olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

tag: viagem

o peso das coisas

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chegamos em Lençóis com duas mochilas grandes, três mochilas pequenas e uma barraca. as mochilas tinham roupas, equipamento de camping com isolante e saco de dormir, os computadores, câmeras fotográficas, equipamento de escalada com corda de 70 metros, documentos e miudezas mais essenciais.

alugamos uma casa, passamos uma tarde na cidade de Seabra e compramos duas sacolas grandes de coisas práticas: filtro de barro, frigideira, tábua de cortar, travesseiros, uma almofada, liquidificador, balde, bacia, pano de prato, alguns utensílios de cozinha. uma amiga nos deu de presente um conjunto de roupa de cama.

fomos a São Paulo com duas mochilas pequenas e voltamos com mais outra pequena e duas grandes cheias de roupas, uns livros, eletrônicos, pastas de documentos, miudezas decorativas, material de escritório e de desenho, ferramentas, utensílios de cozinha, toalhas, roupa de cama.

pelo correio, minha mãe e meu editor enviaram alguns exemplares dos meus livros.

adotamos uma gatinha. a veterinária deu a ela uma bolinha com guizo de presente.

compramos em Lençóis um roteador, uma estante baixa de aço, uma mesa de madeira comprida pra trabalhar e dois banquinhos, uma caixa de pintura pra usar como caixa de areia de gato, um estabilizador, uma raquete elétrica pra matar moscas e muriçocas, um chapéu de palha com aba larga. ganhamos camisetas do trabalho. com dois pedaços longos de cano pvc, o suíço confeccionou uma engenhoca para prender a primeira costura antes de começar a escalada.

compramos um terreninho cheio de pedras e uma jabuticabeira, luvas pra limpar o mato com facão e enxada emprestados, arame farpado e mão de obra pra montar a cerca.

pela empresa de ônibus, minha mãe enviou uma encomenda com a casinha de transporte de gatos, uma caixa de areia de verdade, coleira, um cobertor, três pares de sapato, alguns livros, uma prancheta.

para quem se acostumou a fechar a mochila em menos de quinze minutos e sair caminhando rumo ao próximo ônibus, temos coisa demais.

você se acostuma a medir suas coisas pelo tempo que leva mudar de um lugar a outro; o peso nas costas e nos braços.

são quatro mochilas grandes, quatro mochilas pequenas, algumas caixas, a mesa, os banquinhos, a estante de aço, o filtro de água.

a mudança de casa não pode mais ser feita de uma vez; precisa um carro ou algumas viagens morro abaixo e morro acima. ou: duas viagens de carro e uma viagem com a mesa na pickup do seu Arlindo dono da loja de móveis que mui camarada quebrou esse galho pra gente.

de volta a lençóis

o ônibus sai às 10h15 desta quinta-feira.

chegamos em Lençóis na sexta-feira à tarde, casados, passaporte já devidamente carimbado pela polícia federal e RNE devidamente requerido, com o resto da casa nas costas e a ladeira de calçamento irregular da rua das Pedras pra subir. ainda não temos internet em casa, mas vamos providenciar assim que a gente chegar.

agora começa.

sobre largar tudo e ir viajar

na última edição da newsletter mandei aos assinantes um texto chamado “as duas grandes mentiras sobre largar tudo e viajar”. começa assim:

apareceram recentemente como sempre aparecem uns comentários na minha linha do tempo do twitter sobre essas pessoas que “largam tudo e saem viajando” e sobre como a única maneira de fazer isso é viver às custas dos pais ou ser de família rica e viver de renda.

nessa hora eu caio da cadeira.

daí então que me lembro do outro lado desse mito: a ideia de que qualquer um pode sair viajando, loucamente, com uma mochila de 30 litros nas costas, uma barraca da náutica e uma sandália velha nos pés, pegando carona com os caminhoneiros na BR.

recebi muitas respostas positivas e fiquei contente em saber que um texto assim podia inspirar ou dar uma força a quem estava brigando com as tais das mentiras que eu tentei desmentir. depois de uma sugestão da Aline Valek, resolvi publicar também o texto no Medium, dessa vez com fotos.

