olivia maia - escritora desterrada.

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mais da ruta 40: entre santa maría e belén

que a ruta 40 tão mítica e longa tem seus momentos de desastrosa já não há dúvida. ali por Salta entre Cachi e Angastaco, por exemplo: a estrada de terra e pedregulho e curvas em passagens estreitas e precipícios.

também já estou quase convencida de que ao construir essa estrada foram na verdade escolhendo os cenários mais lindos num corte norte-sul da Argentina.

o motorista do ônibus me fez lembrar meu dentista, de costas, uns anos mais novo (porque meu dentista é meu dentista desde que eu tenho cinco anos). era o mesmo que me levou de Cafayate a Santa María porque afinal era a mesma linha. deve ter me reconhecido porque me cumprimentou como quem já me viu antes.

sentei na frente ao lado de uma senhora gorda que me cedeu a janela quando eu comentei que estava ali pra ver o caminho. ela já sabia toda a paisagem decorada. disse ainda que ali batia o sol quando o ônibus arrancasse, e que eu ia tostar um pouco se deixasse a cortina aberta.

dali uns quinze minutos de iniciada a viagem eu dei foi uma cochilada enquanto o sol me tostava. acordei mais ou menos quando desceu a senhora gorda, a tempo de a ouvir comentar com o motorista que se dormió la chica. mas bem acordei a tempo de começar a paisagem, pouco antes da curva que faz dar tchau aos Valles Calchaquíes e se meter em algum outro vale cujo nome eu desconheço, metido também, provavelmente (pelo tamanho das montanhas) entre cordão subandino e pré-cordilheira.

montanhas meu deus montanhas.

essas montanhas cheias de pontas que se movem com o movimento do ônibus porque estão tão próximas e porque logo atrás há ainda outro cordão montanhoso, que se move mais devagar, e atrás desse ainda outro, e outro; daí essa ilusão de montanhas que se movem.

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depois de umas curvas e uma leve subida (uma mini cuesta, que é como chamam aqui essas espirais e zigue-zagues que escalam morros e montanhas) a estrada se esticou numa reta sem fim. fiquei um pouco observando o motorista que a bolota de folha de coca na bochecha mas ainda assim parecia um pouco entediado.

me inclinei no banco pra tirar uma foto com o celular e o motorista me ofereceu uma pasta de couro sobre a escadinha do corredor pra eu me sentar ali. imaginei que ele precisava mesmo de alguém pra conversar e afinal dali a vista da paisagem era muito melhor e sem o sol me tostando as pernas.

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ele foi murmurando comentários sobre os lugares, os povoadinhos, a necessidade de chegar no horário e ter que diminuir a velocidade porque ia chegar muito cedo no próximo povoado. entre a música e o motor e as folhas de coca e esse sotaque picado do norte eu entendia bem metade do que ele dizia.

me contou que tinha uma namorada em Salta e outra em Santa María, e tinha também uma em Belén mas parece que ela descobriu as outras, e aí né. ou alguém contou, não entendi bem. que tinha sido casado nove anos e que a ex-mulher, a mocinha que me tinha vendido a passagem, tinha dele um ódio tremendo. se chamava Aldo, o tipo.

enquanto isso a paisagem desértica de montanhas por todos os lados seguia adiante, e as montanhas mudavam de cara e de formação geológica, ganhavam outras cores e um aspecto meio lunar. umas mesetas que formavam uma espécie de sequência de tobogãs. o ar parecia ficar mais denso conforme íamos baixando em altitude e por isso não tirei muitas fotos. com o vidro meio sujo e o sol adiante só consegui umas imagens borrosas e sem contraste.

