olivia maia - escritora desterrada.

tag: literatura

mais do que um leitor

El oficio literario es de lo más paradójico: es verdad que escribes en primer lugar para ti mismo, para el lector que llevas dentro, o porque no lo puedes remediar, porque eres incapaz de soportar la vida sin entretenerla con fantasías; pero, al mismo tiempo, necesitas de manera indispensable que te lean; y no un solo lector, por muy exquisito e inteligente que éste sea, por mucho que confíes en su criterio, sino más personas, muchas más, a decir verdad muchísimas más, una nutrida horda, porque nuestra hambruna de lectores es una avidez profunda que nunca se sacia, una exigencia sin límites que roza la locura y que siempre me ha parecido de lo más curiosa.

Rosa Montero, La loca de la casa

contra o próprio preconceito

Para mí el famoso compromiso del escritor no consiste en poner sus obras a favor de una causa (el utilitarismo panfletario es la máxima traición del oficio; la literatura es un camino de conocimiento que uno debe emprender cargado de preguntas, no de respuestas), sino en mantenerse siempre alerta contra el tópico general, contra el prejuicio propio, contra todas esas ideas heredadas y no contrastadas que se nos meten insidiosamente en la cabeza, venenosas como el cianuro, inertes como el plomo, malas ideas malas que inducen a la pereza intelectual. Para mí, escribir es una manera de pensar; y ha de ser un pensamiento lo más limpio, lo más libre, lo más riguroso posible.

Rosa Montero, La loca de la casa

a cultura depois da guerra

a reação com os absurdos da humanidade se alternam entre a surpresa constante e a ideia de que nada mudou: continuamos nos surpreendendo com as mesmas coisas que espantavam os cidadãos europeus na segunda metade do século XIX. ou: critica-se a sociedade que se mantém imersa em seu mundo particular com os smartphones, mas uma fotografia do começo do século XX revela um vagão de trem em que todos estão imersos em seus mundos particulares com as caras no jornal aberto.

algum esperto vai dizer: vê! nada mudou.

(tem também aquele que vai dizer não é bem assim.)

Antonio Candido em seu incansável otimismo disse que a prova de que humanidade progride é que hoje, embora ainda existam os genocídios, ninguém se orgulha publicamente por ser responsável por um genocídio. a consciência humana estaria em processo de transformação.

(ou seria mero efeito de superego coletivo exagerado pela expansão do alcance da mídia?)

It may well be that it is a mere fatuity, an indecency to debate of the definition of culture in the age of the gas oven, of the arctic camps, of napalm. The topic may belong solely to the past history of hope. But we should not take this contingency to be a natural fact of life, a platitude. We must keep in sharp focus its hideous novelty or renovation. We must keep vital in ourselves a sense of scandal so overwhelming that it affects every significant aspect of our position in history and society. We have, as Emily Dickinson would have said, to keep the soul terribly surprised.

George Steiner, In Bluebeard’s Castle

o superego vigilante como o elemento de constante surpresa. mas se esse horror não é um fato natural da vida, se precisamos seguir adiante tomando-o sempre como absurdo e escandaloso — que se pode fazer contra ele? basta manter-se surpreso e dizer que não, isso não é normal? impedir enfim que o horror seja motivo de orgulho.

enquanto isso a história (envergonhada) segue se repetindo.

o tempo em suspensão

Cima di Paradisi und Schwarzhorn | K.u.k. Kriegspressequartier, Lichtbildstelle – Wien

eu queria escrever sobre A montanha mágica, de Thomas Mann. mas como escrever sobre A montanha mágica sem falar do final do livro e da relação que ele estabelece com o resto da narrativa, e principalmente da forma como ele transforma e reconfigura tudo o que se leu até ali, todas aquelas 950 páginas que vieram antes; como pode ser que até hoje o que se diz desse livro é simplesmente a velha ladainha sobre doentes num sanatório nas montanhas suíças, questionando a vida e a morte e a condição humana, sem que jamais seja mencionado o choque final e o peso que ele representa não só para a vida do protagonista mas para toda a humanidade? fosse por qualquer senso de não se revelar nenhum spoiler aos pobres dos leitores. antes eu pudesse ter lido Grande sertão: veredas sem saber o final.

o fato é que desses últimos tempos estudando o iluminismo, a revolução industrial e a chegada do século vinte não poderia ter me preparado para o final desse livro, e aqui de meu lugar no século vinte e um é como se eu finalmente conseguisse compreender de que tanto escreveu Walter Benjamin ao descrever as mudanças por quais passava a geração nascida no final do século dezenove. a gente se acostuma a pensar no século vinte começando com a primeira guerra, e a gente aprende que a primeira guerra aconteceu entre as trincheiras, com todas aquelas histórias horripilantes que se repetem. mas a gente nunca se dá conta do que era a Europa antes disso: uma Europa de monarquias decadentes.

