olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

tag: literatura

novo projeto: RABISCOLOGIA

quem assina a newsletter já sabe; agora, chegou o momento de contar pro mundo.

acabei de lançar um novo projeto:
rabiscologia é a ciência do rabisco. é um espaço de estudo, experiências, testes e, principalmente, um espaço de liberdade. um espaço onde manda a louca da casa, aquela, a imaginação.

é também o novo nome da newsletter e de um zine mensal, que começa a existir a partir de novembro.

epa epa epa como assim?

pois: a Olivia escritora agora assumiu que é também um pouco Olivia artista, desenhista, rabiscadora. e pra poder compartilhar meus novos rabiscos, resolvi criar uma página na plataforma apoia.se. lá, você vai poder assinar o zine impresso por 15 reais mensais, e ele vai até você por correios a partir de novembro

além disso, pode ainda assinar um pacote extra pra receber, além do zine, um rabisco assinado, impresso, todo bonitão.

e pra não deixar ninguém de fora, criei ainda outras faixas de apoio, pra quem não quer mais papel nessa vida ou está precisando economizar. todas elas garantem uns presentinhos eventuais e participação em sorteios pra ganhar rabiscos e outras artes que eu inventar por aqui.

RABISCOLOGIA, o zine

o zine é um espaço de experimentação. é texto, ilustração, fotografia, rabiscos. uma mistura de tudo isso. rabiscologia vai ser principalmente uma surpresa, mas uma surpresa sincera. um pedaço de mim, como artista, na sua caixa de correios. o formato é A6 e o papel pode variar, assim como as cores na impressão.

a primeira edição vai ser especial: vou participar este ano do inktober, e produzir uma ilustração por dia durante o mês de outubro (bora participar também?). em novembro, vou montar a edição ZERO de rabiscologia com uma coleção das minhas ilustrações favoritas.

mas olha só: pra receber a edição zero, tem que confirmar o apoio até dia 30 de setembro. isso por causa da forma como o apoia.se repassa as contribuições (demora um pouquinho). mas só demora o primeiro, prometo. dali em diante, é só manter a assinatura em dia que você recebe um por mês mesmo.

sorteio extraordinário inktober

pra comemorar minha alegria em compartilhar esse projeto, resolvi também fazer um sorteio ultra mega master especial pra quem apoiar até o final de setembro: um sorteio dos originais produzidos durante o inktober. TODOS ELES. e também não importa o valor de contribuição: todos os apoiadores vão concorrer. o sorteio vai rolar em novembro, mas só participa pra quem assinar até 30 de setembro.

bora participar?

e outra: o maior apoio que você pode me dar nesse momento é a sua ajuda com divulgação! corre na página do projeto e manda o link pros amigos e pro vizinho e pro chefe e pra quem mais puder se interessar. está tudo explicadinho por lá.

e vai se preparando pra começar a rabiscar também.

mais do que um leitor

El oficio literario es de lo más paradójico: es verdad que escribes en primer lugar para ti mismo, para el lector que llevas dentro, o porque no lo puedes remediar, porque eres incapaz de soportar la vida sin entretenerla con fantasías; pero, al mismo tiempo, necesitas de manera indispensable que te lean; y no un solo lector, por muy exquisito e inteligente que éste sea, por mucho que confíes en su criterio, sino más personas, muchas más, a decir verdad muchísimas más, una nutrida horda, porque nuestra hambruna de lectores es una avidez profunda que nunca se sacia, una exigencia sin límites que roza la locura y que siempre me ha parecido de lo más curiosa.

Rosa Montero, La loca de la casa

contra o próprio preconceito

Para mí el famoso compromiso del escritor no consiste en poner sus obras a favor de una causa (el utilitarismo panfletario es la máxima traición del oficio; la literatura es un camino de conocimiento que uno debe emprender cargado de preguntas, no de respuestas), sino en mantenerse siempre alerta contra el tópico general, contra el prejuicio propio, contra todas esas ideas heredadas y no contrastadas que se nos meten insidiosamente en la cabeza, venenosas como el cianuro, inertes como el plomo, malas ideas malas que inducen a la pereza intelectual. Para mí, escribir es una manera de pensar; y ha de ser un pensamiento lo más limpio, lo más libre, lo más riguroso posible.

Rosa Montero, La loca de la casa

a cultura depois da guerra

a reação com os absurdos da humanidade se alternam entre a surpresa constante e a ideia de que nada mudou: continuamos nos surpreendendo com as mesmas coisas que espantavam os cidadãos europeus na segunda metade do século XIX. ou: critica-se a sociedade que se mantém imersa em seu mundo particular com os smartphones, mas uma fotografia do começo do século XX revela um vagão de trem em que todos estão imersos em seus mundos particulares com as caras no jornal aberto.

algum esperto vai dizer: vê! nada mudou.

