olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

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o talvez definitivo

Os antigos escrevem — diz Colombo no Diálogo — que os amantes infelizes jogavam-se no mar do penhasco de Leucádia, e se conseguissem sobreviver, ficavam livres da paixão amorosa pela graça de Apolo. Pois então “cada navegação é quase um salto do penhasco Leucade”. Os navegadores estão sempre em perigo de morte, mas justamente por isso valorizam a vida mais que os outros. Distantes da terra, eles não têm maior desejo do que ver dela um “cantinho”. Disso fazem fé aqueles que participam da presente expedição: incertos da viagem, acordam e adormecem pensando na terra; “e se uma só vez nos será revelado de longe o cume de um monte ou de uma floresta, ou coisa parecida, nossa felicidade será imensa.”

– Piero Boitani, A sombra de Ulisses

e pensar no final do conto “Perda e recuperação do cabelo“, do Cortázar. pensar nesse grande talvez que nos empurra adiante numa vida que nunca poderia ter sentido nenhum senão aquele que damos a ela. por acreditar em alguma coisa ou procurar o que com certa frequência nos parece impossível alcançar*; para lutar contra o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis; por procurar um fio de cabelo com um nó no meio; por acreditar no novo mundo ou num mundo novo.

é o mesmo talvez que faz a literatura:

“Os homens escrevem ficções porque estão encarnados, porque são imperfeitos. Um deus não escreve romances.” (Enrique Vila-Matas)

nesse livro A sombra de Ulisses, o autor conta como Leopardi comenta a glória da empreitada de Colombo apontando que “o conhecimento reduz, faz com que [o mundo] ‘diminua’ na consciência do homem”, “achata a Terra tornando-a uniforme, transformando-a em breve carta“, “arranca o ‘caro imaginar’ do menino e da humanidade criança, mata, com o ‘real’, o estupendo poder primigênio da imaginação”, “faz desaparecer de repente, fixando-os em um ponto geográfico, os sonhos do outro mundo, da nova terra além do ocaso do sol”. pois está posta a contradição desse talvez. é ele, afinal que impulsiona a ciência, tida por Leopardi como “inimiga das grandes ideias, apesar de ter desmedidamente ampliado as opiniões naturais”, pois “uma pequeníssima ideia confusa é sempre maior do que uma grandíssima completamente clara”.

o talvez é sempre maior do que o sim e o não. o possível é sempre infinito, enquanto o fato está limitado em suas dimensões medíveis. mas no devir da existência a grandeza do talvez está condenada a se transformar a todo momento em simnão, em fatos, descobertas; mesmo na forma de ficção ele perde também um pouco da sua imensidão, dadas as devidas proporções e acreditando no que Aristóteles apontou sobre a diferença entre poesia e história: a poesia é “o que poderia acontecer”.

um talvez que cria a esperança mas também faz nascer a espera. de qualquer forma, não escapamos dele.

* na terça-feira saindo do metrô fui abordada por uma moça mui simpática que precisava dizer, ainda que aquilo soasse um pouco estranho que eu pensava que estava buscando alguma coisa impossível, mas não, era isso mesmo, não era uma busca impossível. eu sorri, ela pareceu um pouco constrangida, deu um tchau meio sem jeito e subiu os degraus da escala rolante.

contra a monomania

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Writing a book consists largely of avoiding distractions. (…) But utter devotion to the principle that distraction is Satan and writing is paramount can be just as poisonous as an excess of diversion. I tried to make writing my only god, and it sickened my work, for a while. The condition endemic to my generation, attention deficit disorder, gave way to its insidious Victorian foil: monomania.

via Upside of Distraction – NYTimes.com.

também porque já faz um tempo comecei a desconfiar que escrever só faz sentido quando a gente para de escrever e vai dar uma volta no quarteirão.

o vocábulo é minha âncora

A vida é ruim, eu sei. Mas ainda não vou cortar a teia da própria vida feito ela minha mãe: o vocábulo é minha âncora; aqui desta mesa-mirante observo o anoitecer dos outros para esquecer-me do próprio crepúsculo.

primeiras linhas de Minha mãe se matou sem dizer adeus, do Evandro Affonso Ferreira.

mais:

Estou triste; não porque vou deixar a vida; mas porque nunca estive nela. Tempo todo caminhando temeroso pelo acostamento. Três senhoras decrépitas ali na mesa mais adiante conversam em hebraico; não sabem que sou o verdadeiro estrangeiro neste mundo. Minha mãe desata de súbito pião da fieira fazendo-o girar na calçada; agora o apoia ainda girando sobre a palma da mão. Tenho cinco seis anos se tanto. Fico perplexo-deslumbrado com tão encantador malabarismo. Mãe-moleque. Veio menina por descuido da natureza; viveu menino tempo todo. Encontrei analogia definitiva: minha vida foi pião sem fieira jogado num canto qualquer da gaveta; brinquedo inútil. O mundo continuará girando sem mim; sem minha mãe; sem Hipócrates; sem Demócrito.

poderia continuar. dá pra abrir em qualquer página e encontrar pedaço pra ser citado. o livro todo é bom demais. pra ler em voz alta, recitando devagar. eu, que tantas vezes ouvi o próprio Evandro lendo pra nós uns pedaços quando o encontrava em sua mesa-mirante lá no shopping Higienópolis, não posso deixar de ouvi-lo quando leio, e a leitura segue adiante deslizando.

esse é o primeiro de outros que virão. depois de um tempo sem lançar livro nenhum, o Evandro volta melhor e mais terrível. recomendo muito.