olivia maia - escritora e ilustradora desterrada.

tag: trégua

coisas que a gente vai escrevendo

estou com dois livros começados. achei que ia começar um, mas acabei me interessando mais pelo outro. é uma espécie de continuação do TRÉGUA (mais ou menos).

quer dizer, são os mesmos personagens e tem uma continuidade temporal, mas não é continuação de nada. estou tentando mesmo entender o que aconteceu com o Téo entre o final do outro livro e o começo desse, porque ele anda muito mais rabugento do que deveria estar. e a gente que fica pensando que quando acaba o livro as coisas todas se resolvem. vai vendo que só arrumei mais encrenca para ele e para a Elisa também.

mais ou menos assim: a autora encerra o livro e quando vai abrir a porta para ver como andam aqueles personagens tem que sair correndo para não apanhar. um troço muito perigoso.

(no mais, bom natal para quem curte natal, e boas fugas para quem se esconde dele. se esqueceu o presente daquele parente distante, da telefonista da firma, da cunhada, do irmão mais velho ou se quer fazer uma surpresa econômica para quem nem está esperando presente, olha aqui uma sugestão. talvez esteja muito em cima da hora para os correios, mas depois é só inventar uma desculpa para o atraso e dizer que está incentivando a literatura nacional.)

um aniquilamento

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Téo passou a mão nos cabelos para penteá-los para frente, como sempre fazia por hábito ou vício ou o terror porque as entradas cada vez mais aparentes. Quis voltar a atenção ao jogo de futebol e deixou um pouco o silêncio com a voz do narrador e o murmúrio da torcida, ainda que jogo de time menor e as arquibancadas quase vazias. Manobrava a comida até a boca e desajeitado segurando os palitinhos equilibrando o prato bem próximo do rosto, um tanto ausente enquanto permitia que escapasse a concentração e na cabeça era outra vez o estádio no segundo jogo depois da primeira vitória por quatro a zero naquela final da segunda divisão do campeonato argentino, era o primeiro gol e Gabriel que não se continha de tanta alegria, ou depois o primo Pablo que por vezes lhe agarrava o braço desesperado e desembestava a xingar o juiz com todos os palavrões que conhecia. O gol do Atlanta no segundo tempo terrível momento de tensão: juntar as mãos na frente do rosto esquecer-se de si esquecer que havia mundo que havia vida fora do estádio que tudo seguiria seu rumo passados mais alguns minutos mas o tempo suspenso os minutos intermináveis. Sentiu que o atacava um frio na espinha. Olhou os pelos do braço se eriçarem e riu consigo porque parecesse exagero, mas.

— É um aniquilamento — disse, inclinando-se para pôr o prato na mesa de centro, os olhos ainda muito fixos no jogo na televisão. Ouviu de Elisa um murmúrio. — Certeza de pertencer: você e milhares todos um só grito, uma só vontade, uma só camisa. Ninguém se importa com quem você é ou deixa de ser e estar ali é um pouco também não ser coisa alguma, não ser nada nem ninguém e se deixar dissolver em alguma coisa maior, sentir escapar escorregar das costas o peso do mundo. Saber que ali é seu lugar, saber que aquilo é o verdadeiro pertencimento, que você é aquilo, que você.

Virou-se e Elisa o encarava e lhe sorria, a cabeça apoiada no encosto do sofá desinteressada na partida de futebol. O silêncio era o ruído suave da chuva incansável e a brisa gelada que entrava por fresta muito estreita da janela. Téo devolveu o sorriso, um pouco cansado. As palavras escapavam, insuficientes e ofendidas.

— Gritar o gol é saber o seu próprio grito desaparecido no grito de todos os outros, desaparecer no grito dos outros e se diluir no grito dos outros e ser também esse grito disforme que dura um ou dois minutos antes de se transformar em cantoria renovada. Nunca senti alegria mais plena, mais verdadeira, mais pura. É aniquilamento, entrega completa, aceitar a si mesmo e a tudo que existe em volta porque a arquibancada treme sob seus pés e você está com os olhos muito abertos acompanhando a bola e a troca de passes e aquilo é tudo que importa. Há nisso uma espécie de plenitude, e você faz parte dessa certeza e. Essa certeza de fazer parte, Elisa. Você entende isso?

trecho de TŔEGUA, o romance que acabei de escrever.

