olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

tag: mundo

entre o bolsa família e o sistema penitenciário

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Aqueles que a expansão da liberdade do consumidor privou das habilidades e poderes do consumidor precisam ser detidos e mantidos em xeque. Como são um sorvedouro dos fundos públicos e por isso, indiretamente, do “dinheiro dos contribuintes”, eles precisam ser detidos e mantidos em xeque ao menor custo possível. Se a remoção do refugo se mostra menos dispendiosa do que a reciclagem do refugo, deve ser-lhe dada a prioridade. Se é mais barato excluir e encarcerar os consumidores falhos para evitar-lhes o mal, isso é preferível ao restabelecimento de seu status de consumidores através de uma previdente política de emprego conjugada com provisões ramificadas de previdência. E mesmo os meios de exclusão e encarceramento precisam ser “racionalizados”, de preferência submetidos à severa disciplina da competição de mercado: que vença a oferta mais barata…

Zigmunt Bauman, O mal-estar da pós-modernidade

fascismo e capitalismo

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Aqueles que estão contra o fascismo sem estar contra o capitalismo, que choramingam sobre a barbárie causada pela barbárie, assemelham-se a pessoas que querem receber a sua fatia de assado de vitela, mas não querem que se mate a vitela. Querem comer vitela, mas não querem ver sangue. Para ficarem contentes, basta que o magarefe lave as mãos antes de servir a carne. Não são contra as relações de propriedade que produzem a barbárie, mas são contra a barbárie.

Bertolt Brecht, As cinco dificuldades de escrever a verdade

mas não: o mundo não mudou

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Mas é uma sociedade perfeita para ser governada; e a prova disso é que todos os que aspiram a governar querem governa-la, pelos mesmos procedimentos, e mantê-la quase exatamente como ela é. É a primeira vez que, na Europa contemporânea, nenhum partido ou fração de partido ensaia somente pretender que tentaria mudar qualquer coisa de importante. […] Em todo o lado onde reina o espetáculo, as únicas forças organizadas são aquelas que querem o espetáculo. […] Acabou-se com esta inquietante concepção que dominou durante mais de duzentos anos, segundo a qual uma sociedade podia ser criticável e transformável, reformada ou revolucionada.

Guy Debord, Comentários sobre “A sociedade do espetáculo” 

como transformar estresse e ansiedade em produtividade

how to reframe stress and anxiety into productivity

era o título de um artigo que me apareceu (como sempre me aparecem as coisas mais estranhas) na lista de recomendações do pocket. outro desses artigos absurdos que às vezes me gritam com esses títulos longos e imperativos. quase sempre eu sigo adiante mas dessa vez eu parei e precisei pensar duas vezes no absurdo da formulação. pensei naquele artigo da Eliane Brum e nalgum outro que devo ter lido sobre a idolatria da produtividade; pensei na minha própria ansiedade e o tanto que ela está (sempre esteve) ligada a uma angústia de produzir mais e melhor e sempre (pra quê; pra quem?).

pensei então que esse título é o cúmulo da loucura dos tempos modernos: transformar em produtividade os efeitos colaterais negativos da necessidade de ser produtivo o tempo todo; a necessidade de transformar tudo em produção.

se nossa sociedade precisa de um novo ícone revolucionário ele tem que ser alguém parecido com Bartleby, o escrivão, que preferia não fazer.

e não produzia nada.

todos os dias

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o mesmo cenário urbano pela janela todos os dias. imutável e cinzento como são os cenários urbanos. a poeira dos automóveis. a fuligem acumulada nas calçadas, na rua; restos de civilização esquecidos entre os paralelepípedos: guimbas de cigarro, chiclete e embalagens plásticas coloricas.

o mesmo cenário às vezes um pouco mais sujo do que no dia anterior.

o mesmo sapo atropelado no calçamento, cada dia mais cinza, cada dia mais rua, cada dia menos sapo.

o urbano como um pintor inexperiente que voraz mistura cores até que reste apenas um mesmo marrom acinzentado e inexpressivo.

o cenário que por alguns instantes quase esquecido quando no final do dia as nuvens se colorem com a luz rosada do entardecer.

mas outra vez enfim a mesma moldura, as mesmas cores, os mesmos ângulos.

que terrível.