olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

tag: trabalho

coisas que você aprende trabalhando com crianças, parte II

— pró, hoje tem prova?
— não, hoje tem desafio!
— OBA!

(era prova.)

nunca peça para ajudar a limpar a sujeira que eles deixaram no chão depois do lanche (mas não fui eu!), diga: atenção! vou cronometrar aqui pra ver em quanto tempo vocês limpam o gramado sem deixar nem uma bolinha cheetos, nem um plástico de bala, nada! semana que vem vou cronometrar de novo pra ver se vocês conseguem quebrar o recorde!

coisas que você aprende trabalhando com crianças

você jamais diz “vamos fazer uma roda”. você diz “todo mundo dá as mãos, vamos ver se vocês conseguem fazer uma roda bem redondinha”.

você não diz “vamos agora até o pátio sem correr nem empurrar o colega”. você diz “todo mundo faz uma fila aqui na minha frente e dá as mãos”.

você tampouco diz “formem aqui duas fileiras”. você bota dois alunos um do lado do outro e manda o resto ficar atrás com a mão no ombro do coleguinha da frente.

precisando de revisão de texto ou leitura crítica?

aproveitando que começa o ano e a gente vai fazendo planos e inventando projetos, aviso os leitores e amigos que estou fazendo revisão de texto (literário, acadêmico, institucional, publicitário etc) e leitura crítica de texto literário.

trabalho com revisão de texto desde 2007 e mesmo durante a viagem fiz algumas revisões de textos acadêmicos e literários. agora que estou enfim devidamente instalada num só lugar tenho outra vez disponibilidade (e internet própria, o que sempre ajuda). pode contar comigo pra resolver qualquer encrenca de texto.

aqui nesta página você pode conhecer meu trabalho e experiência e pedir um orçamento.

se não estiver precisando de nada disso, avise os amigos acadêmicos e escritores: manda este link pra eles.

escritor é um bicho estranho

escritor é um bicho estranho.

escritor trabalha primeiro, e depois torce pra, talvez, ser remunerado.

escritor na internet é ainda mais estranho: trabalha trabalha trabalha loucamente, de graça, e de vez em quando pede uns trocados; se tanto, fica esperando que todo esse capital simbólico se transforme em um convite pra escrever e ser pago por isso.

muitas vezes o que recebe são convites pra trabalhar de graça.

mas essas pessoas pra quem ele trabalha de graça estão ganhando alguma coisa?

ou é porque estão trabalhando de verdade?

mas na maioria das vezes o escritor segue escrevendo; segue trabalhando em troca de capital simbólico; segue trabalhando um day job qualquer que ponha comida na mesa e que muitas vezes serve também pra lhe tirar o fôlego e a vontade de fazer o trabalho que ele realmente queria estar fazendo.

não tenho dúvida de que a lógica atual do trabalho é torta, mas que estranho pensar que, quando se trata de um escritor, tudo bem que essa lógica não se aplique. tudo bem que ele não receba nada pra trabalhar, que ele tenha que ter dois trabalhos, um que paga e outro que… não é nem um trabalho, afinal. todo mundo sabe escrever, não é mesmo?

que mundo louco esse que manda o escritor trabalhar e não quer pagar o escritor pelo trabalho que ele produz.

e que vamos dizer do artista?

o que é o mundo sem a arte?

sem a literatura?

mas a gente segue trabalhando, de graça, por amor, pela necessidade de conectar-se, de expressar-se, pelo capital simbólico que às vezes se transforma em capital financeiro e ajuda a pagar as contas, mas nem sempre.

quase nunca.

porque eu, por mim, trabalharia de graça mesmo; escreveria pro resto da vida sem nunca pedir nada em troca. não fosse o mundo exigir que eu pague por teto, comida, internet.

o mundo é um lugar estranho.



se você gosta do que eu escrevo, se você gosta das minhas fotos, se você quer me incentivar a continuar escrevendo de graça, no blog e na newsletter, considere fazer uma colaboração. você pode fazer uma contribuição única de qualquer valor ou uma assinatura mensal de dez reais.

dez reais é o preço de uma cerveja. você me ajuda a pagar as contas e eu posso me dedicar à escrita com mais tempo e tranquilidade.

