olivia maia - escritora desterrada.

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semana estratégica

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o plano inicial era (formulação que já se repete nesses relatos) ficar uns quatro ou cinco dias em Cafayate, aproveitar que já conheci bem o lugar, que o hostel é simpático e barato e tem empanadas geniais e vinhos por todo lado; aproveitar pra adiantar bastante trabalho de revisão, publicar fotos e relatos pendentes (vejam que obviamente parte do plano funcionou) e organizar um pouco a cabeça antes de seguir pra uma nova etapa da viagem.

estava já três noites e veio a dona do hostel me sugerir que eu desse uma ajuda, ficasse cuidando do hostel à tarde e à noite, que fosse às paradas de ônibus convencer gente a ir ao hostel; aí não pagava a hospedagem, ganhava o almoço e podia ficar na área comum trabalhando.

topei.

meio chato ir às paradas de ônibus e encher as paciências dos mochileiros, mas dá pra tocar o foda-se um pouco e simplificar com ei, tenho esse hostel, que tal? não? ok, suerte. que não dá pra levar a coisa toda muito a sério. pior ainda é ficar fazendo concorrência com os outros dois ou três que fazem o mesmo, um deles até bastante simpático e outro deles até bastante cuzão (ajuda o tiozinho que tira as malas do bagageiro e fica com toda a gorjeta).

mas bom porque eu podia tomar uma cerveja ou um vinho à noite enquanto conversava com a turma e estava trabalhando. outra: também não posso levar muito a sério se fico quase todo o dia de guarda em troca de uns teóricos 70 pesos diários.

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thibaut, meu companheiro de vinho.

último dia inclusive comprei um vinho sem rótulo por indicação do rapaz do outro hostel que me fazia concorrência na parada de ônibus (o simpático, no caso) e junto de um argentino de Rosário e depois também de um alemãozinho com cara de David Luís (e dezenove anos) matamos a garrafa com um resto de corn flakes que fez as vezes de aperitivo.

até esse último dia ainda não sabia se ia tomar o ônibus na segunda-feira com rumo a Santa María ou se ia direto a Belén, ainda mais porque toda gente dizia que que vas a hacer en Santa María?! como se parar naquele lugar fosse a mais louca das atitudes. depois pensei no hostal com piscina que havia encontrado na internet e resolvi que não podia ser tão estúpido querer um pouco de água depois de uma semana de 35 graus todas as tardes.

aventuras pelo rio colorado

nos juntamos numa manhã de domingo que por acaso era também o dia das mães: Pablo o portenho, Sílvia a espanhola, Charlie a francesa, e eu.

tomamos um remis até o camping do rio Colorado (são 6 km em subida e o plano era voltar caminhando) e topamos ali com um dos guias querendo cobrar 30 pila por cascada pra nos levar pelas cinco primeiras cachoeiras. já sabíamos que as primeiras são uns chorinhos de água e ele disse que sim, isso incluía duas grandes. ainda assim era muito caro e ele disse que 125 por pessoa.

sei que ao final Charlie disse que pagava 60 e o guia propôs 70. aceitamos.

ele seguiu na frente feito um cabrito saltando as pedras e subindo os morros. paramos num miradorzinho e começamos a seguir o rio.

de fato as primeiras cachoeiras são mei sem graça, mas o rio é uma lindezinha: uma água cristalina, às vezes esverdeada, e GELADA. o dia anterior tinha feito um calor monstro mas aquela manhã ia ameaçando nublar e os planos de se jogar na água foram minguando conforme seguíamos, e principalmente porque a água vai ficando cada vez mais fria quando mais se sobe.

o caminho a princípio parecia tranquilo, mas logo precisamos passar por umas pedras meio inclinadas e a Sílvia foi ficando mei nervosa porque vertigem e tudo mais. o guia garantia: agora o caminho começa a ficar um pouco mais complicado.

