olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

tag: literatura

objetivo

On one side there is luminosity, trust, faith, the beauty of the earth; on the other side, darkness, doubt, unbelief, the cruelty of the earth, the capacity of people to do evil. When I write, the first side is true; when I do not write, the second is. Thus I have to write, to save myself from disintegration. Not much philosophy in this statement, but at least it has been verified by experience.

– Czeslaw Milosz, Road-Side Dog

narrow-minded

My knowledge is limited, my mind puny. I tried hard, I stud­ied, I read many books. And nothing. In my home, books spill from the shelves; they lie in piles on furniture, on the floor, barring passage from room to room. I cannot, of course, read them all, yet my wolfish eyes constantly crave new titles. In truth, my feeling of limitation is not permanent. Only from time to time an awareness flares of how narrow our imagina­tion is, as if the bones of our skull were too thick and did not allow the mind to take hold of what should be its domain. I should know everything that’s happening at this moment, at every point on the earth. I should be able to penetrate the thoughts of my contemporaries and of people who lived a few generations ago, and two thousand and eight thousand years ago. I should. So what?

Czeslaw Milosz, Road-Side Dog

o indizível

Não sei se não tenho nada a dizer, sei que não digo nada; não sei se o que teria a dizer não é dito por ser indizível (o indizível não está escondido na escrita, é aquilo que muito antes a desencadeou); sei que o que digo é branco, é neutro, é signo de uma vez por todas de um aniquilamento de uma vez por todas.

W ou a memória da infância, Georges Perec

David Markson e o sentimento do literário

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41-Mgcun78L._SX323_BO1,204,203,200_marksonli mais um livro do David Markson. primeiro Reader’s Block e agora This is not a Novel.

a mesma estrutura (falta de estrutura?); as mesmas anedotas e informações sobre óbito de pessoas ilustres. mas esse último que li é mais como exercício explícito de escrita. ou um exercício negativo para não escrever um romance;

“yet seducing the reader into turning pages nonetheless.”

o exercício do exercício de escrita. a ficção que não é ficção. e o leitor (eu) que continua virando as páginas uma atrás da outra. talvez não fosse mesmo um romance. mas afinal quando tempo e energia já não perdemos tentando definir o que é um romance?

se você diz a uma pessoa que não é de humanas que gosta de ler literatura, ela pergunta que tipo de literatura? porque pra ela tudo que é livro é literatura. literatura especializada sobre eletrônica ou química dos alimentos. aí você diz ficção e corre o risco de escutar algo como ah, tipo Paulo Coelho?

quer dizer, né, dentro da lógica, Paulo Coelho também é literatura. não é bem o meu tipo de literatura, mas sejamos abrangentes.

o problema é que tem esses momentos em que literatura, no sentido de, cof cof, literário, não é só ficção. ou;

como faz pra explicar essas coisas pra essa gente de negócios?; pra essa gente que estudou engenharia, ciências contábeis, medicina? às vezes você lê qualquer livro sobre teoria literária e vão ali uns capítulos para explicar o que é o romance, o que é o conto, o que é a literatura. dá vontade de dizer que tudo bem, eu sei o que você quer dizer.

mas eu sou leitora.

como você explica o sentimento do literário pra quem não é leitor? pra quem não tem paciência pra ler muito mais do que um best-seller a cada dois meses, diligentemente, como quem cumpre uma obrigação escolar? a essa gente bem intencionada que nossa, eu nunca tenho tempo pra ler e quando têm de qualquer forma preferem ver um filme ou passear pelo facebook. ou devoram um manual de alimentação macrobiótica e estou lendo um livro muito interessante você que gosta de ler vai se interessar.

como você explica que This is Not a Novel não é bem um romance e não tem história, não tem personagens, não acontece nada;

e ainda assim é todo literatura.

Guimarães Rosa me salvou de fazer publicidade

numa troca de e-mails sobre a necessidade de escrever um amigo me passou esse link: poema inédito de Angélica Freitas em homenagem a Ana Cristina Cesar.

no que fiquei depois pensando que Guimarães Rosa me salvou de fazer publicidade.

publicidade, esse caminho do artista cínico e pragmático, a saída dos criativos desesperados.

mas as possibilidades da arte, a beleza do texto, de repente, paf. por dizer: existe um caminho sensato.

já pensou?, publicidade! até o começo do último ano de colégio me parecia o único trabalho criativo com o qual eu não morreria de fome. mas aí Guimarães Rosa e aquele professor do terceiro ano (de quem fui aluna, muito me orgulho e faço alarde!) e eu voltei a rabiscar cadernos com histórias mágicas sobre crianças que encontravam fantasmas em espelhos no porão da fazenda da avó ou que iam parar num circo de 1930 quando se perdiam dos pais num passeio pelo parque.

assumir o vamos ver se e quem sabe.

Guimarães Rosa me fez acreditar que criatividade nada tinha a ver com pragmatismo.