olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

tag: leituras

o humano segundo vampyroteuthis infernalis

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Should Vampyroteuthis analyse objects informed by man, he will find that sex had a very small role in the elaboration of the stored information. And should he analyse human behaviour, he will find that man’s sexual behaviour hardly changes over the course of human history. How can such an anomaly be explained, this predominance of digestion over sex? It can be explained by the fact that the human male is slightly larger than the human female. The male repressed the female during a considerable part of human history. This repression caused in the male a constant dread of a female revolt and with this he repressed the female dimension of the world. Thus he repressed the sexual dimension of the world and concentrated his reflection on the digestive apparatus. This lends human history its pathological character: human history is the history of a specifically human neurosis.

Vilém Flusser, Vampyroteuthis infernalis

David Markson e o sentimento do literário

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41-Mgcun78L._SX323_BO1,204,203,200_marksonli mais um livro do David Markson. primeiro Reader’s Block e agora This is not a Novel.

a mesma estrutura (falta de estrutura?); as mesmas anedotas e informações sobre óbito de pessoas ilustres. mas esse último que li é mais como exercício explícito de escrita. ou um exercício negativo para não escrever um romance;

“yet seducing the reader into turning pages nonetheless.”

o exercício do exercício de escrita. a ficção que não é ficção. e o leitor (eu) que continua virando as páginas uma atrás da outra. talvez não fosse mesmo um romance. mas afinal quando tempo e energia já não perdemos tentando definir o que é um romance?

se você diz a uma pessoa que não é de humanas que gosta de ler literatura, ela pergunta que tipo de literatura? porque pra ela tudo que é livro é literatura. literatura especializada sobre eletrônica ou química dos alimentos. aí você diz ficção e corre o risco de escutar algo como ah, tipo Paulo Coelho?

quer dizer, né, dentro da lógica, Paulo Coelho também é literatura. não é bem o meu tipo de literatura, mas sejamos abrangentes.

o problema é que tem esses momentos em que literatura, no sentido de, cof cof, literário, não é só ficção. ou;

como faz pra explicar essas coisas pra essa gente de negócios?; pra essa gente que estudou engenharia, ciências contábeis, medicina? às vezes você lê qualquer livro sobre teoria literária e vão ali uns capítulos para explicar o que é o romance, o que é o conto, o que é a literatura. dá vontade de dizer que tudo bem, eu sei o que você quer dizer.

mas eu sou leitora.

como você explica o sentimento do literário pra quem não é leitor? pra quem não tem paciência pra ler muito mais do que um best-seller a cada dois meses, diligentemente, como quem cumpre uma obrigação escolar? a essa gente bem intencionada que nossa, eu nunca tenho tempo pra ler e quando têm de qualquer forma preferem ver um filme ou passear pelo facebook. ou devoram um manual de alimentação macrobiótica e estou lendo um livro muito interessante você que gosta de ler vai se interessar.

como você explica que This is Not a Novel não é bem um romance e não tem história, não tem personagens, não acontece nada;

e ainda assim é todo literatura.

o dilema dos leitores ansiosos

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porque há tanta coisa pra ler que encarar um livro de mais de quatrocentas páginas parece às vezes um exagero, um privar-se de outros livros, talvez mais interessantes, quem sabe? mas passei um mês trabalhando pra montar curso de redação e só agora dois meses depois terminei de ler um livro que era pra ter me tomado alguns dias então, né, que diferença faz?

índiceo leitor de ebook indica o tempo que o livro tomaria de leitura: seis horas. não é tanto assim.

e confesso que nem tinha tanta vontade de ler esse tal de Salman Rushdie tão cedo por motivos de: cara de azedo homem branco etc. mas li sobre esse “Two Years, Eight Months and Twenty-Eight Nights” e fiquei curiosa, e comecei a ler, e decidi que gostei do que li. decidi também principalmente que não tenho nenhuma obrigação de respeitar a minha própria fila de leituras se o livro que eu quero ler agora surge de repente atrás de um tanto de fumaça sem fogo e puf.

confesso também que o livro me ganhou um pouco na epígrafe do Ítalo Calvino (traduzida obviamente pro inglês porque o livro é em inglês):

Instead of making myself write the book I ought to write, the novel that was expected of me, I conjured up the book I myself would have liked to read, the sort by an unknown writer, from another age and another country, discovered in an attic. — Italo Calvino

também obviamente o leitor ansioso agarra assim uma empreitada um pouco (nem tanto) mais ambiciosa depois de uma fase excepcionalmente ansiosa de leituras curtas e não por isso deixa de contar os minutos — mesmo se o livro for ótimo — pra próxima leitura dessa pilha imensa e crescente, sempre crescente.

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leituras da semana

esta semana criei no blog uma página de leituras recomendadas. usando o IFTTT em integração com o pocket e o wordpress, vou publicar ali links pra artigos interessantes. quem assina o feed completo do site já deve ter recebido as atualizações que fiz na página com alguns artigos que tinha marcado nos favoritos do pocket. vale a pena dar uma espiada na página, principalmente pelos primeiros links (na página 2 e 3).

à parte disso, vou tentar fazer publicações esporádicas de leituras recomendadas, com uma seleção desses links compartilhados. quem assina a newsletter já tem alguma ideia do que estou dizendo; desde que comprei o kobo tenho lido mais posts e artigos longos, porque posso salvar o link na minha conta do pocket e sincronizar com o kobo. troço mágico. aí que estou redescobrindo blogs e revistas online e tem tanta coisa boa espalhada pela web não custa dar minha contribuição e espalhar um pouco o amor.

enfim.

algumas leituras pra ocupar o horário de almoço, o final do dia, o congestionamento ou uma manhã de sábado:

não, os dois links não estão diretamente relacionados, mas por isso mesmo é interessante comparar as duas perspectivas a respeito da procrastinação.

ainda vou escrever, provavelmente na newsletter, sobre essa esquisita necessidade moderna de se ter presença online pra ser alguém, principalmente quando a gente resolve se meter com literatura. mas o Joca Reiners Terron já escreveu muito do que eu poderia dizer:

e mais dois artigos de escritores sobre escrever: