olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

tag: literatura brasileira

mais SÃO PAULO NOIR

teve o lançamento do livro São Paulo noir na Livraria Cultura e rever amigos em São Paulo e já voltei, ufa.

Mario Prata, Ilana Casoy, Fernando Bonassi, Tony Bellotto, Ferréz, eu, Vanessa Bárbara e Maria Carvalhosa.

se você perdeu o lançamento dá pra comprar o livro online. pra facilitar, deixo o link da página do livro no buscapé, com a comparação de preços de algumas livrarias. modéstia à parte, o livro ficou bem massa, e gostei do resultado do meu conto. um bom presente de natal praqueles tios e tias que só falam em Simenon e Rex Stout.

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são paulo noir: mancha de café

está nas livrarias o livro São Paulo noir, da Editora Casa da Palavra. nas palavras da editora:

Pauliceia é tema do novo livro da série Noir. Uma seleção de histórias surpreendentes onde a cinzenta São Paulo, mais do que um simples cenário, torna-se personagem. Contos policiais que retomam a atmosfera noir imortalizada por Hollywood em filmes como “O falcão maltês”, escritos por nomes como Marcelo Rubens Paiva, Mario Prata, Jô Soares, Drauzio Varella, Ferréz, Vanessa Barbara, entre outros.

e “entre outros” está meu conto Mancha de café, abrindo a coletânea em pleno bairro da Sé:

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já é o segundo livro da série Noir que se passa em uma cidade brasileira; o primeiro foi o Rio noir.

o conto Mancha de café comecei a escrever antes ainda do convite para participar do livro, mas empaquei pelo caminho por não saber o que fazer com aquela ideia. era um conto, uma novela? um rabisco, talvez? tinha uma protagonista e sabia dela o que ela me contava (não muito mais). nem o nome dela ela sabia direito (ou se sabia, não me contou). enfim veio o convite e agarrei o bairro da Sé. precisava de uma área com muito ruído e advogados. se a ideia inicial não tinha cidade definida no texto era mera desculpa: todo tempo eu estava imaginando o centro de São Paulo enquanto escrevi aquelas primeiras linhas.

e nada como um prazo pra destravar escrita bloqueada. o conto foi completado aos poucos, em trânsito, entre o Rio Grande do Norte e São Paulo, onde enfim revisitei o bairro escolhido só pra me certificar de algumas curvas e becos. missão cumprida.

e pra quem mora em São Paulo, vai ter lançamento!

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a literatura policial brasileira está aqui

recentemente o Raphael Montes, autor do livro “Suicidas”, publicou no blog da editora Companhia das Letras um artigo em que pergunta onde está a literatura policial brasileira ou, mais especificamente, onde estão os autores brasileiros de literatura policial.

o resultado já era esperado: dezenas de comentários de leitores escritores dizendo que ei, estou aqui, escrevi o livro tal, publiquei o livro tal. claro. não vê nossos autores policiais quem não quer.

porque Raphael Montes é uma exceção. ainda não li o livro “Suicidas”, ao menos não a versão final (li foi algo que creio ter sido uma versão ultra mega alpha, de quando o Raphael tinha uns 17 anos, e o livro ainda tinha muito caminho pra trilhar; dei uma espiada no livro publicado e posso afirmar que esse caminho foi bem trilhado e o resultado final é positivo), mas de qualquer forma não está em jogo a qualidade da literatura do Raphael. claro que ele é bom: foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, tem um livro pra sair pela Companhia das Letras e o editor elogiando na caixa de comentários. mas autor bom existe aos montes. o que nem sempre acontece é autor bom ser publicado, lido, comentado, vendido, enfim: não só na literatura policial brasileira, mas em toda literatura brasileira, são poucos os alcançam esse “ideal de sucesso”.

acho que é justo partir desse ponto: Raphael Montes é uma exceção. o que é ótimo, claro. um autor novo de literatura policial finalista do Prêmio São Paulo!

a gente precisava de mais gente assim, não é?

ora, como exceção que é, de certa forma Raphael está cobrando dos outros que sejam exceção também. ei, estou aqui escrevendo literatura policial, vendendo livros e sendo lido, cadê meus pares? mas não dá pra cobrar isso da gente. ô, moço, assim até dói o coração.

não é falta de espaço no mercado editorial. muitos desses autores estão publicados por editoras pequenas. também não cabe mencionar a falta de atenção da mídia, até porque a falta de atenção da mídia é generalizada até mesmo em relação aos autores mais conhecidos (sai perguntando pro povo na rua se conhecem Marçal Aquino ou Raphael Montes, por exemplo).

mas vamos ficar aqui no plano da sensatez.