o século dezenove ainda não havia terminado, em 1914, quando o tal do arquiduque foi assassinado. o século vinte chegou num assalto, violentamente.

e é isso que faz A montanha mágica, de certa forma: são 950 páginas de século dezenove e suas questões sobre o que significa ser humano, e todo o processo de mudança que ele representou, e todas as ideias e ideais que disputavam por espaço naquele momento. Hans Castorp, o protagonista, é um paisano, como ele não cansa de repetir. um tipo meio sonso, meio sem graça, sem personalidade. ao longo do livro, o século dezenove e tudo que ele representou crescem nele. o sentido da vida, da doença, da morte; o otimismo e o pessimismo em relação ao futuro.

mas é um tempo em suspensão nas montanhas, na altitude suíça, longe da planície onde as coisas acontecem e as pessoas acordam todos os dias e cumprem suas rotinas de trabalho. é como todo o século dezenove condensado em sete anos. ao leitor, amarrado a essa longa narrativa, resta adaptar-se, como faz Hans Castorp. adaptar-se a não se adaptar. por isso, pela duração e intensidade da história, sentimos o peso do desfecho com tanta violência. eu diria, ainda, que o choque é maior no leitor do que no próprio Castorp, que parece tomado pela inércia do tempo presente, como sempre esteve ao longo de todo o livro. ler A montanha mágica é um pouco ser transportado àquele momento suspenso, aquecido por cobertores de pele contra o frio alpino e com cinco fartas refeições diárias, e sentir-se muito confortável com a situação e questões dessa classe média europeia. mais ainda, ler A montanha mágica é ser subitamente atirado na lama, no frio, sem cobertores, no meio de um ataque de mísseis, com só uma vaga possibilidade de redenção.

Thomas Mann, escrevendo depois da grande guerra, quer saber se é possível o amor depois disso. eu, escrevendo depois de meio mês agarrada ao livro, só consigo me perguntar: como chegamos a esse ponto?

a guia de sebos

por Aline Valek

Estava aqui pensando numa profissão que cairia bem na Olivia Maia.

Nessa época em que as pessoas anseiam por indicações literárias, não satisfeitas apenas com o que as livrarias colocam nas prateleiras de destaque ou no que o hype do momento exige que se leia para se ter assunto com os outros, há espaço para quem manja de livros e sobretudo para quem sabe como comprá-los mais barato.

Para isso existiria a Guia de Sebos. Uma experiência diferenciada – porque nesses tempos busca-se acima de tudo ter experiências diferenciadas – de consumo de livros.

É muito simples o que faz a Guia de Sebos: organiza expedições (há de se ter um limite de gente, claro) para andar pelos sebos da cidade. Nessas andanças, ela indicaria livros para as pessoas, falaria sobre o que leu, contaria histórias de como aquele outro mexeu com ela, mostraria livros que olha, conheço o autor, ou ainda encontraria os indispensáveis que quase ninguém conhece.

Seria muito mais do que comprar livros. Seria um passeio e sobretudo uma conversa sobre literatura. Um aprendizado também: além de poder aprender muito sobre literatura, conhecer novos autores e gêneros, com a Guia de Sebos se aprenderia os melhores sebos, como encontrar os livros que se procura, como negociar preços e fazer o melhor negócio.

Um serviço de muito valor, que as pessoas pagariam com gosto, até parcelado no cartão. Mas como a Guia se recusaria a cobrar o valor que merece, ou colocar qualquer preço nesse trabalho, as pessoas lhe pagariam com os livros que ela quisesse levar, com lanches e suquinhos nos intervalos das caminhadas, ou ainda com suas próprias histórias, porque histórias também valem muito.

Ainda os próprios donos das lojas poderiam pagar a Guia pelo serviço, com comissão ou com uma cota de livros, porque a Guia de Sebos sempre tem espaço para mais leituras.

Então os livros que as pessoas adquiririam nesta experiência seriam aquela leitura sob medida, uma leitura com história, que a fariam lembrar que alguém, uma pessoa – e não um algoritmo – indicou aquele livro a ela, numa tarde de conversas em que se soube que a filha da dona do sebo sabe falar alemão. Histórias que não estão impressas em lugar algum.

Contrate agora a Guia do Sebo e agende seu horário.


a queridíssima e gênia Aline Valek escreve em seu blog e no medium, e também produz a zine Bobagens Imperdíveis, que você pode assinar e receber em casa, via correios (!). recomendo muito o último livro dela, As águas vivas não sabem de si, disponível em versão impressa e digital, que você encontra por aí na sua livraria favorita.