olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

tag: téo

coisas que a gente vai escrevendo

estou com dois livros começados. achei que ia começar um, mas acabei me interessando mais pelo outro. é uma espécie de continuação do TRÉGUA (mais ou menos).

quer dizer, são os mesmos personagens e tem uma continuidade temporal, mas não é continuação de nada. estou tentando mesmo entender o que aconteceu com o Téo entre o final do outro livro e o começo desse, porque ele anda muito mais rabugento do que deveria estar. e a gente que fica pensando que quando acaba o livro as coisas todas se resolvem. vai vendo que só arrumei mais encrenca para ele e para a Elisa também.

mais ou menos assim: a autora encerra o livro e quando vai abrir a porta para ver como andam aqueles personagens tem que sair correndo para não apanhar. um troço muito perigoso.

(no mais, bom natal para quem curte natal, e boas fugas para quem se esconde dele. se esqueceu o presente daquele parente distante, da telefonista da firma, da cunhada, do irmão mais velho ou se quer fazer uma surpresa econômica para quem nem está esperando presente, olha aqui uma sugestão. talvez esteja muito em cima da hora para os correios, mas depois é só inventar uma desculpa para o atraso e dizer que está incentivando a literatura nacional.)

por se livrar desses criminosos homicidas que moram em mim

aí que no final das contas você encontra uma solução sem precisar apagar aquelas últimas seis páginas e mudar toda a cronologia inicial da narrativa, e ok, temos um começo.

então escreve mais uma página e vai ver uns quatro episódios de castle que é para distrair um pouco e deixar a ideia assentar.

31-jul-teo2

dois livros começados (o outro é esse aqui). enquanto os personagens do primeiro vão virando gente na minha cabeça, vou tocando esse segundo, que já tem personagens muito conhecidos e todos muito gente, gente até demais.

outra vez

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escreve 13 páginas, apaga 6, escreve mais 15, apaga 9.

solução: renomear o arquivo, guardar o que pode ser útil, recomeçar.

conclusão: não comece a escrever enquanto não souber muito bem que cazzo você está escrevendo.

um aniquilamento

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Téo passou a mão nos cabelos para penteá-los para frente, como sempre fazia por hábito ou vício ou o terror porque as entradas cada vez mais aparentes. Quis voltar a atenção ao jogo de futebol e deixou um pouco o silêncio com a voz do narrador e o murmúrio da torcida, ainda que jogo de time menor e as arquibancadas quase vazias. Manobrava a comida até a boca e desajeitado segurando os palitinhos equilibrando o prato bem próximo do rosto, um tanto ausente enquanto permitia que escapasse a concentração e na cabeça era outra vez o estádio no segundo jogo depois da primeira vitória por quatro a zero naquela final da segunda divisão do campeonato argentino, era o primeiro gol e Gabriel que não se continha de tanta alegria, ou depois o primo Pablo que por vezes lhe agarrava o braço desesperado e desembestava a xingar o juiz com todos os palavrões que conhecia. O gol do Atlanta no segundo tempo terrível momento de tensão: juntar as mãos na frente do rosto esquecer-se de si esquecer que havia mundo que havia vida fora do estádio que tudo seguiria seu rumo passados mais alguns minutos mas o tempo suspenso os minutos intermináveis. Sentiu que o atacava um frio na espinha. Olhou os pelos do braço se eriçarem e riu consigo porque parecesse exagero, mas.

— É um aniquilamento — disse, inclinando-se para pôr o prato na mesa de centro, os olhos ainda muito fixos no jogo na televisão. Ouviu de Elisa um murmúrio. — Certeza de pertencer: você e milhares todos um só grito, uma só vontade, uma só camisa. Ninguém se importa com quem você é ou deixa de ser e estar ali é um pouco também não ser coisa alguma, não ser nada nem ninguém e se deixar dissolver em alguma coisa maior, sentir escapar escorregar das costas o peso do mundo. Saber que ali é seu lugar, saber que aquilo é o verdadeiro pertencimento, que você é aquilo, que você.

Virou-se e Elisa o encarava e lhe sorria, a cabeça apoiada no encosto do sofá desinteressada na partida de futebol. O silêncio era o ruído suave da chuva incansável e a brisa gelada que entrava por fresta muito estreita da janela. Téo devolveu o sorriso, um pouco cansado. As palavras escapavam, insuficientes e ofendidas.

— Gritar o gol é saber o seu próprio grito desaparecido no grito de todos os outros, desaparecer no grito dos outros e se diluir no grito dos outros e ser também esse grito disforme que dura um ou dois minutos antes de se transformar em cantoria renovada. Nunca senti alegria mais plena, mais verdadeira, mais pura. É aniquilamento, entrega completa, aceitar a si mesmo e a tudo que existe em volta porque a arquibancada treme sob seus pés e você está com os olhos muito abertos acompanhando a bola e a troca de passes e aquilo é tudo que importa. Há nisso uma espécie de plenitude, e você faz parte dessa certeza e. Essa certeza de fazer parte, Elisa. Você entende isso?

trecho de TŔEGUA, o romance que acabei de escrever.

(outros posts sobre o livro.)