olivia maia - escritora desterrada. meio artista.

Quando nasce o futebol

Em 1994, a coleção de ‘cards’. Sabia decorado o nome de quase todos os jogadores. Gostava principalmente dos goleiros. Ouvia todos acusarem os frangos de Taffarel, mas via uma muralha. O jogo contra a Holanda, interminável. A final nos pênaltis: escondida atrás do sofá por não saber conter a ansiedade.

Crônica publicada na Revista Fazenda da Grama, edição 19, em maio de 2010.

Quando nasce o futebol

Eram poucas as copas do mundo em seu repertório. Quantas copas podem caber em uma só pessoa? De 1990 ficou só a televisão sendo desligada, os pais frustrados. “Acabou”.

Parecia que nunca mais haveria futebol.

Em 1994 a coleção de cards. Sabia decorado o nome de quase todos os jogadores. Gostava principalmente dos goleiros. Ouvia todos acusarem os frangos de Taffarel, mas via uma muralha. O jogo contra a Holanda, interminável. A final nos pênaltis: escondida atrás do sofá por não saber conter a ansiedade. Taffarel salvador. Roberto Baggio isolou a bola. Galvão Bueno um exagero. E então um passeio na avenida em festa nos ombros do pai, a camisa amarela e verde enorme no corpo de criança.

Depois 1998 expectativa. As ruas vazias no meio da tarde. Necessária essa decepção consciente, cicatriz rumo à vida adulta. Aprender que nem sempre se pode ganhar, mas ah! Resultado comprado, os jogadores nenhum esforço, e o juiz, e a torcida, e a França!

Então 2002 um afastamento. Mais uma copa. De todos só as críticas, a descrença (por possibilidade de se afirmar “eu sabia” no lugar de outra decepção, ou). Incertezas. Esperanças, mas menor a importância de uma porção de jogos de futebol quando necessário organizar a vida. Adolescente em ano de copa. A vitória inesperada, quê; melhor técnico, melhor campanha da seleção na história!

Mas menos convincentes os gritos de Galvão Bueno. Menos convincente o passeio na avenida em plena luz do dia e o cumprimentar os motoristas com a mão aberta pelo pentacampeonato.

Porque 2006 os sentimentos divididos. Mais outra copa. Quantas copas ainda haveria? Necessário torcer quando todos os chatos resolvem torcer contra. Desculpa para reunir os amigos em casa. Tão feio o nome do título: HEXAcampeão. Parece nome de doença. Uma pausa para arrumar as meias e outra vez a França! Resta torcer por Felipão, mas.

Mas.

Saudade da coleção de cards, ainda guardada — e completa — em uma caixa na estante. Bater card com o vizinho na mureta da garagem de casa (a mão miúda fechada em concha e o card enorme, como era possível?). O goleiro da Romênia era o mais disputado. Os uniformes parecem tão velhos nas imagens. Quantos anos tem o filho de Bebeto?
Então, agora, 2010. África do Sul. A seleção que já passa arrasando, devastando Itálias e Argentinas. Quantas copas ainda haverá? Quantas copas já houve? O mundo parece que começou ontem. E ela esteve ali, para ver nascer o futebol. Sim, mais uma copa. O futebol não vai acabar nunca.

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