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pois.

era uma de escala pedra, se agarra na pedra, se mete pela pedra. quando chegamos na última cachoeira do dia eu estava com fome e queria aproveitar um pedacinho de pedra plana pra fazer um piquenique ali mesmo, mas a perspectiva de precisar escalar umas pedras pra continuar o caminho estava deixando a turma mei ansiosa.

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vencemos um trechinho estreito e inclinado até o ponto da escalada e mandamos o Pablo na frente porque era o mais gordinho e se passasse no meio daquelas pedras era porque nós também passávamos.

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enfim alguns minutos depois estávamos todos ali em cima pro esperado piquenique.

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o caminho de volta foi mais tranquilo, por trás do morro, em descida. nem deu muito pra cansar. só pra forçar o joelho mesmo.

a turma costuma ir atrás das cachoeiras sem guia e talvez seja mesmo possível, mas deve ser bem complicado. mais complicado do que conseguir contornar os guias insistentes na entrada, porque eles ficam lá de cão de guarda botando medo na turma. vez ou outra alguém se perde. mas no fundo o grande lance é seguir o rio (e seguir em frente quando o caminho olha pra você e você pensa: não deve ser por aqui).

(ou seja: mei complicado.)

(e mui divertido.)

voltamos num remis que nos parou no meio da caminhada. Charlie tinha que pegar o ônibus das 18h pra Salta e na verdade acabamos chegando de volta ao centro de Cafayate antes das 16h.

de volta a cafayate

a quebrada de las flechas é um troço incrível.

pra se sentir num episódio de Doctor Who.

parecem dunas, pela cor e a cara de areia, mas dunas com formas, como se cuspidas das profundezas da terra em diagonal; e assim ficaram, apontando aos céus.

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alguns quilômetros depois o ônibus sai da quebrada e o cenário volta a ser o vale à esquerda e a estrada estreita adiante.

dessa vez não tinha ninguém pra me oferecer hostel na saída do ônibus, que é pra dizer que ninguém espera muito mochileiro chegando de Angastaco pr’aquelas bandas. toquei pro hostel Backpackers onde tinha ficado com a Andressa da outra vez e fui recepcionada pelo famoso Mudo, marido da Emma, a dona que eu tinha conhecido antes.

fiquei no mesmo quarto e já me meti em conversa alheia enquanto três meninas discutiam o percurso rumo ao norte do norte: uma argentina, uma mexicana e uma espanhola.

ao final acabei arrastando a espanhola, chamada Sílvia, à casa de la empanada, que é basicamente uma das melhores empanadas do universo, e tomamos uma cerveja mais ou menos gelada. depois ainda o tiozinho que apareceu pra fazer música ao vivo tentou cantar Samba para olvidar (minha nova música favorita) e falhou miseravelmente porque não sabia a letra (eu também não sei).

enfim enfim. me gusta Cafayate.

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o povoado já me pareceu mui simpático à noite; uma praça grande, uma igrejinha, um cinema, meia dúzia de ruas. pela manhã todo verdinho ensolarado claro que ainda mais lindo.

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trabalhei um pouco de manhã e caminhei à tarde; essas ideias tortas de turista que não sabe que a hora da siesta é pra se meter debaixo de uma sombra e esquecer do mundo. segui a indicação do rapaz da hostería e alcancei o rio Angastaco, praticamente seco, e segui na direção da rodovia. queria subir ao hotel abandonado, um pedaço de construção inacabada que já se vê de qualquer ponto do rio por ali.

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foi caminhada interminável mais pelo sol e pelas pedras e areia, mas enfim cheguei ao lado do morro em que está o hotel, e perguntei a um pastor de cabras sentadinho num pedaço do morro como subir.

ele me indicou o caminho e depois todo encabulado (era um senhor mais velho) disse que pensou que eu era um rapaz.

fui subindo até a plataforma onde começaram a construir o elefante branco (e laranja e vermelho). a vista mui linda e nenhum fantasma. ao menos não àquela hora, que obviamente fantasmas também devem dormir a siesta.