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tudo essa paisagem meio desértica de arbustos e algarrobos baixinhos, e nada, ninguém.

nunca.

uma imensidão de espaço vazio cercado de montanhas e morros de cores diferentes, todos com muitas pontas, e o solo arenoso e cinzento na distância pintado pelos arbustos espinhosos que se distribuem por todo lado.

quando ao fundo se ia aproximando uma montanhazona e umas nuvens escuras Aldo indicou que ali atrás estava Belén e quem sabe menos calor embora o termômetro do ônibus marcasse 36 graus lá fora. nos metemos por uma quebradinha de onze quilômetros e muitas curvas que desembocava na cidade de Belén.

no rumo de iruya

esse povoado metido entre montanhas que todos com quem eu topava pelo caminho diziam tenés que ir a Iruya.

oito da manhã em Tilcara estávamos num ônibus com pinta de ônibus de linha e cadeiras um pouquinho mais confortáveis, as duas fileiras da frente fazendo as vezes de porta-malas (ao longo da viagem sobre nossas mochilas foram um enorme buquê de flores e um menino de uns 5 anos, nessa ordem). muitas senhoras mui paquetas de chapéu com pompons e fitas coloridas, mui coloridas e arrumadinhas pra festa da virgem.

parte da viagem é pela ruta 9 (talvez a segunda rodovia mais famosa da Argentina, depois da ruta 40) na quebrada de Humahuaca, incluindo uma parada em Humahuaca (mui rápida que o motorista estava numa pressa desgraçada) e com montanhas por todos lados (como convém a uma quebrada).

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logo no início vimos à esquerda atrás do cordão montanhoso mais próximo um pico todo nevado, muito nevado, tão nevado que parecia qualquer coisa menos um pico nevado (uma gigantesca barraca de camping branca, por exemplo).

pensei que a chuva dos dois dias anteriores, e o frio pela noite, enfim. depois ainda adiante pela quebrada aparecia outro pico nevado (um pouco menos nevado) e de qualquer forma com o sol forte que ia subindo mesmo a primeira montanha que vimos já tinha umas mesclas de branco e terra.

em um pouco da rodovia o ônibus toma à direita numa estradinha de terra, e aí começa a subida, e as curvas. pela quebrada são mais ou menos 2600 metros de altitude, mas o ônibus vai se meter pelas montanhas até alcançar uns quatro mil, mais ou menos, na divisa entre a província de Jujuy (onde eu estava) e Salta.

(a província de Salta tem um formato esquisito e por isso está ao sul e ao norte e a leste de Jujuy ao mesmo tempo.)

pelo caminho um monte de pueblitos minúsculos e cinzentos, alguns a mais de três mil metros de altitude. quando quase na divisa surgiu uma montanha gigantesca e toda nevada, branquinha, tão próxima de onde estávamos. quando mais o ônibus subia, sempre num ziguezague (literalmente um ziguezague) com curvas de quase 180 graus, mais próxima ficava a montanha e mais se percebia que ela era ainda maior do que à primeira vista.

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então um vale enorme, e a montanha gigante à direita. o ônibus havia alcançado a abra del cóndor, divisa entre províncias, e de lá de cima se via o começo da quebrada que levava a Iruya e ainda ao fundo outro pico nevado, distante.

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cruzamos uma ponte e começou mais um ziguezague sem fim.

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vê que desde a entrada da estrada de terra são uns 50 km e o ônibus leva quase duas horas pra fazer esse percurso.

muitos ziguezagues e a montanha branca ali ao lado coisa mais linda.

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alcançamos a quebrada e passamos ainda por outros minipovoados e mais algumas curvas;

(informo orgulhosa que faz mais de um mês que viajo de ônibus sem tomar dramin e se não fizer a boluda e manter a atenção do lado de fora não passo mal que belezinha)

pois: no rio quase seco pouco antes de chegar a Iruya (já se via na distância o bienvenidos a Iruya escrito com pedras na montanha) um monte de barracas e lonas azul e negra, uma multidão pelo fim da estrada (a estrada TERMINA em Iruya, veja bem) subindo para o povoado. o ônibus nos deixou antes da entrada, uma ladeira relativamente íngreme, principalmente com mochilas e 2700 metros de altitude. ao lado direito o rio (que nessa época não está seco mas corre feito arroio num leito de uns 50 metros de largura) e à esquerda um paredão que é a cidade subindo.

e subindo.

alcança-se a igreja, a praça principal, a gente reunida na porta pra missa que estava acontecendo lá dentro. o palco da festa montado. e à esquerda mais uma ladeira sem fim, ainda mais íngreme que a da entrada. perguntamos a um senhor se aquela era a calle Belgrano. diz que sim e nos pergunta que estamos buscando. el de Asunta, respondemos. ele faz uma cara de pena e diz que vixe, é lá em cima de tudo, no topo. olhar adiante pensar que Ouro Preto era mais fácil do que aquilo.