(tem também aquele que vai dizer não é bem assim.)

Antonio Candido em seu incansável otimismo disse que a prova de que humanidade progride é que hoje, embora ainda existam os genocídios, ninguém se orgulha publicamente por ser responsável por um genocídio. a consciência humana estaria em processo de transformação.

(ou seria mero efeito de superego coletivo exagerado pela expansão do alcance da mídia?)

It may well be that it is a mere fatuity, an indecency to debate of the definition of culture in the age of the gas oven, of the arctic camps, of napalm. The topic may belong solely to the past history of hope. But we should not take this contingency to be a natural fact of life, a platitude. We must keep in sharp focus its hideous novelty or renovation. We must keep vital in ourselves a sense of scandal so overwhelming that it affects every significant aspect of our position in history and society. We have, as Emily Dickinson would have said, to keep the soul terribly surprised.

George Steiner, In Bluebeard’s Castle

o superego vigilante como o elemento de constante surpresa. mas se esse horror não é um fato natural da vida, se precisamos seguir adiante tomando-o sempre como absurdo e escandaloso — que se pode fazer contra ele? basta manter-se surpreso e dizer que não, isso não é normal? impedir enfim que o horror seja motivo de orgulho.

enquanto isso a história (envergonhada) segue se repetindo.

o tempo em suspensão

Cima di Paradisi und Schwarzhorn | K.u.k. Kriegspressequartier, Lichtbildstelle – Wien

eu queria escrever sobre A montanha mágica, de Thomas Mann. mas como escrever sobre A montanha mágica sem falar do final do livro e da relação que ele estabelece com o resto da narrativa, e principalmente da forma como ele transforma e reconfigura tudo o que se leu até ali, todas aquelas 950 páginas que vieram antes; como pode ser que até hoje o que se diz desse livro é simplesmente a velha ladainha sobre doentes num sanatório nas montanhas suíças, questionando a vida e a morte e a condição humana, sem que jamais seja mencionado o choque final e o peso que ele representa não só para a vida do protagonista mas para toda a humanidade? fosse por qualquer senso de não se revelar nenhum spoiler aos pobres dos leitores. antes eu pudesse ter lido Grande sertão: veredas sem saber o final.

o fato é que desses últimos tempos estudando o iluminismo, a revolução industrial e a chegada do século vinte não poderia ter me preparado para o final desse livro, e aqui de meu lugar no século vinte e um é como se eu finalmente conseguisse compreender de que tanto escreveu Walter Benjamin ao descrever as mudanças por quais passava a geração nascida no final do século dezenove. a gente se acostuma a pensar no século vinte começando com a primeira guerra, e a gente aprende que a primeira guerra aconteceu entre as trincheiras, com todas aquelas histórias horripilantes que se repetem. mas a gente nunca se dá conta do que era a Europa antes disso: uma Europa de monarquias decadentes.

o século dezenove ainda não havia terminado, em 1914, quando o tal do arquiduque foi assassinado. o século vinte chegou num assalto, violentamente.

e é isso que faz A montanha mágica, de certa forma: são 950 páginas de século dezenove e suas questões sobre o que significa ser humano, e todo o processo de mudança que ele representou, e todas as ideias e ideais que disputavam por espaço naquele momento. Hans Castorp, o protagonista, é um paisano, como ele não cansa de repetir. um tipo meio sonso, meio sem graça, sem personalidade. ao longo do livro, o século dezenove e tudo que ele representou crescem nele. o sentido da vida, da doença, da morte; o otimismo e o pessimismo em relação ao futuro.

mas é um tempo em suspensão nas montanhas, na altitude suíça, longe da planície onde as coisas acontecem e as pessoas acordam todos os dias e cumprem suas rotinas de trabalho. é como todo o século dezenove condensado em sete anos. ao leitor, amarrado a essa longa narrativa, resta adaptar-se, como faz Hans Castorp. adaptar-se a não se adaptar. por isso, pela duração e intensidade da história, sentimos o peso do desfecho com tanta violência. eu diria, ainda, que o choque é maior no leitor do que no próprio Castorp, que parece tomado pela inércia do tempo presente, como sempre esteve ao longo de todo o livro. ler A montanha mágica é um pouco ser transportado àquele momento suspenso, aquecido por cobertores de pele contra o frio alpino e com cinco fartas refeições diárias, e sentir-se muito confortável com a situação e questões dessa classe média europeia. mais ainda, ler A montanha mágica é ser subitamente atirado na lama, no frio, sem cobertores, no meio de um ataque de mísseis, com só uma vaga possibilidade de redenção.

Thomas Mann, escrevendo depois da grande guerra, quer saber se é possível o amor depois disso. eu, escrevendo depois de meio mês agarrada ao livro, só consigo me perguntar: como chegamos a esse ponto?