olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

A terceira carta não-enviada

Tudo me parece meio despropositado, mas minhas caminhadas agora me servem melhor do que estar preso no trânsito para pensar em você e em tudo aquilo que podia ter acontecido.

Conto escrito como trabalho final em uma disciplina da faculdade.

A terceira carta não-enviada

Tenho caminhado mais depois que destruí meu carro. Aquele acidente estúpido que me deu um braço quebrado e me estragou o joelho esquerdo.

Dia desses peguei o metrô para a avenida Paulista e comprei alguns CDs de música irlandesa, evitando com pouco sucesso aqueles artistas irritantes que você gosta; eles estão sempre expostos entre os mais vendidos e meus olhos são mal treinados para abstrair essas intervenções de marketing. E depois desci a Consolação a pé e entrei naquele bar no centro que você odeia. Aqui as pessoas sabem meu nome, o dono me chama de são-paulino porque sabe que não gosto de futebol e acho que vou passar a noite nesse buraco. Sei que você não vai estar sozinha.

Tudo me parece meio despropositado, mas minhas caminhadas agora me servem melhor do que estar preso no trânsito para pensar em você e em tudo aquilo que podia ter acontecido.

Na verdade te escrevi uma carta e rasguei, e depois escrevi outra carta e ela está ao lado do computador para ser digitada e vai continuar ali até que a faxineira pense que é lixo, tão terrível a minha letra e a folha de papel amassada. Vou passar noites assistindo a algum canal de esportes ou pesquisando na internet sobre instrumentos do folk irlandês, e você sabe muito bem onde me encontrar, se quiser.

Em caminhadas para a padaria às sete da manhã vou pensar em abolir a palavra amor de meu vocabulário para não te assustar e quem sabe mostrar que posso ser um pouco como esses homens com quem você sai e por quem você me trocou. Mostrar que também posso ser superficial e conversar sobre o Jornal Nacional, o tempo ou os melhores bares da Vila Madalena. Vou pensar em deixar de uma vez o carro no conserto e mandar trocar a porta, o pára-choque e os vidros. Para então te esperar na saída do trabalho e te ver saindo com algum almofadinha de gravata e gel no cabelo e uma cara cínica.

Depois em casa aumento o volume da música irlandesa e o gato continua deitado ao lado de uma das caixas de som. Sei muito bem o que você diria, que só escuto essas coisas porque são estranhas e o que acontece ao meu redor nunca me é o suficiente.

E fico pensando se meu nome ainda surge em suas conversas; se me tornei um ex-namorado ou então um rapaz-que-conheci.

Você não volta. Sei que deve existir alguma lógica por trás de tudo isso. Motivos e desculpas e opiniões e pontos de vista. Que diferença faz?

Acho que essas caminhadas me fazem mal, e estou sem dinheiro para arrumar o carro, gastando com imbecilidades como música irlandesa, cerveja e livros que não leio. Sei que acabou, esse amor que nunca existiu porque você tinha medo de palavras. Acabou, como o pára-choque do carro, e talvez seja minha única saída cuidar do que ainda tem conserto e pode ser substituído, e parar com essas caminhadas estúpidas que só me servem para piorar a lesão no joelho e pensar em você e em tudo aquilo que não aconteceu.

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