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voltas em Pirenópolis e quedas em Goiânia

aí que na terça-feira fui com um guia amigo do dono do hostel até a cachoeira Bonsucesso, que na verdade são seis cachoeiras na fazenda Bonsucesso. a água estava meio suja por causa da chuva (quer dizer, suja de barro, que não é bem sujeira). foi uma caminhada tranquila de cinco quilômetros e mais uns metros dentro da fazenda. deu para mergulhar. saiu até sol!

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na volta rolou uma carona com o povo da fazenda até o carro do guia e depois seguimos para o IPEC.

estava fechado para visitação, mas o portão estava aberto e fomos entrando (ops). lá dentro o guia conversou com um rapaz que disse que a gente podia dar uma volta pela área aberta e tudo bem. as bioconstruções são muito legais e sempre coloridas. pena que não deu pra fazer um tour de verdade, com explicações e aquela coisa toda.

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ói aqui o álbum de fotos.

Pirenópolis é uma cidade boa de visitar, mais bonita do que Alto Paraíso, mas não sei se mais simpática. fiquei pouco tempo e acho que precisaria pelo menos uma semana pra ter uma opinião mais precisa. saí na quarta-feira de manhã num ônibus mei sem vergonha da viação Goianésia rumo à Goiânia.

a rodoviária de Goiânia é um shopping e grande demais pros meus 15kg nas costas. descendo as escadas da praça de alimentação perdi o degrau e torci o pé; só não rolei escada abaixo porque já estava nos últimos degraus mesmo. levei foi um tombão mei torto. duas pessoas me arrumaram gelo e troquei meu tempo de almoço por vinte minutos segurando gelo no tornozelo. capow.

aí os 15kg viraram uns 30 mas devagar consegui chegar no embarque. comprei um lanche sem vergonha e um pão de mel para comer no caminho. 13h30 saí num ônibus todo moderninho da Nacional Expresso com destino a Uberaba, onde mora minha prima querida. (a ironia foi o médico recém-formado fazendo residência em ortopedia que foi conversando comigo boa parte do caminho.)

e eu que tenho muita bagagem.

e eu que tenho muita bagagem.

aí estava praticamente em casa, com direito a prima me buscando de carro na rodoviária. tanto que agora estou me sentindo até mei resfriada. domingo vamos conhecer os dinossauros de Uberaba (aguardem fotos) e segunda-feira pegamos estrada rumo a São Paulo, com uma parada estratégica em Atibaia para deixar os animais (uma pitbull, uma salsicha e dois gatos insanos) na casa da minha tia.

coisas estranhas acontecem na casa da minha prima.

coisas estranhas acontecem na casa da minha prima.

finalmente Alto Paraíso de Goiás

continuando a saga dos ônibus, algumas imagens do caminho no ônibus “convencional” que nos levou ontem de Brasília a Alto Paraíso de Goiás:

tecnologia é tudo.

tecnologia é tudo.

gambiarra para ouvir música junto.

gambiarra para ouvir música junto.

estrada sem fim.

estrada sem fim.

paisagem.

paisagem.

um belo porta-óculos.

um belo porta-óculos.

não foi de todo mal viajar um pouco num ônibus que não fosse com ar condicionado congelando a alma (ainda mais agora que estou sem minha blusa quentinha). numa das paradas em rodoviária (claro que ele parava em todas as cidades do caminho), o motorista comprou uma fatia gorda de queijo e mui gentilmente nos ofereceu um pedaço. foi comendo alegremente estrada acima (na verdade a impressão é que a viagem foi feita 70% do tempo em primeira marcha ladeira acima).

cinco horas de viagem.

chegamos por volta de oito da noite. a dona do Hostel Catavento mui solícita nos buscou na rodoviária. o albergue fica meio afastado do centro mas é caminhada de 15 minutos (com uma ladeira). descansamos numa cama grande e quentinha depois de duas noites dormindo mei torto em poltrona de ônibus. ufas.

hoje amanheceu frio e chovendo e ficou frio e chovendo praticamente todo o dia. bom para ficar à toa, ainda mais aqui no albergue que tem gatos, internet e vários cantinhos aconchegantes.

logo de manhã o Fabio se acomodou no camping Eco Nóis para fazer alguns dias de semi-wwoofing.

casinha do Fabio montada.

casinha do Fabio montada.

quintal do Fabio.

quintal do Fabio.