(outros posts sobre o livro.)

primeiro capítulo de TRÉGUA

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buena. vai aí o primeiro capítulo de TRÉGUA, o livro que acabei de escrever, filhotinho. ainda estou mexendo aqui e ali, põe vírgula tira vírgula etc, mas na essência é isso mesmo, e gosto dele. na verdade, estou me preparando para voar mais longe. ímpetos terríveis de voar mais longe.

que tal? diz aí, hein hein. e espalha.

Não prestava atenção no jornal aberto sobre a mesa e na manchete sobre briga de torcidas estampada na primeira página da folha de esportes, mas foi qualquer gesto do homem de cavanhaque e gravata vermelha que com um guardanapo limpava os lábios pela terceira ou quarta vez e continuava apoiado no balcão, olhando para os lados, distraído. Qualquer gesto e atacava-o a memória, súbito mal-estar, terrível necessidade de sair dali e se ocupar com outra coisa. Que era também — pensaria em retrospecto, porque tão mais fáceis todas as análises em retrospecto — detectar um ponto de partida, saber as frestas abertas no tempo por onde entra a memória e por onde começaram seus problemas; que fosse um gesto de limpar a boca com o guardanapo ou um envelope com fotografias recebido pelo correio na semana anterior, o primo mais novo que havia encontrado por acaso fotografias esquecidas na casa da tia ou o primo mais velho que anos antes quando casou saiu de casa e não levou consigo a caixa em que elas estavam, e então.

as epígrafes (definitivo)

Cortázar por todos os lados. justo, se pensar que a culpa por esse meu último livro é toda dele. uma overdose de Cortázar. dizer que sim, mestre, estou vendo se aprendo e faço do meu jeito. não acho que aprendi, ainda. mas estou fazendo do meu jeito, o que é um começo. daí que precisei me segurar muito para não ter cinquenta mil epígrafes. tudo era ponto de partida. mas consegui reduzir o repertório a três. a primeira numa página sozinha, que é ponto de partida MASTER. as outras duas na página seguinte, porque são os ecos.

Tudo seria como uma inquietação, uma falta de sossego, um desarranjo contínuo, um território onde a causalidade psicológica cederia, desconcertada, e esses fantoches se destruiriam ou se amariam ou se reconheceriam sem suspeitar demasiado de que a vida procura trocar a clave deles e através deles e por eles, de que uma tentativa ainda pouco concebível nasce no homem da mesma forma como outrora foram nascendo a clave-razão, a clave-sentimento, a clave-pragmatismo. Que a cada sucessiva derrota há uma aproximação da mutação final, e que o homem não é, mas procura ser, projeta ser, algemado entre palavras e comportamento e alegria salpicada de sangue e outras retóricas como esta.

Julio Cortázar
Jogo da amarelinha, capítulo 62

Quem é que tinha a perfeita consciência de si mesmo, da solidão absoluta que significa ter de entrar num cinema ou num bordel, ou em casa de amigos ou numa profissão absorvente ou no matrimônio para estar pelo menos só-entre-os-demais.

Julio Cortázar
Jogo da amarelinha

Assim, profissionalmente, assim em todos os planos; aquela que teme a violação profunda de sua vida, a invasão na ordem obstinada de seu abecedário, Hélène que só entregou seu corpo quando tinha a certeza de que não a amavam, e só por isso, para deslindar o presente e o futuro, para que ninguém subisse depois para bater à sua porta em nome dos sentimentos.

Julio Cortázar
62  Modelo para armar

do fim do livro

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283 páginas (na imagem 284 porque eu adicionei uma folha de rosto).

(e as epígrafes).

terminei de escrever o livro. em três meses. ficou lindinho.

preciso agora dar um título pro filho, mas sou péssima pra título e ainda não me veio nenhum que me agradasse de verdade. pensei em DE ESPELHOS E ECOS (e variações possíveis) ou ARQUIBANCADA (horrível). seria bom se conseguisse de algum jeito misturar a ideia de que os personagens trabalham numa agência de investigação particular com o futebol que está por todos os lados. waaah!