e mais uma vez feliz ano novo!

carta aberta ao meu (ex-)chefe

antes de mais nada, obrigada.

obrigada por acreditar em mim, obrigada por confiar em mim, sempre muito mais do que eu consegui acreditar e confiar em mim mesma.

você foi muito mais amigo do que esperava ser, por dizer que não é bem esse o meu papel e isso não é da minha conta etc. esse esforço todo para se manter longe dos assuntos pessoais alheios e tanta a capacidade para ouvir e compreender; um contrassenso. a gente bem sabe que você tenta ser chefe, mas vai ser sempre aquele que dá bronca como quem dá conselho e ordens impossíveis como quem faz um desafio: quero isso aqui na minha mesa pra já, vou terminar uma coisa em quinze minutos e já te ligo, pode ser? se vira aí, tchau. sem dar tempo de responder, sabendo que é pedido para uma semana, só para poder depois reclamar tentando se fazer de sério e poxa, você já foi mais eficiente.

não é por não te levar a sério. são poucas as pessoas em quem confio com tarefas que são de meu domínio, e você é uma delas. sou teimosa e cabeça dura, você sabe. ter a sua confiança é motivo de orgulho, é motivo para duvidar dessa decisão de ir embora, é motivo para acreditar que talvez eu devesse dar mais uma chance ao trabalho.

mas é que não é o trabalho; vê? uns dois meses antes de ir embora perguntei para uma professora que exausta fazia uma pausa e tomava um chá mate na cantina como você aguenta? porque dois cursos mais trabalho de coordenação (e duas filhas em casa). a resposta foi bem simples: ainda sobra tesão pelo que faço; o retorno compensa. não é isso? imagino que seja o mesmo com você que também esse acúmulo de cargos e funções. o retorno compensa, o trabalho faz sentido.

e, claro, pensando assim, entendo e agradeço o pedido: se confia em mim, se se sente seguro para delegar funções que tão importantes; como não? somos uma boa dupla, é verdade. são poucos os que entendem esse meu jeito meio tosco de me relacionar com as pessoas, e esse meu jeito exageradamente prático e direto que a maioria confunde por grosseria e que afinal talvez seja mesmo um pouco de grosseria (você sabe que não é por mal).

pensei muito depois que conversamos, quando você pediu calma, disse que não concordaria tão prontamente como meu outro chefe e pediu que eu repensasse minha decisão. que talvez fosse a aula; que talvez dar aula não fosse para mim, que tentei e não deu certo, tudo bem. claro. você tem razão, como quase sempre tem razão: dar aula não é para mim. estranho pensar assim, porque sempre pensei que a única coisa que me restava era dar aulas. se não sirvo para dar aulas, não devo servir para coisa nenhuma.

não sirvo para dar aulas. não é para mim.

gosto de escrever. numa função administrativa sobraria talvez mais tempo para escrever e, principalmente, mais cabeça para escrever. mas que coisa estranha essa de viver para o tempo que sobra, não?

também porque com um cargo a menos eu ia ganhar menos. aí talvez aumentar a carga horária e ganhar mais para sobreviver nesta cidade terrível. fosse para ficar por são paulo, sairia da casa da minha mãe. aí aluguel, as contas; trabalhar mais, ganhar mais? trabalhar quanto? e quanto tempo sobra?

não vou negar que essas contas todas tiveram alguma influência na minha decisão, mas isso é mera racionalização de um problema maior. o dinheiro acaba e trabalhar é inevitável. então pensei muito. porque você tem razão, você é inteligente demais. e também por ser inteligente já imaginava que minha decisão não mudaria. imaginava mesmo quando eu duvidei, mais uma vez, de mim mesma.

“você vai mesmo, né?” foi o que você disse, antes que eu pudesse responder, depois de me dar aquela semana para pensar mais um pouco. eu ia dar uma volta imensa, falar das minhas dúvidas, tentar explicar o que não faz sentido racionalizar porque afinal você tinha mesmo todos os melhores argumentos para que eu ficasse. como eu ia discordar?

não precisei.

enfim.

tudo isso era mesmo para dizer, mais uma vez, obrigada.