Fabio tem a barraca só para ele.

eu fiquei no albergue e vou trocar uma ajuda de três horas diárias por um descontão na hospedagem. aproveitar as tardes para escrever.

meu vizinho.

um dos meus vizinhos.

outro vizinho.

outro vizinho.

vista nublada. área comum do albergue.
minha casinha por fora.

minha casinha.

minha casinha por dentro.

minha casinha por dentro.

tem ainda as trilhas para as cachoeiras ainda que a maioria precise carro (duas delas só precisa boa vontade). a verdade é que meus joelhos ainda não estão de todo recuperados das trilhas da Chapada Diamantina e o Fabio ainda sofre um pouco para vestir as botas (hoje ele testou uma tática ninja multimeias e parece que ficou melhor).

mas uma coisa de cada vez. bom é conhecer os lugares com calma. (menos Brasília. Brasília é bom de conhecer em duas horas e depois sair correndo de lá.)

passagem por Brasília

enfim chegamos de manhã em Brasília. depois de tanto tempo de cidade com seis mil habitantes, cidade grande parece cenário de filme distópico. a rodoviária em que o ônibus chega ainda é toda bonitona e limpa e grande e árida, mas não tem um banco senão as cadeiras das lanchonetes.

tinha ônibus saindo para Alto Paraíso 14h30 e depois só 21h. o primeiro pela rodoviária central (o terminal urbano) e o outro daquela rodoviária mesmo. o problema era que eu ainda tinha que resolver a epopeia CAIXA e não dava para ter certeza de que ia dar tudo certo em tempo para o ônibus da tarde. o jeito foi deixar as malas no guarda-volumes e tomar o metrô para a rodoviária central (estação central do metrô). dali tinha uma Caixa no shopping ao lado. nunca pensei que eu estaria fazendo fila na porta do banco às oito e meia da manhã.

mas pois.

deu tudo certo, fui das primeiras a ser atendidas e ainda eram 10h30. o jeito era aproveitar que estávamos ali no miolo de tudo e dar uma volta (uma longa volta) por esse monte de obra do Niemeyer.

(perdoa as fotos sem vergonha de celular; a câmera de verdade tinha ficado no guarda-volumes.)

vista da rodoviária central.

vista da rodoviária central.

coisas espaciais.

coisas espaciais.

mais coisas espaciais.

mais coisas espaciais.

Olivia de mau humor em Brasília.

Olivia de mau humor em Brasília.

aquele troço cheio de pontas.

aquele troço cheio de pontas.

coisa espacial (museu) vista de perto.

coisa espacial (museu) vista de perto.

bem-vindo a Brasília: terra vermelha e distâncias.

bem-vindo a Brasília: terra vermelha e distâncias.

uma parada no Itamaraty para visitar o amigo diplomata.

uma parada no Itamaraty para visitar o amigo diplomata.

aquele trem que costuma aparecer na televisão.

aquele trem que costuma aparecer na televisão.

é, ele mesmo.

chans.

a volta foi debaixo de um sol cruel e a distância pareceu dobrada. meu amigo diplomata já tinha achado bem maluco que a gente tivesse ido andando desde a rodoviária central até ali. Brasília é uma cidade árida; não sei se pelo excesso de asfalto ou por essas distâncias desmedidas, as avenidas largas, essa terra vermelha. ou tudo isso.

sei que eu estava querendo ir logo embora dali.

ainda perdi minha blusa quentinha (de usar no ar condicionado desses ônibus de madrugada).

deu tempo de comprar a passagem para o ônibus das 14h30, voltar para a rodoviária interestadual, almoçar por ali, pegar as malas e tomar o metrô outra vez de volta à rodoviária central. e pensar que precisava voltar logo para uma cidade com menos de dez mil habitantes.

Olivia não vê a hora de ir embora (claro que o ônibus atrasou).

Olivia não vê a hora de ir embora (claro que o ônibus atrasou).