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agora o texto vai ficar estacionado por lá. você pode ler, comentar, recomendar aqui: as duas grandes mentiras sobre largar tudo e viajar. se você leu primeiro na newsletter, pode clicar pra ver a seleção de fotos que escolhi pra ilustrar o texto. se não conhece a newsletter, assine aqui!

de mina clavero a lençóis

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em Mina Clavero, na Argentina, um ano atrás.

sete de dezembro: um ano juntos, com voltas pela Patagônia, pelo nordeste brasileiro, pela Suíça e Alemanha e um pedacinho de leste europeu. quanta coisa dá pra fazer em um ano meu deus.

trilha nas Montanhas Tatra, parque nacional no sul da Polônia, em agosto deste ano.

trilha nas Montanhas Tatra, no sul da Polônia, em agosto deste ano.

deu pra passar frio em barraca na noite de verão patagônica, nadar em lago de desgelo, cozinhar com lenha porque não tinha gás, guerrear contra pernilongos na porta da barraca, tomar cerveja na praia em dia de semana, fazer amizade com os cachorros da rua, comprar passagem de avião na última hora e não dormir à noite de ansiedade, passar calor em Zurique, ter intoxicação alimentar no sul da Alemanha, visitar castelos, não entender nada nos cardápios em tcheco, aprender a pedir cerveja em polonês, escalar na Eslováquia, aprender um pouco de alemão e aprender um monte de português, esquecer um monte do espanhol.

deu pra caminhar muito, no asfalto na terra na areia na pedra e na neve, subir e descer montanhas e vulcões, se perder, inventar caminhos, gastar muita sola de sapato e criar muito calo nas mãos escalando (sem contar os arranhões e cortes e aquela queda no interior do Ceará).

deu também pra sofrer um pouco por causa de burocracia e prazo de visto e conseguir passar por cima de tudo isso.

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Quixadá, sertão central cearense, em outubro deste ano.

começamos em Mina Clavero, cidadezinha da província de Córdoba, na Argentina. fomos parar em Lençóis, interior da Bahia. dezembro de 2014 parece que foi há uma eternidade. agora que venha o próximo ano neste exercício de voltar a criar raízes, e daí vemos onde mais a gente vai parar.

primeira semana de novembro, Costa dos Corais, Alagoas

aí que Maragogi não era grande coisa, embora a praia e as piscinas naturais e toda a publicidade etc. a cidade em si era bem feiosinha.

um paraibano em Gaibu tinha mencionado uma tal Japaratinga. depois em Maragogi ouvimos outra vez o nome da boca de um tipo que queria vender passeio de barco.

o francês sugeriu seguir até Japaratinga, já que eram só mais dez quilômetros.

aí, paf: cidadezinha tranquila, ruas de paralelepípedo, praia de água verdinha, gente simpática. caminhamos por sondar preços de hospedagem e 100 reais, 160 reais… sabe onde fica a pousada do seu Manuel?, pergunto ao dono de um restaurante, lembrando o nome indicado pelo paraibano. Manuel? será que não é Marcílio? ele indica o caminho. quando chegamos, topamos com mais um dono de hospedagem ex-mochileiro. o preço do quarto, em pousadinha simpática com cozinha comunitária: quarenta e cinco reais.

vá lá que seu Marcílio não é exatamente um primor no quesito ordem da área comum da pousada, mas quarto e banheiro estão limpinhos e já estamos bem contentes.

voltamos no dia seguinte com mochilas em uma viagem de 100km que levou aproximadamente quatro horas e quatro ônibus.

ufa.

à tarde ainda conhecemos os donos de uma das agência de mergulho: um uruguaio casado com uma brasileira (Alejandro e Alexsandra). passamos bom tempo conversando com eles, e quando dissemos que estamos pensando em parar em algum lugar como aquele, os dois já têm mil sugestões de coisas que podemos fazer naquela cidade, inclusive indicando a gente pra não sei quem e não sei quem mais e posso imprimir aqui pra você um cartão de visitas etc.

não sei se o lugar pra parar é esse. não importa. tenho uma vontade terrível de ficar alguns meses em Lençóis, na Chapada Diamantina, e ver se aparece alguma coisa e me diz pra ficar. mas são esses pequenos detalhes indicando que há um caminho, e você está nele.

ou:

que aconteçam as coincidências não me surpreende.

o incrível é traçar em retrospecto o caminho que nos levou até ali, que é talvez uma forma de valorizar cada micro-passo que a gente dá, cada pequena decisão, cada mudança de ideia. o peso enorme de tudo isso no momento atual, único momento possível. que as coisas ruins são parte do caminho pras coisas boas, e vice-versa, sem parar.

e que você tenha nascido afinal é uma tremenda coincidência.