como começam as revoluções

o mundo anda muito esquisito e a esquisitice enfim se instaurou de uma vez também no Brasil — de uns anos que ela já vinha clamando por espaço e importância. não sei se houve um tempo em que nós seres humanos fomos capazes de nos entender, mas sei que não parece que estamos caminhando no melhor dos rumos.

no começo do ano recebi no whatsapp uma dessas correntes de positividade explicando que o universo estava entrando em uma nova fase, que os seres não sei de onde estavam alinhando qualquer coisa, que as energias cósmicas estavam trabalhando para construir uma grande mudança e revolução e não sei mais o quê. ao contrário do que seria talvez sensato, continuei lendo, e clicando naquele “ler mais” que aparece no final das mensagens quando elas têm um tamanho que contraria o bom senso da tela do celular. o texto era bem escrito, sim. era coerente em si mesmo, mas era uma bolha flutuando no espaço da lógica, desamarrada de qualquer relação com a realidade. as relações causais nasciam e morriam ali, dentro da retórica do texto, isoladas de tudo e todos. uma bela obra de ficção. o universo está mudando. as energias cósmicas estão atingindo uma nova etapa de consciência e o planeta terra faz parte disso — e perceberíamos as mudanças a partir de agosto ou setembro de 2018. nós, também, seguimos a uma nova consciência, abraçados por essa energia renovada que nasce do movimento das galáxias e do espírito do tempo.

recentemente, ainda, outra mensagem espetacular: atenção, isso só acontece uma vez a cada MIL ANOS. some o ano de seu nascimento e sua idade, e o resultado será 2018! é incrível! funciona com TODO MUNDO! certamente é um sinal de algo grandioso.

o discurso, não é? a gente presta pouca atenção no conteúdo, no que está de fato sendo transmitido. a gente se agarra à forma. um texto gigantesco sobre energias e consciências deve ter base em alguma coisa, afinal. quem escreveria aquilo tudo, se não fosse certo?

ilustração: william bonner na tv.

(e eu me pergunto, de verdade: quem escreve essas coisas?)

a gente esquece que textos e discursos não se escrevem sozinhos. não nascem de um poço de verdades e fatos.

que as verdades e os fatos são um pouco o que fazemos deles.

porque quando eu escrevo assim, VERDADE, são meus dedos que golpeiam as teclas do computador.

a bíblia não se escreveu sozinha.

(nem mesmo se foi deus em pessoa quem apareceu para ditar suas palavras divinas a um escriba. sem o escriba, não tem bíblia.)

como professora, fico muito mais horrorizada com a hipercorreção do que com esses erros banais de ortografia e gramática: concordância, regência, exceção com ‘ss’, ‘vi ela’ e ‘me dá um abraço’. escrever como se fala é honesto, mesmo quando contraria a norma culta e a formalidade. pois o que me parece mais aberrante é ‘o mesmo’, mesóclises despropositadas, ‘este’ e ‘tal’ como pronome direto e outros malabarismos que os adolescentes gostam de fazer para evitar repetir palavras. o formalismo forjado, inventado, inexistente.

é achar que a forma vale mais do que o conteúdo: é achar que precisa escrever difícil pra escrever bem.

e a gente acredita. primeiro acredita na mensagem bem escrita, com palavras bonitas e verbos que nunca vi antes. depois acredita no delírio lógico e somar o seu ano de nascimento e sua idade porque afinal ESTÁ ESCRITO e FUNCIONA.

nunca houve tantas coisas escritas. por todos os lados.

meu conselho a meus alunos sempre foi: desconfie de tudo que estiver escrito.

duvide sempre.

se está escrito, alguém escreveu.

se alguém escreveu, escreveu com um objetivo. todo texto tem segundas intenções. procure as segundas intenções nas entrelinhas.