olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

tag: ler

dia de semana

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um dia como qualquer outro; de olhar na agenda e organizar as obrigações. olhar a lista com as pendências e decidir em que dia vai cada coisa — porque essa sensação de que há muito a se fazer, e o tempo. saber que tudo isso e organizar e fazer e saber mas a vontade é buscar um pedaço de sol e ler mais um pouco esse livro que já vai pela metade. botar o andu na panela com uns temperos e deixar cozinhar. perceber que não: não há nada urgente e a semana está nos trilhos e já é quase meio-dia. perceber que o dia está livre adiante e então sentar num pedaço de sol e avançar pela outra metade do livro começado enquanto o andu continua dançando dentro d’água na panela até a hora de almoçar.

desligue o celular e vá ler um livro

como odiamos a tecnologia.

a tecnologia está matando nosso relacionamento com outros seres humanos.
a tecnologia está destruindo nossa capacidade de concentração.
a tecnologia está acabando com nossa produtividade.

sério mesmo?

ainda hoje estão discutindo a morte do livro impresso. me faz pensar que as pessoas na verdade não gostam de ler, elas gostam mesmo é de papel. gostam de volumes nas estantes, pra impressionar as visitas;

(aquelas mesmas visitas que olham suas estantes e maravilhadas perguntam nossa, você leu TUDO isso?)

depois que comecei a viajar, fui aos poucos aposentando os livros impressos. primeiro, uma questão prática: livro pesa nas costas e eu tinha outras prioridades em termos de sobrevivência. ainda assim, não queria ficar sem literatura. solução: livros digitais.

segundo que livros digitais são (quase sempre) mais baratos. sem contar livros em domínio público, gratuitos. também porque edições digitais são mais fáceis de se encontrar, quando existem. quer dizer, se existem, você consegue encontrá-las. houve um tempo em que eu ficava meses, anos, atrás de um mesmo livro, esgotado ou não, importado ou não.

aí que hoje em dia as vozes ressoam em eco: desligue o celular e vá ler um livro.

e fico pensando: mas e se seu celular for o seu livro? e se ele for mais de dois mil livros em menos de quatro gigabytes de informação? se ele for seu arquivo de artigos para leitura? por que cazzo você precisa desligar o seu celular, precisamente onde estão guardadas todas as possibilidades de leitura, para… ler?

claro: celular, facebook, twitter, distrações. como se elas todas não continuassem ali ao seu lado enquanto você equilibra perigosamente uma edição em papel de Ulysses no seu colo. o pobre do celular não tem culpa nenhuma. não fosse o celular, seria a televisão. o vizinho. o amigo no telefone chamando para uma cerveja.

por que odiamos tanto nossos celulares?

os leitores digitais, com tela e-ink, são terrivelmente agradáveis aos olhos e práticos, mas às vezes me pergunto se não existem principalmente como desculpa: estou com um aparelho digital nas mãos mas veja, estou lendo, juro!

e olha: eu gosto de livro impresso pela facilidade de folhear, fuçar sem compromisso; são ótimos para uma leitura mais errática. são perfeitos quando eu não quero de fato ler o livro. se o tema for saúde, posso dizer que os piores vilões da minha tendinite são os livros pesados e os exercícios do duolingo (porque escrever no celular é de matar).

para ler, efetivamente, de cabo a rabo etc, a gente só precisa um suporte para as letras, seja ele digital ou físico.

largue esse livro e vá brincar na areia!

largue esse livro e vá brincar na areia!

ou não?

que existam críticas ao uso que fazemos dos nossos smartphones eu não duvido. mas me parece que estamos nos desviando do foco do problema por mera picuinha. a mesma picuinha que começou há uns quinze anos, mais ou menos, quando se gritava que a internet estava nos deixando mais burros, e que as crianças deveriam se ocupar de fazer buscas nas enciclopédias em vez de perder tempo no google.

talvez porque ultimamente estejamos cada vez mais viciados em propagar ladainhas para impressionar.

é dizer que não devemos cozinhar com fogo, porque fogo mata.

qual vai ser o próximo passo? desligue o seu livro e vá capinar um lote?

das leituras infinitas

sabe o que é isso de sentar-se para ler, um pouco sem ânimo porque o livro parece longo e talvez um pouco aborrecido, e passar da página 20 à 90 e à 140 sem nem perceber passar o tempo, sem perceber o desconforto das pernas ou das costas; mergulhar numa leitura e parar só quando ela suscita a possibilidade de ainda outra leitura, anotar nomes e títulos para não esquecer e seguir adiante; terminar um livro e começar outro, e desse outro vislumbrar ainda outras leituras possíveis, outras bifurcações que são como uma página na internet com muitos links e a gente vai abrindo todos eles em abas paralelas para ler depois; acumular abas e abas livros e livros possibilidades infinitas de leitura para até o fim da vida; e a súbita certeza (essa certeza que já se intuía mas que se confundia com uma angústia e uma sensação terrível de pequenez, mas que então reforçada parece de repente um alento, um conforto quentinho numa tarde de inverno) enfim;

a súbita certeza de nunca se estará sozinho, jamais.