra acompanhar a gente que tocava umas cornetas mui compridas e esquisitas, junto ainda de uns turistas pata blanca que falavam alemão, a senhora paqueta do chapéu com pompons e outros que seguiam e cantavam junto. duas curvas e estávamos descendo a rua principal em direção à igreja, onde já um monte de gente reunida esperando pra começar a festa.

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teve os cachis fazendo baile e o bispo passando de imagem em imagem (um montão de imagens enfileiradas empoleiradas nos ombros das pessoas) e uma menina de cinco ou seis anos que dos ombros do pai relatava tudo o que estava acontecendo pra quem não conseguia ver. fico impressionada com as abuelas que apesar da pinta de sessenta anos aguentavam as crianças nos ombros quase todo tempo como se um peso menor.

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terminada a celebração e os bailes dos cachis a multidão se dispersou um pouco e foi se acomodando em volta do palco pra começar a serenata; serenata essa que só começou de verdade depois de benção do bisco, discurso do intendente (prefeito), vizinho tocando ave maria no violino, mais discurso e umas apresentações de dança folclórica das crianças da escola que não dava pra ver muito bem porque foi embaixo do palco e eu sou baixinha.

o grupo principal tocou bastante música folclórica e o tipo que apresentava a serenata se metia entre cada música pra fazer qualquer comentário infame. Juan comprou água saborizada de pera e balinhas. eu não me aguentava muito em pé depois de tanto caminhar e principalmente tanto descer ladeira.

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ao grupo principal seguiram-se ainda mais apresentações, e algumas também de dança e tudo bem lindo de se ver e estar e sentir que se está ali naquele momento e que estranho uma festa a uma virgem nos limites do norte argentino a quase três mil metros de altitude; e que estranho escutar essa ou aquela música pela segunda ou terceira vez como se já um pouco parte de tudo isso; que estranho sentir-se tão em casa no mais estranho dos lugares com essas duas pessoas que conheci a menos de uma semana e que em alguns dias já não vou mais ver senão as vagas promessas de fato se concretizem.

passada uma da manhã achei melhor tomar o rumo da doña Asunta ou não ia conseguir subir aquela ladeira nunca mais. deixei Juan e Barbara com o grupo principal que voltava com uma música sobre a quebrada humahuaqueña.

iruya é uma festa

ou vira uma festa; porque era fim de semana do dia da padroeira virgen del Rosário, e vem gente de todos os povoados vizinhos, e montam a feira no leito do rio, e turistas de toda parte etc. missas e procissões e apresentação de folclore.

festa!

festa!

chegamos e tentamos descobrir como se conectar à internet pra avisar ao mundo que estávamos vivas e essa coisa toda que a gente cisma em fazer hoje em dia como se alguém fosse dar por nossa falta em alguns dias sem comunicação. mas zero internet por todos os lados e por sorte o sinal normal de telefone da Barbara funcionava porque o meu nem isso. conseguiu mandar mensagem pro Juan e nos encontramos na igreja.

juntos almoçamos e fomos visitar a tal da feira metida no rio, que segundo uma senhora de San Isidro (que Juan conheceu no dia anterior) eram bolivianos mas segundo doña Asunta era gente de todo lado e povoados vizinhos que vinham pra festa e acampavam por lá. metade da feira era comida muito frita muito gordurosa de procedência duvidosa e a outra metade roupas e porcarias de todo tipo. a turma arma a barraca com metade pra servir de exposição de mercadoria e a outra metade pra servir de quarto, uma coisa ao lado da outra.

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vista da entrada do povoado desde o mirante com a feita (azul) no leito do rio.

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tocamos pela quebrada no sentido do rio e fizemos uma siesta numa sombra de uma quebradinha que deve ser a saída de algum arroyo seco. tempo matado seguimos adiante, nos metemos a escalar uma das ilhas do rio e fizemos de umas pedras um tobogã mei perigoso. eu por exemplo me lanhei toda.

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Juan e Barbara descendo pelas pedras.

Juan e Barbara descendo pelas pedras.

ainda adiante rio abaixo pelas pedras se alcança um encontro do rio San Isidro (que vem de San Isidro) e o rio Iruya (em que estávamos). à esquerda o San Isidro é um pouco mais caudaloso mas nem tanto; o suficiente pra gente poder chegar, tirar as botas e matar mais um tanto de tempo com os pés na água. à direita o rio segue por outra quebrada num percurso que só encontra outro povoado com pelo menos um dia de caminhada.

Juan se aventurando pelo caudaloso rio Iruya.

Juan se aventurando pelo caudaloso rio Iruya.

caminho ao rio.

caminho ao encontro dos rios.

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não preciso dizer que eu quase rolei rio abaixo pra sair nessa foto depois de programar a câmera (Juan me agarrou o braço e molhei a barra da calça).

não preciso dizer que eu quase rolei rio abaixo pra sair nessa foto depois de programar a câmera (Juan está segurando meu braço e molhei a barra da calça).

a vista são essas montanhas enormes que se erguem nas laterais, de cores variadas e variantes, cheias de pontas. que incríveis são essas montanhas cheias de pontas.

voltamos quando o sol se escondeu atrás de uma delas; ainda tinha pelo menos uma hora pra que fosse embora de verdade e parasse de iluminar o dia. voltamos pelo caminho de cima, passando por casinhas de adobe e senhoras de xale e chapéu levando o burro de carga.

um burro e um cachorro. aparentemente.

um burro e um cachorro. aparentemente.

em algumas horas começava a festa que era procissão e serenata à virgem.