olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

tag: minhas vidas

onde me canso de enterrar gatos este ano

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Mancha, gato babão, que levou dias pra descer a escada depois da mudança, porque tinha medo da escada. que ontem pela manhã veio comer na varanda. que passou semanas chorando porque todos os gatos conseguiam escalar a cerca e ir passear no terreno do vizinho, menos ele. que aprendeu a sair, mas demorou outra semana pra aprender a voltar. que vinha miando quando eu chamava Faísca à noite, pensando que era com ele. que ficou três dias sem olhar na nossa cara depois de uma tentativa (frustrada) de aplicar nele um antipulgas. que me arranhou todo o braço duas semanas atrás quando fui tentar tirar ele de cima das cenouras na horta. que tinha medo de tudo e todos, mas ficava miando no meu caminho pelo quintal quando queria comida ou cafuné.

que seja essa a consequência de muitos gatos, de dar comida e carinho ou mesmo só comida porque gatos às vezes são assim mesmo. de cuidar desses bichinhos que a gente não pode prender dentro de casa e pra quem não se pode dizer o que fazer, pra onde ir.

seria talvez mais fácil desistir, fechar a porta e ninguém mais entre aqui miando com fome. mas que essa tristeza seja consequência de toda a alegria que esses gatos me trazem, só de olhar pra eles. que vou fazer? desistir dessa alegria?

Mancha (embaixo) e Fred.

uma semana de rabiscologia ou: enfim encontrar-se consigo

uma semana rabiscando.

uma semana pra lembrar o que eu sou e o que eu posso fazer. pra lembrar que eu sou escritora, claro; mas não é só isso. que eu posso fazer arte, a minha arte. e que existe uma arte que é minha.

uma semana.

o retorno é bom, sim, dá uma alegria; saber que eu posso fazer algo que tem sentido pra mim e que isso tem sentido também pra outras pessoas. inspirar. mas a alegria maior está em fazer: em rabiscar. em permitir-me rabiscar. de repente todas as ideias mirabolantes de ilustração, texto e artes diversas (etc etc etc) voltam na minha cabeça, ficam rondando minha mesa e as canetinhas. todas as ideias que sempre estiveram aí mas que.

nada. não tinha motivo pra deixar as ideias todas assim, abandonadas.

fiquei mais de dois anos viajando nessa pilha de “me encontrar” e descobrir o que eu queria fazer, mas só fui descobrir mesmo dois anos depois da viagem terminada, quando comecei a reencontrar a rotina.

pior (ou melhor?): nenhuma resposta mirabolante. uma resposta que esteve sempre presente, todo tempo; eu que não estava prestando atenção. era tão óbvio.

o projeto rabiscologia, no apoia.se, já tem mais de 10 apoiadores. se você tem vontade de participar, colaborar, rabiscar: dá uma espiada na página, veja se alguma das opções de assinatura/apoio te parece interessante. tem um zine mensal e artes digitais ou impressas. o zine começa a ser enviado em novembro, mas pra receber essa primeira edição tem que confirmar o apoio até o final de setembro!

se ficar com vontade de rabiscar também, me avisa. compartilha no instagram com a tag #rabiscologia.

essa coisa de autopromoção continua meio esquisito pra mim. se puder me ajudar com divulgação, eu agradeço demais! avisa os amigos, os colegas de trabalho… vai ser bem massa.

Guimarães Rosa me salvou de fazer publicidade

numa troca de e-mails sobre a necessidade de escrever um amigo me passou esse link: poema inédito de Angélica Freitas em homenagem a Ana Cristina Cesar.

no que fiquei depois pensando que Guimarães Rosa me salvou de fazer publicidade.

publicidade, esse caminho do artista cínico e pragmático, a saída dos criativos desesperados.

mas as possibilidades da arte, a beleza do texto, de repente, paf. por dizer: existe um caminho sensato.

já pensou?, publicidade! até o começo do último ano de colégio me parecia o único trabalho criativo com o qual eu não morreria de fome. mas aí Guimarães Rosa e aquele professor do terceiro ano (de quem fui aluna, muito me orgulho e faço alarde!) e eu voltei a rabiscar cadernos com histórias mágicas sobre crianças que encontravam fantasmas em espelhos no porão da fazenda da avó ou que iam parar num circo de 1930 quando se perdiam dos pais num passeio pelo parque.

assumir o vamos ver se e quem sabe.

Guimarães Rosa me fez acreditar que criatividade nada tinha a ver com pragmatismo.

dia de semana

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um dia como qualquer outro; de olhar na agenda e organizar as obrigações. olhar a lista com as pendências e decidir em que dia vai cada coisa — porque essa sensação de que há muito a se fazer, e o tempo. saber que tudo isso e organizar e fazer e saber mas a vontade é buscar um pedaço de sol e ler mais um pouco esse livro que já vai pela metade. botar o andu na panela com uns temperos e deixar cozinhar. perceber que não: não há nada urgente e a semana está nos trilhos e já é quase meio-dia. perceber que o dia está livre adiante e então sentar num pedaço de sol e avançar pela outra metade do livro começado enquanto o andu continua dançando dentro d’água na panela até a hora de almoçar.