olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

tag: purmamarca

amigos e voltas em purmamarca

porque meu plano ao tomar a excursão era uma parada mais ou menos estratégia em Purmamarca e depois seguir direto a La Quiaca, na fronteira com a Bolívia, para cruzar a fronteira e resolver a questão do visto que vencia no 10 de outubro, voltar e ir baixando pela quebrada de Humahuaca parando onde deveria ter parado na ida.

né?

aí que em Purmamarca conheci Barbara uma menina da província de Buenos Aires (porque não pode dizer que é portenho que eles que são da província ficam bravos e no soy porteño etc) que está subindo pra Bolívia e disse que vamos parar em Tilcara e dá tempo porque o trem dela sai dia 8 então se vamos juntas necessariamente chegamos antes do 10. estava também Juan outro de Buenos Aires (não-portenho) que seguia pra Iruya.

Juan e Barbara num dos milhões de mirantes que se pode inventar nas costas do povoado.

Juan e Barbara num dos milhões de mirantes que se pode inventar nas costas do povoado.

me convenceram.

fiquei então duas noites em Purmamarca, o que significou um dia inteiro pra contornar o cerro de los siete colores aos pés do qual está localizado o povoado. seguimos pelo paseo de los colorados, subindo, parando, tomando mate, vendo a gente passar. que lugar sensacional.

mirante primeiro.

mirante primeiro.

paseo de los colorados.

paseo de los colorados.

ou, como escreveu Cortázar num dos contos de História de cronópios e de famas, um lugar absurdo. inclusive tinha ali uma plaquinha numa loja de artesanatos que dizia PURMAMARCA DESTINO ABSURDO Julio Cortázar. pareceu pertinente.

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eu pra caminhar coca na bochecha porque o pique vai falhando nessa de passear a 2500 metros de altitude (que convenhamos não é grande coisa mas acho que estou ficando velha). a gente vai acostumando porque o gosto não é assim uma coisa incrível.

porque veja que depois à tarde, depois de cruzar com nossa nova roomate uma francesa que precisava voltar pra Jujuy pra sacar plata, seguimos pro outro mirante do povoado, que fica ali do outro lado da estrada, no cerro morado. e dessa vez eu não levei as folhas de coca.

a vista: sensacional.

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o fôlego: impossível.

e nem tanto o fôlego, mas qualquer coisa que se remexe no estômago e a gente que é de menos de mil metros de altitude não aprendeu como explicar. aqui eles tem uma palavra pra essa sensação que engloba miles de sensações variadas: apunarse. que é subir à puna, ou seja, à altitude. uma leveza da cabeça com qualquer movimento mais rápido, uma tontura. e isso ali no topo do morro, com aquela vista linda e colorida e um precipício e ai se minha mãe me visse ali.

oi, mãe!

oi, mãe!

caminhamos pelo topo do morro até o vento frio e a puna apertarem, e descemos devagarzinho, cruzamos a rodovia e de volta ao centro compramos tortilla de jamón y queso (uma massa de pão recheada que fazem numa grelha montada na calçada e vão assim revirando com a mão mesma, que inclusive é a mesma mão que maneja o dinheiro mas ok, vamos criando anticorpos). também compramos iogurte e frutas pra mais tarde quando voltasse a incomodar a fome.

e no quarto de volta ao hostal DON TOMÁS com a francesa fizemos planos de seguir até Iruya e reencontrar Juan e era aniversário dele dia 5 de outubro e ia ter festa no povoado da virgem del Rosário e tudo mais; isso pra antes de tomar o rumo da fronteira (na verdade o plano era matar um tempo em Tilcara e dar uma volta por toda a quebrada desde lá, mas quando eu saí do banho os planos já eram outros e fui convencida de que eram bons planos).

excursão: san antonio de los cobres, salinas grandes e chegada em purmamarca

mais uma vez: wooosh.

saí de San Lorenzo um fim de dia, parei num hostel em Salta pra uma noite e fui atrás da excursão. reservei no lugar em que a moça me tinha sido mais simpática, já que os preços são praticamente os mesmos e alguns mais baratos são um pouco suspeitos.

no dia seguinte a excursão saía às sete da manhã (começam essa hora a buscar a turma nas hospedagens) e como me buscaram primeiro fiquei com um lugar na frente eba eba. nada mal porque muitas curvas. milhões de curvas.

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porque San Antonio de los Cobres está a 3700m de altitude e aí que, né, tem que subir muita montanha no rumo à puna, esse espaço de altura entre a pré-cordilheira e a cordilheira que ocupa uma área enorme de Catamarca, Salta e Jujuy. por aí ficam um monte de salinas (nenhuma delas como Uyuni, na Bolívia, mas ok) e alguns povoados cinzentos de pessoas cinzentas com a pele maltratada pelo clima.

o caminho que é lindo. porque o micro-ônibus se mete primeiro na quebrada del Toro, seguindo o caminho do trem, e quebrada é sempre esse vale extremo com um rio metido entre paredões ou encostas muito inclinadas cheias de cardones.

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os cardones, no caso, que existem até mais ou menos 3500m de altitude, e aí quando desaparecem a gente sabe que chegou à puna.

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San Antonio, enfim, um pueblo de puna. plano, cinzento, frio, seco, meio triste. mulheres que te metem miniaturas de lhama na cara dizendo llama llama llama. almoçamos aí e eu provei uma empanada de carne de lhama. depois ainda comprei dois alfajores de um peso.

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entre San Antonio e as Salinas Grandes uma interminável estrada de terra e pedra (rípio) com direito a pneu estourado e parada pra troca com vista às salinas ao fundo.

aí que as salinas mesmo, bueno, é lindo e tudo, mas acho que eu já fiquei marcada por Uyuni e não achei grande coisa. é uma parada de trinta minutos e bora seguir pela estrada.

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passamos pelo ponto mais alto do percurso, a 4200m de altitude, com parada pra foto e vaquinhas ao fundo (não eram lhamas dessa vez, ou eram lhamas disfarçadas de vaquinhas), e depois de algumas curvas uma última parada na estrada antes de começar a descer a cuesta de Lipán que: wooosh.

linda de ver do alto e infinita pra descer em zigue-zague. embora também: linda pra ver enquanto descendo em zigue-zague. como tem montanha nesses lados da Argentina.

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a última “reta” do caminho de muitas cores até chegar a Purmamarca, lar do cerro de los siete colores e meu destino final. um povoadinho de uma dúzia de ruas metido entre montanhas coloridas por todos os lados (por TODOS OS LADOS) com casas de adobe e tudo (menos os morros) numa mesma cor de terra. pra fazer contraste, na praça, tem umas dezenas de banquinhas de roupas e panos muito muito coloridos. deixei a turma da excursão e fui procurar hospedagem.