a Companhia das Letras, uma das maiores editoras nacionais, publica uns dois ou três novos autores policiais por ano, se tanto. e mesmo quando acolhe alguém como o próprio Raphael, o faz depois que ele já fez sucesso com um primeiro livro publicado por outra editora. claro que surgem autores inéditos na editora também. mas são poucos perto do que é publicado da literatura estrangeira ou dos brasileiros famosos (esses que, se você perguntar na rua, as pessoas realmente vão saber quem são). a editora Record deve publicar mais, porque é uma editora maior e com cinquenta mil selos variados. daí nasceu o Joaquim Nogueira, por exemplo, citado pelo Raphael em seu artigo, que com sessenta e tantos anos publicou seu primeiro livro policial pela Companhia, depois de mandar o original pelo correio sem conhecer ninguém lá dentro (mas ninguém comenta, por exemplo, que a editora não quis publicar seu terceiro livro, que saiu por uma editora menor uns três anos atrás).

também há algumas editoras médias que talvez lancem mais autores brasileiros, entre eles autores de policiais, mas a atenção que esses autores recebem vai depender de inúmeros fatores nem sempre calculáveis, incluindo também a qualidade da obra, a posição dos astros no nascimento do livro, a numerologia do nome do autor impresso na capa, condições climáticas da semana de lançamento e a simpatia da assessoria de imprensa. desse meio nasceu o Raphael Montes e o Marçal Aquino, ambos astutamente cooptados pela Companhia das Letras depois de se tornaram sucessos de venda.

então enfim temos as milhares de editoras pequenas, publicando autores bons e nem tão bons (como também fazem as maiores, convenhamos); autores de policiais, suspense, fantasia, ficção científica. toda essa literatura de gênero brasileira, negligenciada pelas editoras maiores, está sim bem presente no mercado editorial brasileiro, mas “ninguém” ouve falar nela. estão lá, na caixa de comentários do artigo do Raphael.

claro que a gente não pode cobrar da Companhia ou da Record toda essa responsabilidade. que eles publiquem cinco autores policiais por ano já está de bom tamanho dadas as circunstâncias do mercado (deem uma olhada nos autores brasileiros que escrevem policiais citados por Raphael no artigo e vejam por quais editoras eles são publicados). mas óbvio que a nossa literatura policial não pode ser só esses dez escolhidos. assim como a nova literatura brasileira de um modo geral também não poderia se resumir a meia dúzia de autores de editoras maiores.

por isso me soou muito estranha a pergunta do Raphael. como assim, onde está a literatura policial brasileira? não é nos jornais e nas editoras maiores que você vai encontrar a resposta, ao menos não para além daqueles que foram mencionados. tem que procurar em outros cantos. coisa ruim tem aos montes, em qualquer gênero, mas tem literatura policial boa também, juro pra vocês. enquanto forem meia dúzia de editoras grandes que aparecem na mídia e, principalmente, têm seus livros nos destaques das livrarias, vamos continuar conhecendo só uma dúzia de autores brasileiros de literatura policial, e o Raphael vai continuar se sentindo solitário em sua jornada.

me parece então que a pergunta do artigo foi feita na direção errada (como as respostas nos comentários deixaram bem claro: estamos aqui). não adianta clamar por autores; eles existem aos montes, bons e ruins, geniais e terríveis. mas a maioria nem tem a chance de ser julgada. o mercado livreiro criou um contexto em que ser autor nacional bem sucedido caracteriza, sempre, uma exceção. com a literatura policial (ou qualquer outro gênero) não poderia ser diferente.

sim, estamos aqui mas não vendemos, não como você. estamos aqui mas não somos lido, não como você. continuaremos aqui, provavelmente. fico feliz pelas exceções, pelo que elas representam de possibilidade de futuro, de mudança. mas não somos exceção. era pra pedir desculpas?

o vocábulo é minha âncora

A vida é ruim, eu sei. Mas ainda não vou cortar a teia da própria vida feito ela minha mãe: o vocábulo é minha âncora; aqui desta mesa-mirante observo o anoitecer dos outros para esquecer-me do próprio crepúsculo.

primeiras linhas de Minha mãe se matou sem dizer adeus, do Evandro Affonso Ferreira.

mais:

Estou triste; não porque vou deixar a vida; mas porque nunca estive nela. Tempo todo caminhando temeroso pelo acostamento. Três senhoras decrépitas ali na mesa mais adiante conversam em hebraico; não sabem que sou o verdadeiro estrangeiro neste mundo. Minha mãe desata de súbito pião da fieira fazendo-o girar na calçada; agora o apoia ainda girando sobre a palma da mão. Tenho cinco seis anos se tanto. Fico perplexo-deslumbrado com tão encantador malabarismo. Mãe-moleque. Veio menina por descuido da natureza; viveu menino tempo todo. Encontrei analogia definitiva: minha vida foi pião sem fieira jogado num canto qualquer da gaveta; brinquedo inútil. O mundo continuará girando sem mim; sem minha mãe; sem Hipócrates; sem Demócrito.

poderia continuar. dá pra abrir em qualquer página e encontrar pedaço pra ser citado. o livro todo é bom demais. pra ler em voz alta, recitando devagar. eu, que tantas vezes ouvi o próprio Evandro lendo pra nós uns pedaços quando o encontrava em sua mesa-mirante lá no shopping Higienópolis, não posso deixar de ouvi-lo quando leio, e a leitura segue adiante deslizando.

esse é o primeiro de outros que virão. depois de um tempo sem lançar livro nenhum, o Evandro volta melhor e mais terrível. recomendo muito.