olivia maia - escritora desterrada.

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como transformar estresse e ansiedade em produtividade

how to reframe stress and anxiety into productivity

era o título de um artigo que me apareceu (como sempre me aparecem as coisas mais estranhas) na lista de recomendações do pocket. outro desses artigos absurdos que às vezes me gritam com esses títulos longos e imperativos. quase sempre eu sigo adiante mas dessa vez eu parei e precisei pensar duas vezes no absurdo da formulação. pensei naquele artigo da Eliane Brum e nalgum outro que devo ter lido sobre a idolatria da produtividade; pensei na minha própria ansiedade e o tanto que ela está (sempre esteve) ligada a uma angústia de produzir mais e melhor e sempre (pra quê; pra quem?).

pensei então que esse título é o cúmulo da loucura dos tempos modernos: transformar em produtividade os efeitos colaterais negativos da necessidade de ser produtivo o tempo todo; a necessidade de transformar tudo em produção.

se nossa sociedade precisa de um novo ícone revolucionário ele tem que ser alguém parecido com Bartleby, o escrivão, que preferia não fazer.

e não produzia nada.

tantos outros personagens para escolher

enquanto não publico a newsletter já obviamente atrasada, deixo com vocês (e principalmente aos amigos e amigas escritores) um artigo longo e interessante pra pensar um pouco em nosso terrível ofício (enquanto vou lendo On Writing, do Stephen King, que tenta me empurrar num estado de ânimos contrários ao da leitura deste artigo).

Between advertising and the novel, the lines of influence are blurry because the new marketplace was blending the forms together, forcing them to change their practices to survive. Every advertiser was a novelist, every novelist, at least for a sentence, an advertiser. Or, as a critic for Life in 1913 describes the work of one first sentence, a street “barker.” (…)

As Marchand writes, America was now for the first time a majority urban population. For the first time in human history, the majority of people the average person encountered in a given day were strangers. Others had no inner lives; they were just the external characteristics visible during a first impression. For advertisers, this meant cajoling people about every detail of their appearance, littering advertisements with scrutinizing eyeballs. And there’s something of this too for the novel-reading public. Adrift in what the era’s writers continually described as a “flood” of fiction, there was no time to create a character ab ovo; he or she must come fully formed, must offer quick and memorable impressions. There are so many other characters to choose from.

» In Search of the Novel First Sentence | Electric Literature

o problema do pessimismo

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In raising problems without solutions, in posing questions without answers, in retreating to the hermetic, cavernous abode of complaint, pessimism is guilty of that most inexcusable of Occidental crimes – the crime of not pretending its for real. Pessimism fails to live up to the most basic tenet of philosophy – the ‘as if’. Think as if it will be helpful, act as if it will make a difference, speak as if there is something to say, live as if you are not, in fact, being lived by some murmuring non-entity both shadowy and muddied.

Eugene Thacker, Cosmic Pessimism (via Spurious)

deveríamos estar mais preocupados com o problema da riqueza

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Asking questions about the rich has been portrayed since the dawn of wealth as envy; asking questions about the poor is considered practical and sympathetic, moral and problem-solving. But no problem can be solved while political institutions won’t recognise that poverty has a cause.

(via.)

ou: resolver o problema da pobreza como quem cobre buracos numa estrada com asfalto de má qualidade por onde passam diariamente centenas de caminhões pesados jamais vai resolver coisa alguma.

a pobreza não é uma doença a ser erradicada. assim como a violência nas cidades grandes não é um vírus que precisa ser destruído; a pobreza tem uma causa, e se não examinarmos a causa do problema, não será um bilionário bem-intencionado que solucionará os infortúnios de quem nasceu no país, cidade, bairro e família errados.

These basic assumptions – poverty is the problem, growth is the answer, climate change can be tackled separately to consumption, and corporate behaviour is neither here nor there – extend far beyond the UN, into political cultures everywhere.

se você lê inglês, leia o artigo. me parece um bom ponto de partida em direção às perguntas certas.

desligue o celular e vá ler um livro

como odiamos a tecnologia.

a tecnologia está matando nosso relacionamento com outros seres humanos.
a tecnologia está destruindo nossa capacidade de concentração.
a tecnologia está acabando com nossa produtividade.

sério mesmo?

ainda hoje estão discutindo a morte do livro impresso. me faz pensar que as pessoas na verdade não gostam de ler, elas gostam mesmo é de papel. gostam de volumes nas estantes, pra impressionar as visitas;

(aquelas mesmas visitas que olham suas estantes e maravilhadas perguntam nossa, você leu TUDO isso?)

depois que comecei a viajar, fui aos poucos aposentando os livros impressos. primeiro, uma questão prática: livro pesa nas costas e eu tinha outras prioridades em termos de sobrevivência. ainda assim, não queria ficar sem literatura. solução: livros digitais.

segundo que livros digitais são (quase sempre) mais baratos. sem contar livros em domínio público, gratuitos. também porque edições digitais são mais fáceis de se encontrar, quando existem. quer dizer, se existem, você consegue encontrá-las. houve um tempo em que eu ficava meses, anos, atrás de um mesmo livro, esgotado ou não, importado ou não.

aí que hoje em dia as vozes ressoam em eco: desligue o celular e vá ler um livro.

e fico pensando: mas e se seu celular for o seu livro? e se ele for mais de dois mil livros em menos de quatro gigabytes de informação? se ele for seu arquivo de artigos para leitura? por que cazzo você precisa desligar o seu celular, precisamente onde estão guardadas todas as possibilidades de leitura, para… ler?

claro: celular, facebook, twitter, distrações. como se elas todas não continuassem ali ao seu lado enquanto você equilibra perigosamente uma edição em papel de Ulysses no seu colo. o pobre do celular não tem culpa nenhuma. não fosse o celular, seria a televisão. o vizinho. o amigo no telefone chamando para uma cerveja.

por que odiamos tanto nossos celulares?

os leitores digitais, com tela e-ink, são terrivelmente agradáveis aos olhos e práticos, mas às vezes me pergunto se não existem principalmente como desculpa: estou com um aparelho digital nas mãos mas veja, estou lendo, juro!

e olha: eu gosto de livro impresso pela facilidade de folhear, fuçar sem compromisso; são ótimos para uma leitura mais errática. são perfeitos quando eu não quero de fato ler o livro. se o tema for saúde, posso dizer que os piores vilões da minha tendinite são os livros pesados e os exercícios do duolingo (porque escrever no celular é de matar).

para ler, efetivamente, de cabo a rabo etc, a gente só precisa um suporte para as letras, seja ele digital ou físico.

largue esse livro e vá brincar na areia!

largue esse livro e vá brincar na areia!

ou não?

que existam críticas ao uso que fazemos dos nossos smartphones eu não duvido. mas me parece que estamos nos desviando do foco do problema por mera picuinha. a mesma picuinha que começou há uns quinze anos, mais ou menos, quando se gritava que a internet estava nos deixando mais burros, e que as crianças deveriam se ocupar de fazer buscas nas enciclopédias em vez de perder tempo no google.

talvez porque ultimamente estejamos cada vez mais viciados em propagar ladainhas para impressionar.

é dizer que não devemos cozinhar com fogo, porque fogo mata.

qual vai ser o próximo passo? desligue o seu livro e vá capinar um lote?