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dali se vê bem o caminho do rio e o começo do que é a quebrada de las flechas, no caminho a Cafayate pela ruta 40. um morros cinzento e cheio de pontas inclinadas como setas. à esquerda mais morro atrás do povoado, metido e escondido entre árvores depois de um terreno de vinhedos.

voltei pela rodovia e no meio do caminho consegui uma carona com uma senhora numa caminhoeta que me deixou na porta da hostería.

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no dia seguinte fui mais esperta e fiz a caminhada pela manhã: segui à igreja velha, às costas do povoado, e subi a um mirante atrás dela. uma subidinha mei interminável mas uma vista que valeu a pena. apesar do sol o vento estava forte a agradável e eu fiquei por ali sentada e lamentei um pouco que o sol estava contra e essa poeira de clima seco não deixava fotografar a vista em todo seu esplendor etc. venham vocês a Angastaco, enfim.

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porque também dali se vê uns pedaços do que vai ser a quebrada de las flechas mas àquela hora tudo mui cinzento e pouco nítido. ainda à direita outros morros mais próximos todos com esse mesmo look alien lunar. aliás, todo o povoado está metido entre esses morrinhos arenosos com formas estranhas.

é um povoadinho minúsculo e simpático, com vistas lindas pra todos os lados que os olhos alcançam. infelizmente um lugar de passagem, um pouco pelas condições da estrada e também porque de fato estrutura de turismo não tem muita além da hostería, duas hospedagens do tipo casa de família e uns quatro restaurantes.

tinha comprado a passagem pras quatro da tarde porque queria um horário em que pudesse ver o caminho. deu tempo de voltar da caminhada, tomar um banho e me acomodar na varanda da hostería usando a internet del pueblo pra continuar atualizando a vida online.

entre cachi e angastaco

… não existe ônibus.

ou: de Cachi existe um ônibus a Molinos.

não existe ônibus entre Molinos e Angastaco.

tomei com Néstor e Ana a linha que ia a Molinos; dessas que vai parando em todos os povoadinhos, vendendo o jornal, buscando as crianças na escola e levando pão pros velhinhos que moram na beira da ruta 40. e tudo caminho de pedregulho. curvas, muitas curvas.

o caminho é lindo por uma borda dos Calchaquíes e aquele cordão de montanha do lado esquerdo. vai um monte de gente em pé e o caminho de uns 60 km leva mais de duas horas pra ser percorrido. quando enfim nos metemos em Molinos o motorista mui engraçadinho (ele ia dando pão doce pras crianças menores que desciam) anunciou: Remolinos!

a Ana estava hecha mierda pelas curvas. eles iam pegar carona até Angastaco e eu pensei primeiro em ficar uma noite ou duas por ali, mas aí não encontrei hospedagem barata e voltei pra encontrá-los ainda perto da praça enquanto a Ana se recuperava.

seguimos juntos o quilômetro e meio de volta à ruta 40 e nos acomodamos embaixo de uma sombra.

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e esperamos.

esperamos uma eternidade.

aí passou a primeira caminhoneta e não parou.

então esperamos mais um pouco.

até que esperamos três horas e cansamos de esperar.

Néstor voltou ao povoado sozinho pra ver possibilidades de transporte e voltou com a proposta de um rapaz que tinha uma caminhoneta e nos cobrava 300 pesos; 100 cada um. podia sair às sete porque antes tinha que levar uma senhora não sei onde.

voltamos à praça e ficamos ali na sombra tomando mate e água saborizada pomelo.

quando finalmente saímos de Molinos já tinha chegado a noite, e não vimos aquele trecho de 40 km da ruta 40, igualmente cheio de curvas, ainda mais estreito e ainda mais alucinado. não à toa que não há ônibus e não à toa que os remis cobram 400 pesos; no final das contas ficamos com a impressão que os 300 pesos nos saíram baratos.

chegamos tarde; deixamos as coisas e a Ana na entrada da hostería Angastaco (ao lado da praça) e rodamos as cinco ruas do povoado pra averiguar preços em outros lugares. no final das contas a hostería tinha um preço bem razoável, e ficamos por ali, saímos pra comemorar a chegada com uma pizza e uma cerveja e capotamos.